
Tantas vezes achei que andavas perdido no mundo e não te conseguias encontrar. Tantas vezes pensei que me querias como porto de abrigo, onde voltavas quando te sentias só e perdido na vida, sem saberes o que fazer a seguir. Tantas vezes me senti como o teu ninho, quente, fofo, aconchegador e no qual dormias em paz, a sono solto sem os comuns pesadelos que te assaltavam até então.
E hoje que não me importava que me voltasses a procurar para fazeres de mim esse teu refúgio, já não estás cá. Já procuraste outro lugar que te aquece melhor do que eu, provavelmente.
Mas hoje, com este dia horrível de Inverno que por cá se abate, quem tem vontade de te procurar sou eu. Tenho vontade de parar em fente a tua casa e esperar que me sintas e me abras a porta, mais uma vez.
Tenho vontade de olhar para ti e desatar a chorar por tudo aquilo que a vida nos prometeu e não nos deixou cumprir. Tenho vontade de entrar, tocar os teus espanta-espíritos e sentir o cheiro doce e quente que me invade sempre que entro em tua casa.
Tenho vontade de me deitar no teu sofá enquanto me acendes a lareira e esperas que o fogo crepite, para te vires deitar junto a mim. Tenho saudades que me beijes, me abraces, me ames e depois que me deixes adormecer junto a ti.
Mas não o faço, não o posso fazer. Pediste-me para me afastar e compreendo o teu sofrimento. Imagino a dificuldade de viver com um peso desses e uma decisão forçada que nunca tiveste que tomar.
Por isso, vagueio nesta cidade à procura das recordações que fizemos e vivemos os dois. Por isso, hoje, a vagabunda sou eu...