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A maior história de Amor:

É a do Sol que decidiu morrer todas as noites para deixar que a Lua vivesse tanto tempo quanto ele.

De como eu não acredito na regeneração masculina...

O J. apaixonou-se pela M. quando tinha 23 anos. Viu-a uma vez à saída de um café logo ali ao pé da Faculdade e achou que aquela era a mulher da vida dele.

Decobriu que ela era amiga de um colega seu, e curiosamente vivia perto dele ali em Lisboa. Foi à conta disso que começou a oferecer-lhe boleia à noite quando saiam todos até tarde.

Não sei se a M. achou o mesmo do J. ou não. Sei apenas que aos poucos acabou por acreditar naquilo que ele lhe dizia e ao fim de 3 anos de namoro casaram os dois e foram morar juntos numa casa grande, porque tinham possibilidade económicas para isso, bem no coração da cidade.

Depois disso, sei também que o J. e a M. tiveram 3 filhos rapazes lindos e fantásticos, que compraram mais tarde uma casa ainda maior e que as coisas decorreram tranquilamente durante 7 anos da sua existência enquanto marido e mulher.

A C. estudava Psicologia também em Lisboa. Terminou o seu Curso, conseguiu o seu primeiro emprego e um contrato e ao fim de 2 anos comprou a sua primeira casa com vista para o Tejo. A C. é uma rapariga cheia de vida, com um dos sorrisos mais contagiantes que eu conheço e que gostava muito de sair à noite para se divertir com os amigos.

Numa dessas suas saídas a C. conhece o J., nesta altura diz ele já ser divorciado da M. com a qual tinha deixado os seus 3 filhos adorados. Sendo a C. a mulher fantástica que é, não me espanta que o J. tenha reparado nela e tentado a sua sorte.

Com o decorrer do tempo e da insistência a C. acaba por aceitar partilhar a sua vida com o J. O facto dele ter quase 10 anos a mais e um fantástico background cultural e financeiro ajudaram a que esse fascínio e paixão falassem mais alto.

Primeiro o J. vai morar para a casa da C. Deixa o seu quarto, entretanto retomado em casa dos pais e aceita partilhar um quartinho com vista sobre o Tejo. Mas com o evoluir do tempo, acabaram por comprar uma casa maior muito próxima daquela onde inicialmente moravam os dois.

Durante este tempo, a M. ficou sozinha com os seus 3 filhos e com amaragura de um casamento destruído. Os pais do J. não sabem quase da existência da C. e apenas quando os dois compram casa é que acreditam que o divórcio é permanente. Quando a notícia cai, a M. impõe uma restrição judicial que apenas pemrite ao J. ver os filhos ao Domingo à tarde e sempre longe da C, e da casa deles.

A C. e o J têm uma filha e a vida deles decorre normalmente. Exceptuando a parte em que os pais do J. não querem saber do facto de terem mais uma neta. E de a M. continuar a tentar tramar a vida dos dois, à mínima oportunidade.

Até que ao fim de 1 ano, a C. recebe um telefonema logo no início do seu dia de trabalho que lhe diz que o J. terminou tudo com ela.

Sem saber o que pensar ficamos nós, colegas de trabalho da C., meras espectadoras desta novela mexicana.

Filhos da put@ dos gajos, pá...

O mundo ao contrário...


Sentava-se todos os dias na soleira da porta. Era coisa rara este seu sentar, porque em Lisboa além de haver poucas portas com soleira, já ninguém passava tempo sentado nelas.

As pessoas habituaram-se a criar caixas de fósforos onde habitam, sem o menor interesse pelos incêndios que vão deflagrando nas caixas de fósforos ao lado.

Como que para compensar este facto, fazia o seu pequeno fogo sempre que acendia um cigarro, com as suas mãos mirradas pelo árduo suor que lhe saiu do corpo nos anos em que era capaz de o libertar.

Agora, após cerca de 80 anos de tudo isso limitava-se a incediar os seus pulmões, sem prejudicar mais ninguém com o seu fogo. Hoje em dia, já podíamos falar de preocupações ambientais e no facto do seu pequeno fogo poder incendiar também alguma da natureza que o rodeava. Mas em Lisboa a natureza é tão morta como o era a sua alma quando se sentava na soleira da porta.

Via sempre Lisboa a acordar e a adormecer, enquanto traçava com o seu lápis ainda afiado pela faca que guardava da guerra, os riscos que compunham as suas palavras cruzadas. Num raro dia de mudança fazia sopas de letras onde elas próprias se misturavam com os pensamentos e as imagens que guardava dessa mesma guerra da qual guardava a faca.

Nessa monotonia de dias, via muitas das coisas que mais ninguém vê. E ao contrário de muitos de nós, nunca viu a vida a passar-lhe pela frente.

Porque essa ele agarrava com os olhos, todos os dias quando se sentava na soleira da porta.

Lá longe...

Ele sorria com a mesma leveza com que sempre obedecia às ordens que ela lhe dava. Sorria como se essa fosse a sua forma de dizer que estava tudo bem. Não havia motivos para preocupações de maior. Afinal era apenas mais um problema como tantos outros que já lhe haviam acontecido.

Aprendera que mais valia sorrir à vida do que desperdiçar as poucas energias que conseguia acumular a chorar pelas desgraças que tão somente a ele lhe aconteciam. Já era suficientemente difícil ter energia para viver. Não ia gastar as poucas que tinha a chorar por estar vivo.

Aprendera também com o passar dos anos e com eles, das dificuldades que mais valia sorrir e fazer troça dela, (da vida essa puta!) do que chorar. Não lhe ia dar esse gozo. Preferia troçar dela e espezinhá-la do que deixar que fosse ela a fazer-lhe isso a ele.

Nem que essa fosse uma das últimas vezes em que ainda o pudesse fazer...

Fragmentos de vidas - II



A minha casa não tem um pinheiro de Natal.

Sei que é Natal apenas porque lá fora vejo as luzes penduradas nas ruas e oiço os cânticos enquanto caminho nas ruas a fazer o meu trabalho de sempre.

Na verdade, eu não tenho casa, por isso é normal que não haja lá um pinheiro de Natal. Vivo numa carrinha abandonada que os meus pais foram buscar um dia a uma sucata, lá para os lados de Odivelas.

É uma daquelas carrinhas azuis e brancas que aparecem muito nos filmes que às vezes vejo colado à montra das lojas onde há televisões.

A carrinha não é má. Tem duas camas. Uma para os meus pais e outra para mim e para os meus três irmãos. Não temos casa-de-banho e por isso lavamo-nos com a água que vamos buscar a um furo. Só agora na altura do Natal é que a minha mãe nos leva a todos aos balneários públicos lá de Lisboa e nos obriga a esfregar as orelhas até ficarem vermelhas de tanta esfrega.

Por isso eu percebo que não tenhamos pinheiro de Natal. Não tínhamos onde o pôr, lá na nossa casa.

Mas não faz mal, porque eu e os meus irmãos fizemos um! Havia uma árvore ali ao lado do sítio onde a nossa carrinha está estacionada e nós resolvemos enfeitá-la.

Pusemos as latas das bebidas a fazer de bolas de enfeites, e espálhamos bocados de revistas e jornais para fazerem de fitas.

Não temos estrela, nem presépio. Mas não faz mal... Já estamos habituados...

O problema mesmo é que não temos chaminé!

Deve ser por isso que o Pai Natal nunca se lembra de deixar cá os nossos presentes...

Cinza...



Tenho o corpo coberto de cinza...

Uma cinza cinzenta, escura, espessa. Que se cola a minha pele como um cicatrizante de feridas abertas. Com o ardor característico da cura.

As mulheres procuram crises. Os homens soluções.

Eu procurei a minha, da qual ainda não saí e tu mostras-me as formas de a resolver a cada dia que passa.

Cobres-me o corpo. De cinza...


Volta...



Tenho saudades da cor dos teus olhos. Daquela cor de avelã que combina na perfeição com teu formato de amêndoa.

Tenho saudades do olhar maroto com que me brindavas nos raros momentos em que eu não queria que me despisses dessa forma e nos quais me obrigavas a vestir a capa que nunca me assentou bem.

Partilhei as fraquezas, as loucuras e os desencantos da idade. Quando crescemos não soubemos o que fazer com tudo isso. Arrumámo-los nas gavetas de uma cómoda velha que existia numa das casas dos teus avós. Esquecemos-nos que tinham ficado por lá.

Foste buscá-los com medo de os perderes de vez. Em nome de um amor maior que não sabemos se existiu.

E agora apetece-nos arrumá-los nos lugares devidos. Nas gavetas de tamanho certo, embrulhados em papel de arroz, igual aquele dos teus candeeiros que eu ajudei a transportar.

Trá-los cá para casa. Logo vemos o que fazemos com eles...


Fragmentos...



Ele gosta de uma amiga dela.

Ela gosta de um amigo dele.

São dois estranhos que se cruzam num fim-de-semana que passam em conjunto com muitos mais. A estranheza desfaz-se à medida que conversam e tentam saber dos respectivos amigos.

Jantam juntos numa noite. Bebem alguns copos a mais. Criam uma situação que não era suposto acontecer.

Entram num clima, no qual preferiam estar com os respectivos amigos. Beijam-se, despem-se e criam a ilusão de se estarem a amar.

Porque o fizeram nenhum dos dois sabe...

Porque terá sido?



Uma ilusão...



Ele falava dela com a mesma admiração com que os apaixonados falam das suas paixões.

Admirava as suas curvas, a cor do cabelo, a forma dos olhos e a textura da pele. Enebriava-se com as palavras que ela proferia, as escritas e as verbais.

Via nas suas atitudes uma nobreza de carácter mais adequada a outros tempos do que à actualidade. De tal forma que temia não saber como reagir na sua presença.

Era a presença de alguém que o intimidava. Mas que ao mesmo tempo lhe provocava uma enorme admiração. Alguém que ele aprendera a amar.

Descrevia alguém que não existia. A não ser para ele próprio...

Porque somos como nos vêem.

(Fragmentos de duas vidas reais. Ou três. Ou quatro.)


Vais sempre saber demais...



Gastas todo o teu tempo na espera de uma oportunidade vã.

Esperas uma brecha que te deixe ver que estou bem. Uma razão que te faça sentir que não foste o suficiente na vida que tentaste viver. Há sempre uma razão para que não sejas bom o suficiente, no final de todos os dias que vês desfilar na tua frente.

Precisas de alguma distracção, um conforto simples que te apague as memórias que te correm nas veias. Que te esvazie de ti próprio por uns segundos apenas. Já seria suficiente para encontrares a paz pelo menos nesta noite.

Gostavas de ter uns braços à tua espera para te aconchegar, para onde pudesses voar. Onde as estrelas estivessem próximas de ti e os teus sentimentos deixassem de sentir. Procuras a reverência de um silêncio que nunca vais encontrar.

Vagueias nas ruas iluminadas de todos os lugares. Cansaste de rodopiar por aí, sempre sem destino, sem saberes onde vais chegar. Mas manténs o movimento que te faz manter vivo, que repetes há anos demais.

Deixas de distinguir a diferença de nada. Nem de ti próprio te distingues...

Lentamente abraças uma loucura doce, que parece preencher os intrincados vazios que ninguém conseguiu fazer. Vives sozinho à tempo demais...

Vais sempre saber demais...


Continua a saber demais...


Pára e vê as linhas. Sente o cheiro a entrar pelas narinas do ferro queimado dos carris. Gosta de se sentar naquela estação e ficar a ver os comboios a passar. A cor dos Alfa é aquela que mais o atrai. Já decorou a ordem das carruagens do Intercidades e aos Regionais já perdeu a conta.

Sabe que dali a alguns minutos vai ser ele a entrar num desses comboios que mais gosta de ver passar, vai procurar o seu lugar e vai finalmente sentir-se em paz.

Sabe que só a encontra quando foge. Quando viaja. Apenas quando vê a vida a correr à sua frente é que acha que está em casa.

Vê a paisagem, não fixa. A sensação de estar em andamento dá-lhe a ilusão de chegar onde quer que tenha de chegar.

Aquilo que verdadeiramente o preenche é o vazio que sente quando vai a fugir. Não pode parar muito tempo num sítio. Apenas o suficiente para se enebriar dele e sentir mais uma vez o sufoco de quem já viu tudo o que vale a pena.

Sente a paz da fuga. O saber que está em andamento é a única coisa que o faz parar. Dorme em todos os bancos de comboios onde viaja. É apenas nessas horas que o seu espírito encontra a paz que precisa para descansar um pouco.

De que foge? Não sabe...

Por enquanto continua a fugir de si próprio. É o mesmo vagabundo de si mesmo que alguém encontrou.

Continua a saber demais...

A Esperança...



A Esperança é um velha que já perdeu a conta aos anos e aqueles que por ela já passaram e que lhe eram queridos. Vive uma vida de solidão.

A Esperança é uma gorda. Come muito e mal até porque já não se deleita com isso. Janta sozinha todas as noites e não quer saber. Depois disso passa o serão a embebedar-se com whisky e a fumar tudo o que lhe apetece. Tem sorte a Esperança! Nunca precisou de se preocupar com a sua saúde.

A Esperança é uma solitária e por vezes sente-se a enlouquecer. Não tem um diálogo com ninguém. Fala sozinha, tal como as velhas. De vez em quando escreve, mas já perdeu o interesse porque sabe que ninguém irá ler nada do que escrever.

A Esperança é trôpega. Vê e ouve mal, porque deixou de precisar dos sentidos para viver.

A Esperança mora sozinha. Mora nas águas-furtadas de um qualquer prédio de uma cidade grande mas que está vazia. Gosta de morar perto do céu porque tem esperança de um dia lá chegar.

A Esperança é uma infeliz, porque vive sozinha... Porque é a última a morrer...

O Principezinho...



Era melhor teres vindo à mesma hora.

Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três já eu começo a ser feliz.

E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei.

Às quatro em ponto, já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade!

Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito...

São precisos rituais.


(Adaptção livre)


A varanda...



Sentou-se na varanda com vista sobre o Tejo.

Tinha saudades dessa varanda de há muitos anos. A mesma varanda que albergou noites passadas a dormir ao luar. Noites de Verão com um despertar sereno com o amanhecer. Já nem sabia contar as manhãs que ali acordara. Muitas vezes sozinha e outras tantas acompanha.

Foram tantos os que acordaram ao seu lado naquela varanda. Só faltava mais um.

Aquele que passaria a dormir ali consigo em todas as noites que ainda tinha pela frente...


O Vampiro...



Tinha os caninos afiados...

Devia-se ao treino que lhes dava mesmo sem querer. Passava a língua por eles e sentia-os cada vez mais pontiagudos.

Não sabia viver sem sugar a essência dos outros. Alimentava-se do melhor que havia neles. O âmago daqueles que viviam por perto era chupado sem que eles se apercebessem disso.

Fascinava-se por pessoas, acontecimentos e histórias. Vivia nesta profusão de sentimentos sem nunca se cansar. Alimentava-se daquilo que lhe davam e quando não se saciava o suficiente, roubava o que lhe fazia falta.

Eram as histórias o prato principal, depois disso utilizava os sentimentos como sobremesa e os risos como bebida que acompanhava o manjar.

Não tinha sentidos porque abdicara deles em prol dos sentidos dos outros. Por isso gostava tanto da essência.

Vivia como um Vampiro...

Decisões...



Sentada. Na chuva. Escrevia em pensamentos aquilo que não conseguia por em sentimentos.

Olhava o céu que chorava ao mesmo que ela pensava nos escassos momentos de felicidade que a invadiram durante a vida que teve. Não longa, nem curta. O tamanho de vida certa para alguém como ela.

Não sentia tristeza e sabia o que devia fazer. Tinha tido o tempo certo para viver e deixar preparados os momentos certos que lhe seguiriam. Passara longos meses a preparar o final.

Queria um final em grande como fora toda a sua vida. Plena e cheia.

Desceu a escadas e seguiu até ao mar. A lua reflectida na água era a força que precisava para seguir em frente. O eclipse fora a desculpa perfeita. Sentia a sua hora e sabia que pouco mais podia viver.

Estava farta do seu cancro de estimação, como muitas vezes lhe chamava com sentido carinhoso. Sempre se imaginou a morrer assim. No final desisitira da ideia.

Decidira abraçar o mar. Morte por afogamento seria melhor.

Caminhou a sentir a areia fria misturada com a chuva nos seus pés. Despiu-se pois sempre quisera tomar banho nua no mar. Seria o último desejo a concretizar.

Lentamente entrou na água sem que esta lhe parecesse fria e abandonou-se à grandeza. Igual aquela com que sempre vivera.

Sempre...

De volta a casa...



Sente-se presa numa cidade que foi a sua desde sempre...

Está habituada ao barulho do trânsito e nem as ambulâncias com o seu som estridente, conseguem estragar o silêncio que a invadiu no exacto momento em que atravessou a porta da casa onde não entra há muitos anos.

É pertença de uma cidade que não escolheu mas da qual não se separa. Tem recordações de infância deste espaço que agora já não é mais seu. Lembra-se do tempos felizes que viveu na capital e recorda os laços que estabeleceu por lá.

Mas a janela da sala estende-se à sua frente e não resiste a ver se tudo está igual, imaculadamente igual.

Lisboa dorme e nem sabe que ela voltou...

Estranhamente volta a sentir-se em casa...

Lugares...



Houve um tempo em que queria viajar contigo. Queria conhecer os teus mundos e a Austrália era apenas o início dele.

Quis saber a tua história e conhecer as viagens que fizeste, os sonhos que tiveste e as coisas porque passaste.

Agora deixei que isso fosse embora e a tua vida não me interessa mais. Procurei a vida de alguém, que não sabe ele próprio que vida tem.

Não o apago da memória porque ele não deixa. Teima em manter o fio ligado e aparece nos meus sonhos muitas vezes. Quero chorar a sua perda, mas nunca o tive e ainda não o perdi.

Também ele quis começar pela Austrália e eu não deixei.

Agora gostava apenas de começar por ele...

A história dos pais do meu amigo F. ... ou O Elogio ao Amor...



Como devem ter percebido por um dos meus posts, o meu amigo F. perdeu o pai ontem. Fiquei muito triste por ele, porque me revolta uma perda tão cedo. Porque acho que com a minha idade devia ser proibido alguém perder alguém que ama tanto. Até porque o pai sempre foi uma espécie de ídolo para ele, mesmo que nem sempre ele o reconhecesse como tal.

Tenho quase a certeza que o meu amigo F. não sabe da existência deste blog, nem que ele me pertence a mim. À miúda que usava óculos e aparelho nos dentes quando andávamos no 10º ano e que provavelmente foi das poucas que nunca se apaixonou por ele, mas ria-se imenso com as brincadeiras que ele fazia nas aulas.

Provavelmente se soubesse não acharia grande piada a ver a vida dele assim aqui escrita, mas há coisas que nos marcam e que nos fazem chorar quando nos contam. E os últimos dias do pai do meu amigo F. merecem um lugar de destaque. Ainda que não seja grande o destaque, não posso passar indiferente a isto.

O pai do meu amigo F. descobriu que tinha um cancro, penso que no fígado, há cerca de 5 meses atrás. Sempre foi uma pessoa de bem com a vida. Era professor, não sei ao certo de quê, nem isso agora interessa muito. O que interessa é que abandonou a profissão para se dedicar a um sonho, abriu um bar. Tinha um bar num dos sítios mais bonitos da cidade. Não sei se o manteve por muito tempo, nem a que se dedicava nestes últimos meses de vida que lhe restaram, mas o facto de ter largado tudo com os seus 35/40 anos para se dedicar a fazer o que gostava, sempre me inspirou.

O pai do F. casou cedo com aquela que viria a ser a mãe do F. Tiveram uma filha há mais de 30 anos e há 23 anos atrás nascia o F. Não sei se foram muito felizes durante os anos que estiveram casados. Presumo que sim, porque cerca de 20 anos de casamento só se aguentam com muito amor. Mas o que sei de certeza, é que os pais dele se divorciaram poucos anos depois dos meus. Lembro-me de nessa altura olhar para o F. e saber exactamente o que ele estava a sentir e por vezes saber que ele sabia que eu o compreendia. Falámos algumas vezes, poucas, sobre isso.

Sei que foi um momento duro para ele, assim como sei o que me custou a mim. Mas a vida continua e o F. entrou na Universidade e seguiu a vida dele. Os pais fizeram o mesmo.

O pai dele continuou a flirtar com meninas, moças, raparigas ou mulheres a quem achava alguma piada. A mãe permaneceu sempre sozinha.

Passados 2/3 anos soube que os pais dele tinham voltado a namorar, como se tivessem 15/16 anos outra vez. Cada um vivia em sua casa, saíam para jantar, tomar café, dormir em casa um do outro ocasionalmente, mas sempre como namorados apenas. Não sei como o F. e a irmã reagiram a isso. Nessa altura da vida, já eu lhe tinha perdido o rasto. Embora os nossos pais permanecessem na mesma cidade, eu e ele estávamos a estudar em cidades diferentes e só nos encontrávamos nas férias de Verão. Mas lembro-me que quando o via a tristeza dos olhos dele já tinha desaparecido por essa altura.

Soube que passado algum tempo, o dito namoro acabou. Não sei se de facto acabou mesmo ou foi um arrufo tão próprio dos namoros. Cada um permanecia em sua casa, embora se comentasse que o pai dele continuava a vida de bon vivant que sempre lhe foi característica.

Até que neste Verão a notícia chegou tipo bomba, o pai dele tinha um cancro irreversível e restavam-lhe poucos meses de vida. Não tive oportunidade de ver o F. este Verão, não sei como reagiu a isso, mas uma amiga em comum disse-me que ele foi abaixo e que estava mesmo mal.

O pai dele continuava a viver como se nada fosse. Não sei se ele teria a noção da gravidade do problema no início das coisas. Mas de certeza que aos poucos foi obrigado a adquiri-la.

Até que há cerca de 2 meses as coisas pioraram consideravelmente e a mãe dele foi buscar o pai do F., ex-marido dela para ir morar lá para casa, enquanto ela tratava dele na fase terminal da doença. Até hoje admiro o coração da mulher, que foi traída muitas vezes, dentro e fora do casamento e que soube dar a outra face quer por amor, quer por necessidade.

A história podia acabar aqui, no dia em que o ex-marido faleceu e era ela que o estava a tratar. Já seria um belo Elogio ao Amor...

Mas a história continuou um pouco mais. O pai do meu amigo F., na semana passada sentiu-se mal e foi internado de urgência no hospital. Era a fase terminal do cancro. Restavam-lhe apenas umas horas, uns dias de vida, ninguém sabia ao certo. A mãe do F. esteve sempre no hospital com o ex-marido e acredito que fez tudo o que pode para lhe aliviar o sofrimento. Acompanhar alguém no seu processo de morte não deve ser nada fácil e mais uma vez me comove o coração generoso desta mulher.

Até que na Segunda-feira passada, o caso aconteceu...
O pai do meu amigo F. voltou a pedir a mãe dele em casamento. Disse-lhe que apesar de todas as asneiras que tinha feito na vida ela era a única mulher que ele tinha verdadeiramente amado, que a tinha escolhido a ela para mãe dos filhos, que o amor que sempre lhe teve nunca lhe permitiu esquecê-la. Casaram nessa mesma Segunda-feira no hospital, com ele já perto do final da vida. Morreu na Sexta-feira.

E hoje, dia do seu funeral, quero vir aqui prestar a minha homenagem. Ao amor que uniu aqueles dois seres. Aos pais do meu amigo F....

Perfeito...



Olhaste-me.
Olhei-te.
Paraste e ficaste a perder-te nos meus olhos onde viste a vida reflectida várias vezes.
Parei e fiquei a ver-te perder.
Pensaste como seria se eu voltasse, se verias a vida reflectida nos meus olhos mais alguma vez.
Pensei se ainda terias a capacidade de me veres como sou, como sempre fui transparente para ti.
Olhaste-me, achando que seria pela última vez e começaste a andar novamente, achando que a cada novo passo ias cair.
Olhei-te e caminhei em direcção a ti, pronto a segurar-te novamente.
Preparaste-te para me ignorares.
Impedi-te e roubei-te mais uma vez.
Quiseste ser roubada. Soube-te bem voltares aos meus braços, outra vez.
Foi perfeito...

A melhor táctica de engate no Tinder:

Escolher os que têm 1 foto e não têm bio porque são os inadaptados da vida que só estão à procura de conhecer pessoas porque não têm lata so...