Receita para curar desgostos de amor, by Ana A.

Chateei-me com o meu melhor amigo esta semana. Mas uma chatice feia e a segunda séria no espaço de menos de 15 dias. Acho que desta é de vez e acabou-se a amizade boa que conseguimos ter até agora.

Já desde o Liceu que me lembro de ser a miúda com mais amigos rapazes que conhecia. Sempre fui vista como one of the boys e tratada como one of the girls. Há inúmeras vantagens nisto, como facilmente percebem. Não só temos um acesso desmedido à mente masculina como facilmente percebemos quem não vale a pena e quem vale. É assim uma espécie de separar o trigo do joio. E já agora deixem que me vos diga que a mente masculina é básica na sua essência sim, mas tem uma série de complexidades que nos escapam.

O meu melhor amigo tem a característica única de ter sido meu namorado. Daqueles que amamos de paixão a sério, de tal forma que quando temos racionalidade suficiente para perceber que nada daquilo vai funcionar para nós, o amor que fica é tão grande que é impossível não se tornar em amizade.

A amizade para mim é isto. É amar. E amar de tal forma que quando ele nos diz que tem uma namorada nova uma parte de nós sofre por isso mas ganha a outra em que nós ficamos genuinamente felizes pelo acontecimento. Porque gostamos da pessoa de tal forma que queremos que ela seja feliz, mesmo que longe de nós.

Sei que chegar a este ponto não é um caminho linear. Na maioria dos casos, o mais fácil mesmo é cortar relações de vez. Apagar o cabrão do gajo Facebook;  apagar as mensagens trocadas com juras de amor eternas; mudar o nome da pessoa no telemóvel para Tóxico (não me digam que nunca fizeram isto?) ou Não Atender; guardar as fotografias nas profundezas do baú do disco externo; nunca mais voltar aos sítios onde se foi feliz com essa pessoa (é nestas alturas que os provérbios populares fazem sentido!); devolver presentes e todos os vestígios da presença do filha da mãe na nossa vida e ficar a chorar as mágoas 5 dias seguidos com uma baixa psicólogica em casa porque só temos vontade de nos atirar do terraço do Arco da Rua Augusta abaixo.

No meu caso a receita é simples: aprender uma letra de uma música nova. Qualquer coisa que goste bastante mas há qual não tenha ainda prestado atenção suficiente para a decorar. 

A coisa tem todo um processo a ser seguido. A escolha é mais por intuição do que por razão, já que isto me permite apaziguar a parte que diz que não devia ter seguido a minha emoção. Depois é googlar a letra da dita na internet, fazer um print e começar a cantá-la várias vezes seguidas até conseguir finalmente memorizar tudo. Se quiserem apimentar a coisa, cantem apenas com uma versão acústica no Youtube. Comigo não dá, canto demasiado mal sozinha para isso e prefiro sempre a companhia do artista, já que para sozinha me basta a minha vida amorosa.

Se a primeira parte do processo for seguida e o êxito tiver sido atingido é só passar à segunda fase. Sempre que o trubufu nos assomar ao pensamento basta procurar a música e começar a cantá-la sem precisar da letra e sem errar nenhuma palavra. 

Pode parecer-vos uma receita estranha, mas a verdade é que o nosso cérebro não consegue pensar em duas coisas ao mesmo tempo. E enquanto se perde a aprender uma letra nova e a decorá-la está a impedir-vos de pensar no desgosto amoroso que vos partiu o coração. E se tiverem persistência suficente para a aprendizagem, eventualmente acabarão por dar menos importância a esse assunto e torna-se mais fácil esquecer e deixar o tempo passar.

E se forem miúdas exigentes não se fiquem pelo inglês. Cantem francês e alemão. Mesmo que não acertem no sotaque, estão já a praticar para impressionar o próximo com a vossa cultura musical desmedida.

Comentários

Calíope disse…
Realmente a gente estudou pela mesma cartilha. "Tóxico" nunca escrevi, mas era como tratava determinada pessoa que tb passou a chamar-se "Não atender" ou "Não falar" e era outra coisa qualquer q agora não consigo lembrar-me.

Recomendo para letras em alemão: Xavier Naidoo.
bjs
A Chata disse…
Quinto parágrafo.

Somos gémeas?
Ana A. disse…
Calíope,
E ainda havia dúvidas?
Ana A. disse…
Chata,
Não! Tu és muito mais gira, mais magra e mais loira!
Mas primas podemos ser.
A Chata disse…
Não acredites em tudo o que lês ;)
Catarina M. disse…
então e conta lá, que música é que aprendeste recentemente? eu tou aqui, tou quase a decorar o novo álbum todo do Jamie Cullum...
Ana V. disse…
Pá, adorei a receita. Vou começar já a cozinhá-la!
Bom texto, sim senhora :)

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