Carta aberta aos leitores deste blog:

É verdade que às vezes parece que a minha vida anda numa roda viva continuamente em tempestade.

Quem nunca passou por um momento ou uma fase um mesmo um par de anos em que tudo o que nos acontece parece que vai de mal a pior e nós achamos que o Universo se revoltou contra nós e estamos a ser as maiores vítimas do mundo?

A grande diferença neste momento da minha vida, é a forma como eu passei a encarar estas e coisas e como deixo que elas me afectem.

Não sou de ferro, choro muitas vezes, a grande maioria delas sozinha em casa e às vezes abraçada à gata que é a única que não faz perguntas estúpidas e me lambe as lágrimas com o maior dos carinhos. Não sou de ferro, mas gosto de parecer que sim.

Houve uma altura na minha vida em que me agarrava a alguém só para chorar e tirar esta angústia do peito que me consumia e à conta disso acho que a minha angústia passou toda para essa pessoa.

O facto de chorar ou de me sentir triste não faz de mim uma fraca. Muitas vezes, e por mais cliché que isto seja, faz de nós mais fortes por termos a capacidade de tirar a máscara e mostrar o que está ali por baixo.

Mas quando tiramos a máscara ficamos obviamente mais vulneráveis. Talvez por isso seja tão difícil para mim fazer isso com outras pessoas. Há um ciclo restrito que me permite fazê-lo. Mas há medida que o tempo passa o ciclo torna-se cada vez mais restrito.

Quando temos a capacidade de nos abrir com outra pessoa, o grau de confiança que se exige é superior aquele que exigimos aos que apenas convivem connosco mesmo sem nos conhecerem.

E aquele que tem o privilégio de ver alguém frágil, a pedir ajuda, a chorar as mágoas ou simplesmente a desabafar o que nos atormenta, deve estar consciente da responsabilidade que assume  Ter as fragilidades dos outros nas nossos mãos é semelhante a ser um cirurgião cardíaco com a responsabilidade de reparar um coração defeituoso.

Isso implica não só uma ética que tem de ser irrepreensível como também a capacidade de por aqueles instantes deixarmos de nos centrar em nós e sermos altruístas o suficiente para pôr o bem-estar do outro acima dos nossos defeitos, para não os apelidar de pior forma.

Acima de tudo, há um pré-requisito fundamental e que nunca pode ser quebrado. Tudo aquilo que dizemos não pode nunca ser usado contra nós.

A capacidade de ouvir e não julgar é rara. Não sei sequer se existirá. Muitas das vezes ouvimos e não falamos, ainda que o julgamento esteja implícito e na nossa cabeça. Também muitas vezes acontece que após algum tempo  constatamos que ele era errado ou estava distorcido apenas pela visão unilateral do acontecimento.

Independentemente disso, a confiança que o outro nos deposita não nos dá o direito de o julgar. Emitir uma opinião, um parecer, comunicar o nosso ponto de vista é diametralmente diferente de julgar o outro por aquilo que são apenas os nossos valores muitas vezes desprovidos das emoções que nos estão a ser comunicadas.

Acima de tudo, dizer a verdade ou aquilo que consideramos ser a verdade, não é ofender. É tentar fazer o melhor que conseguimos pela outra pessoa. E isso nunca poderá ser confundido com ofensa, mágoa ou um sentimento pior de desrespeito.

Quando eu escrevi aqui que alguém que eu considerava amigo me tinha feito sentir uma merda, não foi de ânimo leve. Não foi porque me magoou com algo que me disse. Foi porque após a análise das coisas do meu ponto de vista, do ponto de vista do outro, da racionalização da coisa cheguei sempre à mesma conclusão: fui magoada, o que em última análise me leva a uma tamanha e total falta de respeito por mim mesma.

Quando ali em cima disse que o que mudou ultimamente foi a minha forma de ver as coisas, não o disse de ânimo leve. Disse-o porque acredito que muitas vezes quando não vemos o óbvio, a vida encarrega-se de continuar a mostrar-nos o que sempre esteve lá mas nós nunca fomos capazes de enxergar. É como quando conduzimos e não vemos os sinais de trânsito e passamos o primeiro amarelo e o segundo  e o terceiro. E o semáforo passa a vermelho e nós continuamos a não ver  vamos passando incólumes até ao dia em que o grande acidente se dá. E não há forma de evitar os danos, senão assumir que não vimos o sinal e que a culpa é nossa.

A vida também funciona assim. 

Acima de tudo, importa perceber que quando alguém nos faz sentir uma merda é porque o permitimos. Mas isso nunca pode ser confundido com amizade.

E isso nunca caberá na minha definição de amizade.

Comentários

Duckman disse…
eu, enquanto leitor "disto" agradeço a partilha destes pensamentos.
Benedita disse…
Faço tão minhas, as tua palavras. Revi-me. E sabes o que mais me custa? É que o que desabafei (e tu referiste esta questão)foram armas com as quais me agrediram depois...
Ana disse…
As pessoas que me são mais próximas costumam dizer que nunca ouvem um desabafo meu, daqueles sérios, que vêm de dentro. E não ouvem, de facto. Talvez seja a minha forma de mostrar que nem sequer me dou a hipótese de me desiludir com alguém.
Calíope disse…
Também acho que a vida tem esse aspecto didáctico e põe-nos a mesmo lição à frente até a aprendermos... ou partirmos a cara.

Há pessoas que nos desiludem, mesmo sendo nossas amigas. Cada vez acho mais provável isso acontecer. No entanto, uma coisa é ficarmos desiludidos, outra é sermos enxovalhados. E isso sim é inaceitável.
Scarlet Red disse…
Espero que a vida te traga muitas coisas boa em breve :) e também espero que me tires daqui esta coisa que me manda provar que não sou um robô!
Ana 100 Sentidos disse…
Para já, deixem-me demonstrar o meu espanto pro tanta gente ler um post tão longo.
Na era dos adeptos do speed bloging isto surpreende-me!

Ana 100 Sentidos disse…
Scarlet Red,
Lamento mas não posso!
Quando não tinha essa coisa chegava a receber para cima de 20 comentários no mesmo post com spam. Sorry...
pedro b disse…
entendo-te bem
O Sexo e a Idade disse…
Isso é tóxico, não tem nada de amizade!
O Olhar do Lobo disse…
concordo com tudo menos com a parte da sinceridade, é possível ser sincero quanto baste sem ofender e sem magoar, mas para isso é preciso ser educado, talvez o problema fosse esse e não a sinceridade em si mesma

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