Não me perdoo.

Aquela coisa de quem não se arrepende de nada do que fez, é conversa típica de miúdos que nunca cresceram e não querem sequer pensar na vida e na consequência das escolhas que fazem à medida que vão traçando o seu caminho.

É o mesmo que alguém dizer que nunca errou e é o supra-sumo do mundo porque fez sempre o certo. Que é diametralmente oposto a fazer o que se acha certo numa determinada altura/acontecimento da vida.

E todos sabemos que há muitas coisas que teríamos mudado se tivessemos o dom da profecia inscrito em nós. Ainda ontem ao jantar aflorava o tema com uma amiga, a propósito dos relacionamentos que não teríamos tido se soubessemos o que sabemos hoje. 

Obviamente que esta é conversa de velhos. Lembro-me perfeitamente de ouvir os meus pais e avós a falarem disto e eu achar que aquilo era uma conjunto de gente envelhecida e amargurada com as escolhas que fez e que eu nunca seria assim porque iria sempre decidir em consciência para que o tal peso da arrependimento nunca me entrasse alma adentro. Tão ingénuos que nós somos aos 15/16 anos.

Hoje, outros tantos anos a mais, arrependo-me de não ter ido trabalhar para a Guiné quando tive a oportunidade, de não ter nunca vista Cat Power ao vivo, de ter aceite um trabalho onde fui explorada desde o primeiro dia, de nunca ter tirado a licenciatura em Jornalismo, de ter perdoado pessoas que me fizeram mal, de ainda não ter arranjado o tempo necessário para aprender alemão, de ter magoado pessoas que não mereciam, de não ter dado o melhor de mim em muitas alturas em que isso era o mínimo aceitável.

Mas hoje olho para trás e percebo que fiz sempre o melhor que pude dadas as circunstâncias que vivia. Há alturas em que não temos maturidade suficiente para pura e simplesmente fazermos melhor.

No entanto, há uma coisa que não me perdoo ainda. 

Não ter lido Saramago mais cedo. 

Comentários

Duckman disse…
"Se os velhos pudessem e os novos soubessem."

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