A minha especial aptência para equídeos.

Se a minha avó fosse viva teria hoje 93 anos. A minha mãe está quase a chegar às 56 primaveras e eu caminho apressadamente para os já famosos 30. 

Somos 3 gerações de mulheres totalmente distintas que viveram em épocas tão diversas que as suas vidas pouco têm que contar em comum. 

A minha avó morreu quando eu tinha 19 anos e raros são os meses em que não me lembro dela. Não sou especialmente religiosa ou crente. Não sei se há alguma vida depois da morte, mas conforta-me acreditar que ela sabe onde estou. 

Aos 19 anos, tive de ser eu a receber a notícia de que a minha avó tinha morrido quando chegámos finalmente ao hospital, porque ninguém mais teve a coragem necessária para confirmar o que todos suspeitávamos. Lembro-me frequentemente de com aquela idade ninguém sabe nem tem de saber como dizer à mãe que a mãe dela partiu. 

Valeu-me na altura um pai que tinha o tamanho de ombros necessários para me amparar a mim, depois de eu própria ter amparado a minha mãe. Nessa altura fui mãe, pai, filha, neta, sobrinha, afilhada, irmã, sei lá. Tantos papéis desempenhei a tratar de um processo burocrático de morte e funeral que me esqueci de que eu própria também precisava de chorar a perda de alguém que sempre foi um pilar na minha vida. 

A minha avó foi a primeira mulher da aldeia a montar um cavalo sentada de frente. "À homem", como se dizia naquele tempo. Foi a primeira mulher que conheci a ganhar corridas de cavalos numa cidade. E que gostava de apostar só por gozo dela e nela própria. 

A minha mãe foi a primeira mulher da família a ir para a Universidade estudar. E foi também a primeira a tirar a carta de condução e ter um carro. Mas a minha mãe preferia apostar em mais cavalos e fazia questão de conduzir um Fiat 127 a 120km/h numa estrada nacional sempre que podia. 

Cresci sempre com mulheres cheias de personalidade. Que sabiam bem o queriam, que tinham objectivos, que apostavam alto e que prezavam a liberdade acima de tudo. 

Não é fácil crescer numa casa assim. Temos de lutar muito. Não só para sermos notadas no meio de tantos egos, como também para sermos dignas da admiração que percorre os homens da família. 

Para mim, naqueles tempos, as mulheres eram as heroínas. Os homens estavam lá, olhavam-nas com admiração, suspiravam por elas e em última análise faziam tudo o que lhes era dito/mandado/pedido sem grandes ondas. Eles sabiam melhor do que ninguém de que eram capazes aquelas mulheres. Especialmente quando elas queriam alguma coisa. 

Hoje olho para trás e vejo sem grandes dúvidas que me tornei numa delas. Numa dessas mulheres que aposta alto, que tem pouco a perder porque sabe o que quer e menos do que isso nunca vai valer a pena, digna da admiração de muitos mas capaz de estar com poucos. 

E sempre que penso em contentar-me com menos envergonho-me. Porque esteja lá onde a minha avó estiver, eu sei que ela não iria aprovar a decisão. E eu não quero envergonhar a geração de mulheres que tanto fez para que eu própria também lhe pertencesse. 

Mas especialmente porque depois de tanto tempo eu já tinha a obrigação de saber quais os melhores cavalos para apostar todas as minhas fichas.

Comentários

Vicky disse…
Ainda és novinha, nada de dramas :)
Ana A. disse…
É só um balanço!

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