
Enquanto divago nos pensamentos de que da próxima vez trago um gorro de aviador, daqueles que prendem o cabelo e têm uns óculos estranhos para andar a voar, porque detesto conduzir com o cabelo a bater-me na cara, olho para o retrovisor e dou de caras contigo.
Não acredito que me vens a seguir à cerca de 5 kms e foste incapaz de me fazer notar a tua presença. Apenas te colaste à traseira do meu descapotável. Devias querer apanhar algum dos meus inúmeros cabelos que voam, devido à velocidade com que conduzo.
Não sei os motivos que te levam a seguir o mesmo caminho que eu, mas como já aprendi a não acreditar em coincidências, apostaria na hipótese de vires fazer qualquer importante à cidade.
Colas a frente do teu carro mesmo à traseira do meu. Agora sim, queres que eu repare em ti. Mas de propósito não vou olhar, já percebi que estás aí e que vens a seguir o mesmo caminho que eu. E vens com ela, também já vi.
Mas nem sonhes que vou deixar que me ultrapasses. Nem que para isso leve o carro ao limite. Nem que para isso tenho de me despentear toda e ficar com o cabelo cheio de nós.
Discretamente olho para ti. Reparo no teu olhar colado a mim. Já devias saber que eu vinha para casa a este hora. Só não sei que desculpa lhe terás dado para vires à cidade a esta hora. Será que ela sabe o que se passou entre nós? Não deve saber, caso contrário não estaria a apreciar a paisagem que lhe vai desfilando diante dos olhos.
Talvez por isso sorris. Porque os meus olhos encontraram os teus no retrovisor do meu carro. Apetecia-me travar e fazer-te colar a mim. Tal como os nossos corpos fizeram há uns anos atrás.
Não sei porque tenho ciúmes dela. Afinal de contas fui eu que não te quis mais. Servi-me de ti como os reis se servem dos súbditos. Cheguei ao ponto de estalar os dedos só para te ver a correr para mim.
Mas não és burro. Percebeste os meus jogos e quiseste jogar também. Má jogada! O jogo perdeu o interesse e foste à procura de uma nova mesa. É ela a jogadora ao teu nível? Ou é apenas alguém que podes vencer quando a sede de jogo é maior que tu próprio?
Aceleras e tentas ultrapassar-me mais uma vez. Não deixo, nem que para isso te force a manobras bruscas. Pode ser que assim ela repare que não é inocente a tua vinda até aqui. Porque é que havias de me tirar o prazer de sentir a liberdade quando conduzo o meu descapotável? Tu sabes que este sempre foi o meu carro de sonho. Desde a adolescência, quando sonhava ter 18 anos e poder tirar a carta que dizia que comprava um descapotável. Porquê hoje que precisava de me evadir da vida?
Resolvo trocar de lugar contigo. Lentamente abrando quando a recta se aproxima e deixo-te ultrapassares-me. Quero ver se vens mesmo a seguir-me ou se apenas vens nos mesmo caminho que eu. Quero testar-te mais uma vez. Jogar mais um jogo contigo.
Continuo em velocidade de cruzeiro e aprecio a liberdade dos cabelos ao vento. Tal como eu previa abrandas também. Mais um jogo em que te venço. Eu sabia que vinhas atrás de mim. Onde será que vais a esta hora?
Não me interessa. Já venci a minha aposta e não me interessa subir a parada. Apenas te sigo para lá mais à frente te perder. Quero que penses que controlas. Gosto de ver os teus olhos azuis reflectidos no teu retrovisor.
Agora já deves achar que estás em vantagem. Pois ilude-te mais uma vez. Viras à direita e viro atrás de ti. Quero dar-te a confiança que se dá a um jogador antes de se dar o golpe final. Deves achar que vou atrás de ti, mas a tua vida não me interessa mais. Gosto de ser o caçador não a presa.
Voltas a virar à direita e eu acelero, prefiro a esquerda desta vez. Não tens hipótese, demasiado tarde quando dás conta e não podes voltar atrás. Digo-te adeus mais uma vez. Se tivesse um lenço branco deixá-lo-ia voar até ti.
Para mim, o jogo perdeu o interesse…
Escrito dia 27 de Setembro de 2006