Porque viajo e não escrevo.

Quem me conhece por detrás deste blog e acompanha a minha vida no seu dia-a-dia mais ou menos normal, pergunta-me com grande espanto porque não escrevo sobre viagens.
Nunca pensei muito sobre isso. Acho que não escrevo sobre tudo o que vejo ou faço porque para mim viajar deixou de representar a saída da minha zona de conforto e passou a fazer parte da minha rotina, nos últimos 4 anos.

É inevitável que perante quem me acompanha via blog e não me conheça, uma das primeiras e inevitáveis perguntas seja o que faço para viajar tanto. 

Como costuma dizer a minha mãe, tive sorte! Mas lutei também muito por isso. Deixei um emprego de 35h semanais na função pública e a ganhar mais 200€ para vir para o sítio onde trabalho agora. E sim, tive a sorte de viajar como parte do meu trabalho.

Se os outros só vêem as coisas boas de passar a vida a conhecer sítios e apanhar aviões, esquecem-se mais facilmente do que significa estar 1 semana inteira fora de casa e longe de quem gostamos. Do que é acordar às 4h ou 5h da manhã para ir apanhar aviões semanalmente, do que é desejar uma francesinha e não haver nada semelhante para comer na zona, do que é alguém fazer anos e nós estarmos a milhares de kms de distância via skype a cantar os parabéns, do que é andar a correr todas as semanas e fazer horários para ver quem trata da gata nos dias em que eu não estou ou do que é chegar a casa exausta às 23h e não ter nada para comer no frigorífico nem pão fresco no dia seguinte de manhã.

Independente de tudo isso a minha postura não muda. Quero mais e até lá concentrar-me-ei apenas no lado bom da vida. Indubitavelmente, para mim o copo estará sempre meio cheio.

Se não escrevo sobre isso é apenas porque, tendo esta postura perante a vida, todos os acontecimentos que vivencio são extremamente pessoais e marcantes.

Podia facilmente dizer-vos que Praga será sempre a cidade onde sei que sou uma lutadora e consigo superar-me a mim mesma. Que Budapeste fez-me desejar cozinhar grandes jantares para todos aqueles que amo e recebê-los em minha casa sempre de braços abertos (acho que ando a ver o vídeo de segurança da TAP, vezes a mais!). Que Sevilha dá-me vontade de me sentar e ficar apenas a ver passar os outros e ouvir os sons da rua. Que Veneza me apaixona de todas a vezes que lá vou e percebo que podia facilmente viver ali, perder-me de amores ali, ainda que seja cliché. Que a Sicília me faz sentir em casa e onde posso falar um quase português. Que a Suécia tem uma luz quase melhor que Lisboa e que as 24h de luz foram das experiências mais extremas e marcantes pelas quais já passei. Que sempre que vou à Holanda sinto-me literalmente em casa e acabo a ter jantares de portugueses ou com dezenas de pessoas que nunca vi. Que para mim a Polónia terá sempre um silêncio opressivo, como se o nazismo ainda ali morasse (já disse isto antes no blog). Que Lijubljana seria uma das poucas cidades onde me via a morar e Bled é das coisas mais lindas e principescas que já vi.

Teria e terei certamente muito que contar. Perdoem-me os apaixonados de viagens se não o faço, mas para mim as viagens são tempos só meus, onde só o meu mundo existe. 

E pôr experiências que nos mudam em palavras parece-me sempre atentar contra a simplicidade da vida e a complexidade dos momentos que vivo em cada um dos lugares. Além do mais, não sei se tenho em mim a capacidade de descrever tudo o que vivo. A minha vida é tão grande que, para mim, resumi-la em palavras retirar-lhe-ia todo o seu significado.

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