
A minha casa não tem um pinheiro de Natal.
Sei que é Natal apenas porque lá fora vejo as luzes penduradas nas ruas e oiço os cânticos enquanto caminho nas ruas a fazer o meu trabalho de sempre.
Na verdade, eu não tenho casa, por isso é normal que não haja lá um pinheiro de Natal. Vivo numa carrinha abandonada que os meus pais foram buscar um dia a uma sucata, lá para os lados de Odivelas.
É uma daquelas carrinhas azuis e brancas que aparecem muito nos filmes que às vezes vejo colado à montra das lojas onde há televisões.
A carrinha não é má. Tem duas camas. Uma para os meus pais e outra para mim e para os meus três irmãos. Não temos casa-de-banho e por isso lavamo-nos com a água que vamos buscar a um furo. Só agora na altura do Natal é que a minha mãe nos leva a todos aos balneários públicos lá de Lisboa e nos obriga a esfregar as orelhas até ficarem vermelhas de tanta esfrega.
Por isso eu percebo que não tenhamos pinheiro de Natal. Não tínhamos onde o pôr, lá na nossa casa.
Mas não faz mal, porque eu e os meus irmãos fizemos um! Havia uma árvore ali ao lado do sítio onde a nossa carrinha está estacionada e nós resolvemos enfeitá-la.
Pusemos as latas das bebidas a fazer de bolas de enfeites, e espálhamos bocados de revistas e jornais para fazerem de fitas.
Não temos estrela, nem presépio. Mas não faz mal... Já estamos habituados...
O problema mesmo é que não temos chaminé!
Deve ser por isso que o Pai Natal nunca se lembra de deixar cá os nossos presentes...