Por mais cliché que seja dizê-lo.

Fui acusada de ter demasiados amigos, daqueles que só servem para festas e jantares. Dito assim a crú e a nú, daquela forma amarga como se conhecer pessoas e estar com os outros fosse motivo de crítica avassaladora e destrutiva, porque todos sabemos que ninguém tem assim tantos amigos como eu.
E depois para se ter tantos amigos eles não podem ser dos bons, daqueles a quem ligamos às 2h da manhã porque não encontramos um táxi em Lisboa e eles nos dizem qual a melhor opção ou saiem de casa de propósito para nos levarem à nossa ou nos dizem que podemos dormir em casa deles.
Ninguém com tantos amigos pode contar com nenhum deles para nos levar ao hospital num Domingo de praia porque cortamos o dedo mindinho do pé e já enchemos o chão de sangue e não conseguimos fazer nada porque a nossa tensão arterial está prestes a cair. Nenhum deles seria capaz de fazer 30 km em menos de 15 minutos só porque sabe que se nós ligamos é porque é mesmo grave e urgente.
O número de amigos parece ser inversamente proporcional à disponibilidade para dormirem no nosso sofá e passarem a noite acordados a fazerem-nos chá enquanto vomitamos de hora a hora e achamos que vamos morrer.
O que provavelmente ninguém sabe, ou poucos percebem, é que conhecer pessoas não é ter amigos e ter amigos não é garantia de coisa nenhuma.
Eu não espero que os meus amigos sejam eternos e não chamo todos os que conheço de amigos. Se até a família se chateia, os casais se separam, os filhos abandonam os pais, seria muito ingénuo da minha parte achar que os amigos teriam de ser eternos. Os amigos são enquanto quiserem ser e estiverem disponíveis para estar lá e fizerem o esforço para manterem a amizade. Podem passar anos ou milhares de kilómetros, nada nos impede de estar nem que seja do outro lado do telefone enquanto choramos mais uma partida que a vida nos pregou.
A única coisa que sei é que aqueles a quem eu apelido de amigos são a minha família de coração e aquela que eu escolhi. Esta é a única coisa de que me podem acusar.

Comentários

Calíope disse…
Deixa-me adivinhar, a pessoa que te disse isso tem dois amigos: UM amigo que conheceu no infantário e tal, mas entretanto o amigo casou e a pessoa sente-se como se tivesse ido com os porcos e a outra amiga é para aí a irmã. É isso? Estou contigo: "amigos" tal como "família" são meros rótulos, se as pessoas não cultivam os laços, eles não valem nada. Independentemente de ter 2 ou 20 amigos...
Maria Caxuxa disse…
Que lindo texto! O que mais me custa é ouvir algo do género de alguém que se diz realmente meu amigo mas com um tom de superioridade em relação aos "amigos da festa". Como se eles não prestassem só porque preferem a noite à cama e gostam de copos. E vai-se a ver e são esses que mais auxílio e apoio me prestam... eu achava que era possível ter uma outra amizade como eterna pela sua já longa duração... afinal tenho que pensar como tu e aceitar que com as mudanças de vida, se nós próprias mudamos os amigos também mudam... mas não necessariamente no mesmo sentido.

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