Mostrar mensagens com a etiqueta Um Dia Escrevi Assim. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Um Dia Escrevi Assim. Mostrar todas as mensagens

O passado é uma bagagem...


Tinha tanto para te falar sobre bagagem...

Como bem sabes, normalmente as mulheres têm uma tendência nata a apaixonarem-se por alguém que traga sempre muita bagagem com ele/a. E tamanho é o espaço que ocupam, que muitas vezes deixam de caber nessas vidas.

Sabes... Todos temos bagagens. E de todos os tipos... Intelectual, cultural, amorosa, profissional...

Ter bagagem não é necessariamente mau. Nós não viajamos sem bagagem quando vamos a algum sítio. Contudo, quando planeamos a viagem e fazemos a mala temos o cuidado de pensar no que pomos lá dentro. Se pensares bem, geralmente escolhemos as coisas que mais gostamos de usar, alguma recordação verdadeiramente importante, como uma foto de alguém querido, e arrumamos tudo direitinho para que na viagem a bagagem não se estrague.

Se por acaso, acontece ela perder-se, geralmente afligimo-nos e procuramos incessantemente por ela, ao ponto de pedirmos uma indmenização quando a recuperamos estragada. E no regresso, regra geral, costumamos trazer sempre mais alguma coisa do que levámos. Há sempre alguma coisa que trazemos como recordação dessa viagem. Algo de que gostámos muito, algo pelo qual nos apaixonámos. Uma coisa que vá ficar na nossa vida. E às vezes gostamos tanto da viagem que trazemos recordações dela para os nossos amigos. E quando nos dá a nostalgia temos tendência a ir ver fotos dessa altura. Como algo sempre presente que nos recorda o quanto fomos felizes.

O passado é um pouco assim. Só que com ele não costumamos ter o cuidado de o preparar. Achamos que ele sozinho lá se há-de arrumar e ainda por cima queremos que fique bem arrumado.

Acho que por vezes precisamos de planear uma viagem ao passado. O problema é que gostamos tanto de viver que nem paramos para fazer a bagagem. Partimos do princípio de que é por causa de não planearmos a viagem que esta vai correr melhor.

Mas nem sempre é assim... Todos sabemos que muitas vezes não é assim. E por isso a meio da viagem, interrompemo-la. Normalmente esse é um bom momento para fazermos a bagagem do passado. Olhar para dentro da nossa bagagem e começarmos a fazê-la do início.

Começar por escolher aquilo que queremos mesmo levar, aquelas coisas das quais gostamos tanto que já fazem parte de nós. Depois disso devemos por as coisas mais pesadas no fundo e no cimo as mais leves. E se ainda houver algum espaço podemos fazer uma de duas coisas: ou colocamos lá mais alguma coisa que achamos que nos vai fazer falta mesmo que saibamos que dificilmente fará, ou deixamos o espaço livre para trazer mais alguma coisa na viagem de regresso.

Essa decisão geralmente compete a cada um. Tem a haver intrinsecamente com aquilo que cada um de nós é e com a forma como pensa. Se um retiro nos fizer refazer a bagagem, acho muito bem que o façamos. Mas se pelo contrário acharmos que ainda vai ser mais difícil decidir o que levar na viagem, talvez essa não seja a altura ideal de interrompermos a viagem.

Até porque às vezes precisamos de alguém que faça a bagagem por nós, senão corremos o risco de nunca chegar a partir porque demorámos imenso tempo a decidir o que levar.

A quem já fixou o que é essencial na sua bagagem, já tem metade do trabalho feito.

Contudo, por vezes acontece, que muito do nosso passado marcante ainda ocupa um espaço de babagem superior aquele que deveria, ou neste caso superior ao que lhe é permitido. Até porque como todos temos bagagem, se queremos partilhar uma viagem com alguém temos de saber abdicar de alguma da nossa bagagem, para que a bagagem desse/a companheiro/a de viagem também possa caber ao pé de nossa e possamos dessa forma iniciar uma viagem em conjunto.

E aí há que ter em atenção que não podemos opinar sobre o que cada um colocou na sua bagagem. A bagagem é uma coisa demasiado íntima e pessoal, para que seja fácil deixarmos que qualquer companheiro de viagem a analise. Normalmente quando alguém o faz, isso magoa-nos. É preciso já uma grande confiança para que possamos chegar a esse ponto. E mesmo quando lá chegamos, arriscamo-nos a sair feridos já por vezes nem nós sabemos se gostamos de toda a bagagem que decidimos levar nessa viagem.

É como te disse no início, todos temos bagagem(s).

Nem sempre temos é um espaço suficientemente grande que nos permite guardá-la no sítio que lhe destinámos.



15 de Outubro de 2008



(Escrito via e-mail, para um amigo de blogs que muito prezo)

Aquele que nunca viveu...



Sentou-se no vazio das horas que iam passando nessa medida infindável em que se tornou o tempo. Olhava os dias como um pobre pedinte faminto olha as horas que passam até poder obter uma nova refeição que lhe aqueça o corpo e lhe aconchegue a alma. Sentada a seu lado, parecia o seu cão, também vadio que espera os ossos e as sobras e com isso se contenta.

Via a vida a passar pelos laços invisíveis do olhar, sem mostrar o mínimo de preocupação com o que se seguiria nessa sua vida triste de abandono à solidão. Temia a vida mais do que a morte e ria das preocupações dos outros consigo próprios, enquanto bebia da garrafa onde acumulava a sua sorte.

Via a vida com a cor indefinida que sempre o caracterizou. Deixou este mundo e os outros sem rasto. A sua cor confundiu-se com a cor dos dias que passaram depois de também ele passar sem marcar o mundo.

Um dia morreu. Num dia de chuva igual a todos os outros dias de chuva que naquele Inverno abundaram, riu pela última vez enquanto se encostava à sua única amiga, a garrafa, companheira que o acompanhou até ao fim. Não se despediu de ninguém, não se despediu de si próprio, não se despediu da vida. Simplesmente se foi, evaporou-se no espaço cósmico de uma galáxia poeirenta que sempre abominou.

Ria dos dias, das noites e de todos. Achou-se um mestre e acabou um discípulo sem nunca compreender a mestria dos verdadeiros, que sendo mestres nunca se deram ao trabalho de lha explicar.

Morreu como todos os outros que morrem sem nunca terem de facto existido. Evaporou-se num fumo cinzento indefinido. Caiu por terra num esgar característico que lhe atormentou a alma que dizia não possuir por não acreditar nela. Num esgar cínico, com a mesma hipocrisia com viveu a sua vida a partir do momento em que a matou.

Abandonou-se à foice da morte, que veio vestida de cinzento para melhor se confundir com ele próprio e a sua cor, ou a falta dela. Não ripostou e o seu cinismo foi o seu golpe fatal.

Simplesmente morreu aquele que nunca viveu.



Escrito dia 19 de Outubro de 2006.

Alguém...






Hoje depois de uma atribulada viagem de autocarro, vinha para casa e de repente lembrei-me de um amigo distante, o Ghzim. Não, não é um boneco, nem alguém fruto da minha imaginação. O nome dele é mesmo este, porque ele é albanês. Sim, há um país chamado Albânia, que fica na Europa e que faz fronteira com a Grécia, a Macedónia e o Kosovo. É um país profundamente marcado pela infelizmente “famosa” guerra do Kosovo, a chamada limpeza étnica que os sérvios levaram a cabo contra os albaneses, ou se preferirem a guerra do pássaro negro, tradução para a palavra Kosovo.

E foi por causa dessa dita “limpeza”, que eu conheci o Ghzim. Afinal, nem tudo é completamente bom, nem completamente mau.


Tudo porque me lembrei do meu amigo Ghzim. Esse ser humano fantástico que tinha mil histórias de vida para contar e ainda mais receitas de culinária fantásticas para me ensinar. Nunca me vou esquecer que foi ele que me ensinou o truque do Spaghetti alla Carbonara ou alla Bolognese.

O Ghzim emigrou para Itália muito novo, tinha perdido o pai na guerra do Kosovo e vivia com a mãe e a irmã. Mas na Albânia ele não tinha condições financeiras para continuar a estudar e no período do pós-guerra em que se vivia, era difícil arranjar um trabalho. Assim, Itália pareceu-lhe um bom destino. Começou por ir até Florença, mas como era uma cidade muito cara para se viver, foi descendo ao longo do país, já que à medida que nos aproximamos de África o nível de vida vai diminuindo. Até que por fim chegou à Sícilia e por lá, acabou mesmo por ficar por Palermo, sítio onde nos conhecemos.

Estudava Direito na Facolttá di Jurisprudenzia della Universitá di Palermo. Trabalhava de noite e aos fins-de-semana num restaurante da cidade. Ironia ou não, era um albanês a cozinhar comida italiana e de boa qualidade!
Este era o meu amigo Ghzim, alguém profundamente marcado pela guerra, que vivia num país que não era o seu, mas que se considerava siciliano e não italiano. Alguém que demorou 10 minutos a fazer-me pronunciar o seu nome correctamente; alguém que teve que me mostrar o seu BI para que eu percebesse, mal e porcamente diga-se, o seu nome. Alguém que me ajudou a falar um pouco melhor italiano, que me ensinou os truques da dita cozinha desse país; alguém que me abriu o seu álbum de memórias e me explicou uma guerra que nunca ninguém percebeu. Alguém que teve paciência para me ensinar a conjugar verbos estranhos em tempos ainda mais esquisitos que não lembram a ninguém; alguém que usava um chapéu de crochet na cabeça para não ser atacado pela Máfia siciliana; alguém que adoptou outro país como Pátria-Mãe; alguém que compartilhou comigo desse sentimento tão português que é a Saudade.

Alguém que me ensinou que a vida é curta, mas maravilhosa e que viver noutro país não é tão mau como parece. Alguém que dormia 2 ou 3 horas por noite para poder sustentar-se e poder tirar um curso; alguém que tinha o sonho de voltar para o seu país e exercer uma profissão que impusesse alguma justiça por lá; alguém que me desejou Bom Natal no ano de 2003; alguém que tinha um tom de pele muito diferente do meu e nem por isso era menos digno que eu. Alguém que partilhou comigo garrafas de vido, saudades dos pais, lágrimas de cortar cebola, sorrisos de bebedeiras, jogos de cartas, conversas meio em italiano, meio em português, meio em inglês e meio em espanhol; alguém que me abraçou em alguns momentos de verdadeira tristeza. E principalmente alguém que me lembrou que eu era muito jovem para desistir fosse do que fosse e que a coragem é algo de maravilhoso e intrínseco à minha personalidade.

Por tudo isso, resolvi homenagear o meu amigo Ghzim. Mesmo sabendo que só por milagre ele o vai saber. Mesmo assim, e por alguns dos momentos mais fantásticos da minha vida, obrigada Ghzim.








Escrito dia 20 de Janeiro de 2006.


Deus* deve ser bordadeira...




*P.S.P. (Não, não julguem que isto é alguma tentativa de publicitar a PlayStation Portable. Muito menos será uma qualquer alusão a essa grande força policial que é a Polícia de Segurança Pública. Não! Isto é apenas um Post Scriptum à Priori. Eu tenho dúvidas que isto exista, mas se há algum propósito neste blog é o de me fazer inventar coisas novas.

Ou seja, antes de começarem a ler este post, é para avisar que não faço tenções de discutir aqui e agora a existência de Deus. Respeito todas as religiões e também aqueles que dizem não ter nenhuma. Este post é apenas um desabafo e aqui Deus deve ser encarado como algo semelhante, senão igual, ao que a maioria chama de Destino.)


Deus deve ser mulher...

Aliás, Deus só pode ser mulher. Deus é uma bordadeira que entrelaça a vida de todos nós num bordado único e constante, com milhares de fios e cores. E para saber bordar tão bem, teve de aprender desde criança. Ninguém borda a vida de forma tão bela e perfeita senão tiver aprendido a bordar desde tenra idade.

E é obvio que para aprender tão cedo a fantástica arte que exerce como mais ninguém, tem de ser mulher. Não conheço nenhum homem que saiba bordar, quanto mais que o faça de forma tão sublime. A arte da subtileza pertence às mulheres. Por isso, Deus só pode ser mulher.

Uma mulher, uma bordadeira que se inicia desde cedo e que percebe que gosta do que faz, que os outros apreciam o seu trabalho e que cada vez se empenha mais em fazer um bordado bonito.

Deve ser uma daquelas bordadeiras de Viana, que fazem renda de bilros. Mas uma bordadeira de bilros especial, daquelas que usa milhares de milhões de linhas diferentes, todas entrelaçadas no mesmo bordado e que no seu conjunto perfazem o bordado mais bonito que nos é possível observar.

É uma daquelas bordadeiras que gosta de cores diferentes e tem tanto jeito que ousa até inventar pontos novos. Deve ser isso, que faz de Deus uma bordadeira notável. A sua capacidade para inovar e a criatividade que aplica nos seus bordados.

Borda com calma e paciência, porque já o faz há muitos anos. Tantos que possivelmente até já lhe perdeu a conta. Quase que afirmava que fez isso a sua vida toda. E fá-lo bem feito!

Agarra em cada linha diferente, com uma cor única e entrelaça-a em todas as outras sem que fiquem presas em sítios que não era suposto estarem. Apenas dá os pontos necessários e sabe sempre quando fazer os nós. Daqueles tão bem feitos que nenhuma outra bordadeira conseguirá desfazer.

Borda como ninguém! Vira, cruza, enrola, entrelaça, dá mais uma volta e muda de ponto…

Sabe sempre quando se enganou e volta atrás para desfazer o que ficou mal feito. Quando acha que o bordado não está como devia estar, desfaz tudo e começa de novo. Se calhar com linhas diferentes, mas sempre com o propósito de fazer o mais belo bordado que se lembre.

Deus deve ser bordadeira…


Escrito dia 19 de Setembro de 2006.



Sou uma oferecida...



A ideia para a escrita deste post, anda a remoer-me a alma há alguns dias, há tempo a mais, uma vez que agora já me falta a inspiração para dizer tudo o que queria a propósito do tema. Mas vou tentar o esforço…

Quem é nunca teve a sensação de estar dentro de um filme? Aquela sensação de que alguém está a olhar para nós e que aquilo que nos está a acontecer naquele exacto momento podia mesmo ser uma cena de um qualquer filme?

A mim, é costume acontecer-me frequentemente quando viajo. Não sei bem porquê, mas desconfio que está relacionado com o facto de uma viagem ser a altura proprícia aos acontecimentos inusitados. Quando vou num autocarro ou num comboio é frequente achar que podia estar a ser filmada que a imagem se enquadraria perfeitamente num filme. E isto só me costuma acontecer quando oiço música. É uma daquelas sensações fantásticas em que parece que somos os protagonistas de qualquer coisa importante.

Isto aconteceu-me mais uma vez este fim-de-semana, em que percorri cerca de 800 kms em três dias. Como podem imaginar é muito quilómetro para tão pouco tempo, e como tal, foi frequente a sensação. E quando isto me assalta, também é frequente eu começar a imaginar sobre o que poderia ser o filme e quais os protagonistas que incluiria.

E a meio destas ideias peregrinas, lembrei-me de todas as pessoas que fui conhecendo em circunstâncias estranhas da vida. Aquelas pessoas que passam algum tempo connosco numa determinada altura das nossas vidas e que depois desaparecem para sempre sem deixarem qualquer contacto e sem a hipótese de lhe seguirmos o rasto.

Não sei se será frequente para os outros isto acontecer, mas para mim é. Conheci muitas pessoas ao longo da minha vida que desaparecerem dela até hoje. E no entanto, são pessoas que não esqueço, quer porque me marcaram de alguma forma, quer porque me deixaram qualquer tipo de recordação física que as assinala.

Foram pessoas que na altura foram muito importantes para mim. Já escrevi uma vez sobre uma delas, o meu amigo Ghzim, o albanês, no post “Alguém e a velhice”. Mas como este, há muitos mais. Provavelmente não tantos como gostaria de ter conhecido, mas já em número suficiente para me considerar uma pessoa afortunada.

Mas a razão do post é mais do que isso. A verdadeira razão do post foi uma pergunta que me coloquei quando a dita sensação que já descrevi me invadiu ao longo das viagens. Será que essas pessoas se lembram de mim da mesma forma que eu me lembro delas? Será que também eu deixei alguma marca nas suas vidas?

Gosto de acreditar que sim. Gosto de acreditar que de vez em quando, também elas se lembram que um dia se cruzaram comigo, em algum momento da vida. Gosto de acreditar que fui importante no seu destino e que deixei a minha marca lá gravada. Gosto de ser uma oferecida e deixar um bocadinho de mim na vida de todos aqueles que se cruzam no meu Caminho.

Normalmente, opto por deixar algo mais do que a lembrança e por isso, gosto tanto de oferecer presentes. Gosto que as pessoas olhem para uma coisa e pensem, foi Ela que me ofereceu. Aquela rapariga, ou aquela mulher (como preferirem) que me deixou esta marca física.

Gosto muito de escrever coisas propositadas para alguém, do género dedicatórias e afins, uma vez que é algo único para aquela pessoa. Mas acima de tudo gosto de pensar que deixei a minha marca nos outros.

Gosto de acreditar que dei tanto como recebi. Que de alguma forma me tornei inesquecível e que há algo de mim nesses outros que se vão cruzando comigo. Como já disse, sou uma oferecida…



Escrito dia 3 de Setembro de 2006


O jogo perdeu o interesse...



Enquanto divago nos pensamentos de que da próxima vez trago um gorro de aviador, daqueles que prendem o cabelo e têm uns óculos estranhos para andar a voar, porque detesto conduzir com o cabelo a bater-me na cara, olho para o retrovisor e dou de caras contigo.

Não acredito que me vens a seguir à cerca de 5 kms e foste incapaz de me fazer notar a tua presença. Apenas te colaste à traseira do meu descapotável. Devias querer apanhar algum dos meus inúmeros cabelos que voam, devido à velocidade com que conduzo.

Não sei os motivos que te levam a seguir o mesmo caminho que eu, mas como já aprendi a não acreditar em coincidências, apostaria na hipótese de vires fazer qualquer importante à cidade.

Colas a frente do teu carro mesmo à traseira do meu. Agora sim, queres que eu repare em ti. Mas de propósito não vou olhar, já percebi que estás aí e que vens a seguir o mesmo caminho que eu. E vens com ela, também já vi.

Mas nem sonhes que vou deixar que me ultrapasses. Nem que para isso leve o carro ao limite. Nem que para isso tenho de me despentear toda e ficar com o cabelo cheio de nós.

Discretamente olho para ti. Reparo no teu olhar colado a mim. Já devias saber que eu vinha para casa a este hora. Só não sei que desculpa lhe terás dado para vires à cidade a esta hora. Será que ela sabe o que se passou entre nós? Não deve saber, caso contrário não estaria a apreciar a paisagem que lhe vai desfilando diante dos olhos.

Talvez por isso sorris. Porque os meus olhos encontraram os teus no retrovisor do meu carro. Apetecia-me travar e fazer-te colar a mim. Tal como os nossos corpos fizeram há uns anos atrás.

Não sei porque tenho ciúmes dela. Afinal de contas fui eu que não te quis mais. Servi-me de ti como os reis se servem dos súbditos. Cheguei ao ponto de estalar os dedos só para te ver a correr para mim.

Mas não és burro. Percebeste os meus jogos e quiseste jogar também. Má jogada! O jogo perdeu o interesse e foste à procura de uma nova mesa. É ela a jogadora ao teu nível? Ou é apenas alguém que podes vencer quando a sede de jogo é maior que tu próprio?

Aceleras e tentas ultrapassar-me mais uma vez. Não deixo, nem que para isso te force a manobras bruscas. Pode ser que assim ela repare que não é inocente a tua vinda até aqui. Porque é que havias de me tirar o prazer de sentir a liberdade quando conduzo o meu descapotável? Tu sabes que este sempre foi o meu carro de sonho. Desde a adolescência, quando sonhava ter 18 anos e poder tirar a carta que dizia que comprava um descapotável. Porquê hoje que precisava de me evadir da vida?

Resolvo trocar de lugar contigo. Lentamente abrando quando a recta se aproxima e deixo-te ultrapassares-me. Quero ver se vens mesmo a seguir-me ou se apenas vens nos mesmo caminho que eu. Quero testar-te mais uma vez. Jogar mais um jogo contigo.

Continuo em velocidade de cruzeiro e aprecio a liberdade dos cabelos ao vento. Tal como eu previa abrandas também. Mais um jogo em que te venço. Eu sabia que vinhas atrás de mim. Onde será que vais a esta hora?

Não me interessa. Já venci a minha aposta e não me interessa subir a parada. Apenas te sigo para lá mais à frente te perder. Quero que penses que controlas. Gosto de ver os teus olhos azuis reflectidos no teu retrovisor.

Agora já deves achar que estás em vantagem. Pois ilude-te mais uma vez. Viras à direita e viro atrás de ti. Quero dar-te a confiança que se dá a um jogador antes de se dar o golpe final. Deves achar que vou atrás de ti, mas a tua vida não me interessa mais. Gosto de ser o caçador não a presa.

Voltas a virar à direita e eu acelero, prefiro a esquerda desta vez. Não tens hipótese, demasiado tarde quando dás conta e não podes voltar atrás. Digo-te adeus mais uma vez. Se tivesse um lenço branco deixá-lo-ia voar até ti.

Para mim, o jogo perdeu o interesse…



Escrito dia 27 de Setembro de 2006


A outra...



Sento-me. Está uma noite de chuva horrível, mas as circunstâncias da vida obrigam-me a sair de casa, nestas noites em que só me apetece enrolar-me num cobertor fofo no meu sofá de sempre que se habitou aos moldes do meu corpo.

Mas saio contra a vontade. Entro no café de sempre e sento-me. Atende-me o empregado, também de sempre, que me conhece já há alguns anos. Olha para mim e sorri. Tem cara de ser feliz... Pelo menos leva a vida com um sorriso nos lábios. Olho para ele e penso que é pena ser casado, senão até pensaria em algumas aventuras…

Peço o de sempre, como de costume, um carioca de limão. À noite apetece-me sempre qualquer coisa parecida a chá. Acho que velhos hábitos não se perdem nunca. Além disso tenho de me desabituar da cafeína, faz mal para a celulite!

E enquanto espero dou de caras contigo. Tens os olhos pretos mais bonitos que já vi. Tens os olhos de tigre que procuro em todos os homens que encontro. Sonhei que o pai dos meus filhos terá uns olhos assim.

Sinto-me nervosa. Olho lá para fora, para a chuva que se esborracha no vidro da janela do café de sempre. De repente, vejo um trovão que ilumina a escuridão da noite e no reflexo do vidro vejo os teus olhos a olharem para mim. Muito timidamente sorris.

Chega o empregado, que me conhece tão bem que até sabe onde moro, e entrega-me o carioca. Nem tu imaginas com quem me habituei a beber isto quando ainda nem sonhava que tu poderias existir. Velhos hábitos…

Olho para chávena e não resisto a levantar os olhos para te ver mais uma vez. Continuas a olhar para mim. Sinto-me incomodada por ela estar ao teu lado e tu mesmo assim olhares para mim.

De repente penso que estás a olhar na minha direcção mas não necessariamente para mim. E lentamente viro-me para trás para ver o que pode estar a captar a tua atenção. Mas não há nada. Tal como previa afinal o olhar é mesmo para mim.

Quando me viro novamente estás tu a sorrir da minha estupidez. Como quem diz que não, não me enganei. Ela dá conta e faz cara de amuada. Tu falas-lhe e voltas a olhar-me. Desta vez como se me despisses mentalmente e imaginasses todas as curvas e contracurvas que o meu corpo esconde debaixo destes casacos todos de Inverno. Ela deve-se ter apercebido porque olha para ti e começa a refilar.

Não consigo perceber a vossa conversa. O som do rádio, de sempre e sempre sintonizado na minha frequência preferida, não me deixa perceber as palavras que vocês trocam. De repente ela agarra-te e beija-te. Como se quisesse dizer-me que quem está contigo é ela e não eu. Finjo que não reparo e concentro-me na difícil tarefa de despejar o pacote de açúcar sem o deixar cair todo na mesa.

Retribuis o beijo e voltas a olhar para mim, como que a pedir desculpa de uma coisa que devias ter prazer e não obrigação em fazer. Mexo o carioca para derreter o açúcar e penso que prefiro ser a outra na tua vida.

Desta vez olho para ti descaradamente e reparo na barba que te fica tão bem. Dá-te um charme que não terias se não tivesses barba. Fixo-te e noto que gosto do jogo de olhares. Fixas-me também. Quando já não aguentas, porque a imaginação é fértil e o corpo não é de ferro, olhas para ela e beija-la novamente.

Aproveito para tirar um cigarro. Não hesitas e reparas na forma como os meus dedos mexem e o isqueiro parece veludo nas minhas mãos. Olho-te novamente, não me apetece perder esse olhar que me faz sentir bem. Faz-me sentir mulher. Tu fazes-me sentir mulher.

Reparo que agora também ela está a olhar para mim. A avaliar-me, a julgar-me. A pensar porque raio olhas para mim e não para ela. Não me importo, gosto do teu olhar fixo em mim. Preso em mim. É como se eu fosse a dona de tudo o que te pertence.

Porque simplesmente eu sou a outra...



Escrito dia 26 de Setembro de 2006


Um Dia Escrevi Assim V - As putas e os filhos delas...



Pois é! Só há dois sexos no Mundo, as putas e os filhos delas. Desenganem-se aqueles que achavam que só havia homens e mulheres. Mentira! Só há putas e filhos da puta.

As putas obviamente são as pessoas do sexo feminino e os filhos da puta são as pessoas do sexo masculino. Por razões óbvias, pertenço à primeira categoria, a das putas, uma vez que nasci com o sexo feminino. Pelas mesmas razões que refiro, o meu caríssimo amigo do outro blog pertenceria assim, à segunda categoria, a dos filhos da puta.

Mas há variadíssimas espécimes de putas e de filhos da puta. Há as putas virgens, as putas de merda, as putas encornadas, as putas do cara***, etc. Assim, como há os filhos de uma grande puta, os cabrões filhos da puta, os filhos da puta daquela égua, e etc e tal...

Não me vou alongar nesta divisão, porque seria obrigada a utilizar uma linguagem ainda pior do que aquela que utilizei até aqui. E se esta já é má, a outra seria muito pior. Sim, porque posso ser puta, mas ainda tenho classe e educação!!!

Mas na minha opinião, as coisas não ficam por aí. E todos nós temos um pouco de puta e de filhos/as da puta. Embora eu possa ser incluída na primeira categoria, também tenho muito da segunda e o inverso é verdadeiro. O meu comentador de serviço, também. Embora seja incluído na segunda categoria, tem muito da primeira. Alturas há, que se calhar ainda mais do que eu!

Mas não foi para isso que vim aqui escrever este post. Foi para dizer apenas que esta é a denominação geral dada às mulheres e aos homens. Enquanto as primeiras são apelidadas de putas, pela maioria do sexo masculino, os segundos são apelidados de filhos da puta pelo sexo feminino.

É pena que o sentido pejorativo caia sempre sobre as mulheres. Ou são putas por mérito próprio, ou são putas porque são mães de um espécime do sexo masculino…

Ou seja, as putas e os filhos delas…



Escrito dia 11 de Setembro de 2006

Um dia escrevi assim IV - Paixão é fast food...



Se fosse procurar a definição de paixão no dicionário, encontraria definições como: sentimento excessivo, amor ardente, entusiasmo, grande mágoa, objecto de grande afeição, vício dominador, parcialidade, afecto violento, cólera e alucinação. Encontraria também referência a partes do Evangelho e ainda ao martírio de Cristo.

Mas este post pode ser uma espécie de definição pessoal. Daquelas que não vêm no dicionário e que ninguém entende e provavelmente que ninguém concorda. Mas para mim, paixão é fast food...

Paixão é aquele sentimento incompreensível e inexplicável que nos ataca ao longo da vida. Não só por pessoas, mas também por objectos, animais e tantas coisas mais.

É um sentimento livre, puro, que nos atormenta e nos tira o sono. Mas acima de tudo, é um sentimento que nos consome e que nos fazer desejar alguma coisa, com uma intensidade tal que nos invade o pensamento e ocupa todos os recantos da alma.

É algo que vai e vem. De forma rápida e mortal. Podemos apaixonarmo-nos várias vezes, por muitas coisas e de várias maneiras.

Mas a paixão é sempre igual. Vem, aparece, leva-nos à loucura e vai embora...

Hoje em dia, a paixão aparece de forma muito rápida e consome-se num instante. Paixão é fast food!

Não é como aquela comida caseira de antigamente, que levava muito tempo a preparar, saboreava-se com vontade e digeria-se de forma lenta, porque era uma comida pesada.

Hoje em dia, paixão é fast food. Vemos, olhamos, apetece-nos, dá-nos vontade e vamos comprar para comer. Em pé, no carro, num banco de jardim, em casa, no trabalho, nas escadas e por aí fora. Comemos rápido, porque temos sempre falta de tempo, mastigamos sem saborear, porque afinal tudo sabe à mesma coisa e deitamos os restos no lixo.

Nem nos preocupamos se estava bom ou não. Afinal, limitámo-nos a mastigar e digerimos na corrida do dia-a-dia.

Já não nos sentamos à mesa do restaurante, já não pedimos a ementa, já não escolhemos o que nos apetece, já não comemos entradas, já não nos deliciamos com aquilo que nos estava mesmo a apetecer, já não repetimos a dose, já não arranjamos mais espaço para a sobremesa, já não tomamos café. Apenas continuamos a pagar a conta, porque afinal de contas, comida é comida é há que pagar para comer.

Há uns dias, talvez semanas, um amigo que muito estimo e que não vou esquecer, porque afinal a vida proporciona-nos o conhecimento de pessoas maravilhosas, dizia (e passo a citar): “Custa mais ter uma fixa do manter uma a dias!”. Ainda bem, que sei que a frase saiu em tom de brincadeira, embora me pareça que é mesmo assim.

Preferimos comer vários tipos de comida ao longo da semana, do que cozinhar de forma a comermos duas ou três vezes.

Não nos importa que saiba tudo ao mesmo e que a comida não preste nem faça bem à saúde, o que importa é que seja rápido, na hora em que nos apetece, na altura em que queremos. É um sentimento de posse que não conseguimos controlar. Queremos e queremos já, de preferência para ontem, como se costuma dizer.

Hoje em dia, a paixão é fast food…

Escrito dia 8 de Agosto de 2006


Um dia escrevi assim III - Dois monólogos não fazem um diálogo...



É isso mesmo, Diogo! Já devias saber isso há muito tempo. Vives nesse limbo de arame de circo há demasiado tempo para ainda não te teres apercebido disso.

Vives a vida a fugir de ti próprio. Já te disse que o teu maior inimigo és tu próprio quando lutas contra ti mesmo?

Não há grande volta a dar à questão. Não vale a pena tentares lutar por algo que nem tu próprio sabes se queres na realidade. Já te perguntaste o que vais fazer, se o destino não te arrastar para o porto que tu queres?

Vais ser mais um barco à deriva com as velas desfraldadas, à espera que as ondas te guiem o caminho? Vais ser um marinheiro sem rumo, a olhar para as estrelas sem distinguires o Norte do Sul? Vais ser um lobo do mar, a ouvir apenas as gaivotas e o barulho das ondas? Ou vais pegar na quilha e rumar noutra direcção qualquer?

Já há muito tempo que te quero perguntar isso, mas quando estou quase a conseguir criar a atmosfera perfeita, falta-me a coragem para deixar as palavras sair.

Disseste-me uma vez que as palavras têm poder próprio e que uma vez que as pronuncie não vou conseguir apagá-las, nem apagar o seu poder, o seu impacto na vida dos outros. Se calhar é por isso que tenho sempre medo de as dizer. Prefiro falar de coisas banais, sem importância nenhuma. Não corro o risco de cair na armadilha…

Gostava de ser a âncora da tua vida, mas não me vejo com tal. Sei que no fundo do teu ser, também tu gostavas que eu fosse não só a âncora, mas também o porto de abrigo. Não posso fazer isso da minha vida. Não é o meu destino e muito provavelmente não é o teu.

Tiveste a oportunidade de fazer de mim muito mais do que só um cais de embarque. Preferiste sonhar com novos mundos. Deves ter sangue de descobridor português. Numa vida passada, talvez no ano de 1500, viajavas com Pedro Álvares Cabral em direcção ao Brasil.

As caravelas sempre foram a tua paixão. Eu cá gosto mais de rabelos, que navegam nas doces águas do Douro. São mais planos e não enfrentam a turbulência dos grandes mares. Pensas que é cobardia, eu sei! Mas estás enganado. É a doce paixão da quietude e mansidão da água doce, sem pinta de sal.

Gostava de ter mais sangue na guelra, mas não consigo. Não sou feita de mesma massa que tu. Moldaram-me de forma diferente e o forno que me cozeu tinha baixa temperatura. Fui feita com calma, com toda a calma do mundo. A minha mãe, grávida de mim, não tinha nada dessas coisas modernas, chamadas stress e depressão. Tinha paz, amor e tranquilidade, no coração.

Sim, eu sei que 9 meses é pouco tempo para fazer uma pessoa como tu, mas para mim foi suficiente. Cresci na tranquilidade da alma daquela que me amava e que ansiava, mas de forma positiva, ver-me nascer. Cresci na imensidão dos campos da minha infância. Físicos ou irreais, foram os campos que me alimentaram tanto física como espiritualmente. Cresci na sombra das árvores, essencialmente macieiras. Desenvolvi-me aí, em todos os aspectos da minha vida.

E isso fez de mim alguém que procura a tranquilidade das águas calmas, do leito de um rio não muito grande. Gosto de coisas intimistas. Essa paz levou-me a muitos sítios escondidos dos outros e de mim mesma. Fez-me sonhar e imaginar que no fim do arco-íris havia sempre um tesouro que eu iria descobrir. Fez-me sonhar com o príncipe encantado, montado num cavalo cinzento, porque branco não gosto. Os alazões cinzentos são muito mais bonitos. Até na cor do cavalo, eu tinha que ser diferente…

Fez-me viajar até novos mundos, que não sabia que existiam e tinha medo de descobrir. Também eu já fui o Viajante, aquele que tu vês nas raras ocasiões em que olhas para as cartas. Aquele que também tu já foste e que continua a aparecer no meu baralho de cada vez que o corto e te procuro, num futuro não muito longínquo do presente que não quero, mas tenho de viver.

Prefiro a solidão do meu mundo, à balbúrdia do teu. Vives demasiado ocupado com coisas banais e o ruído à tua volta sufoca-me mais que a falta de ar dos meus próprios pulmões, que tenho quando fumo mais um cigarro.

Continuo a falar sozinha apenas para este blog e para os poucos que me visitam, de cada vez que acrescento mais uma pena à minha asa que se perdeu. Não estranhes o nome que te dou, mas foi por esse mesmo nome que te conheci, há alguns anos atrás, noutra fase da vida, também ela povoada de ruídos dos mais diversos tipos.

É por isso que te digo, Diogo, dois monólogos não fazem um diálogo. E nós nunca o tivemos. Dançámos juntos algumas vezes, mas mesmo assim, nunca ouvimos a Alma do Mundo só os dois...



Escrito dia 27 de Março de 2006

Um dia escrevi assim II - A Porta...



Estás aí especado à entrada de porta sem saberes se queres entrar ou não!

Chegaste de mansinho, sem que eu ouvisse um mínimo de ruído qualquer. Devias ter calçado os teus chinelos e por isso trazias pezinhos de lã. Ou então vinhas descalço, não reparei!

Nem sequer dei conta dos ruídos das escadas a ranger, quando as subias p’ra finalmente tocares à minha campainha e dizeres que estavas ali.

Eu percebi quando abri a porta, que estavas ali à espera que eu decidisse por ti se irias entrar ou não. Mas eu não decidi e como tal continuas aí especado sem saberes o que fazer.

Acho que já te esqueceste que eu te abri a porta! Podia ter decidido que não iria abrir porque não me apetecia ter-te aí especado à espera da tua própria decisão. Mas abri, e como tal, convidei-te a entrar. Fui uma boa anfitriã, mas não posso decidir por ti…

Permaneces indeciso entre o ir embora para o frio da noite ou o entrar e abrigares-te no aconchego dos meus braços. Mas tu é que tens de saber o que queres fazer.

A dúvida em ti começa a instalar-se e perguntas-te interiormente se terás feito bem em vir aqui. Começo a ver a confusão nos teus gestos. Abanas a cabeça sem dizer nada, tiras um cigarro do bolso e perguntas-me se tenho lume, sempre à entrada da porta que é mais romântico! Lembro-me dos filmes do James Dean, tens os gestos iguais. Deve ser por isso que não acho a situação ridícula.

Fico confusa, não sei o que fazer. Por fim resolvo procurar um isqueiro, daqueles inúmeros que costumo ter espalhados pela casa toda, não vá a luz faltar num dia qualquer em que esteja sozinha em casa e eu ficar às escuras.

Aprendi a ter medo do escuro contigo. É incrível como essas coisas se pegam!

Lembro-me que quando me abriste a porta de tua casa pela primeira vez. Fiquei uns minutos a olhar. P’ra casa, p’ro portão, p’ra ti ali especado, mais uma vez, a segurar no portão p’ra que entrasse. Por fim lá entrei. Primeiro a medo, sem saber como as coisas eram e como iriam ser. Apresentaste-me a tua gata, que por sinal gostou de mim, e foi ela que me mostrou onde era a porta de entrada.

Gostei das tuas superstições de entrada. Gostei do cheiro da tua casa. Gostei de me teres convidado a entrar e gostei mais ainda de ter tido a coragem de entrar, mais uma vez.

Depois reagi como se já tivesse ali estado muitas vezes numa qualquer vida anterior. Contigo ao meu lado deitado no sofá. Acendeste-me a lareira p’ra eu não morrer de frio e contaste-me muitas coisas que hoje preferia não saber.

Compreendo os teus medos, os teus receios e as tuas desilusões. Mas não te compreendo a ti.

A minha mãe é que dizia que eu gosto de coisas e homens difíceis… E como sempre a minha mãe tinha razão.

Não sei que pensar sobre o facto de ainda estares aí especado à porta de minha casa sem te conseguires decidir, enquanto eu me perco em divagações ilógicas. Será assim tão difícil pores um pé à frente do outro e dares mais um passo? Só mais um? Um de cada vez? Desculpa, mas não me apetece servir de canadiana e ajudar-te a andar. Desta vez tens de ser tu a decidir o que queres realmente fazer.

Começas a balbuciar qualquer coisa sobre não conseguires. É nesse exacto momento que percebo que eu é que nunca devia ter aberto a porta de minha casa. Apagas o cigarro no meu tapete e desculpas-te por isso. Mas mesmo assim continuas especado à porta de minha casa.

Estou com frio e cansada de estar de pé. Pergunto-te se queres um cobertor p’ra dormires aí no tapete. Sorris! Há quanto tempo não sorrias dessa maneira! Dizes que não. Que o tapete é muito pequeno p’ra ti e que o chão está frio. Mas continuas à porta de minha casa.

Digo-te que estou cansada e com frio, que não me apetece passar a noite ali assim. Dizes que a ti também não. Que tiveste um dia horrível, estás chateado com muitas coisas e que por isso resolveste vir falar comigo. Pergunto-te mais uma vez, e desta a última, se queres entrar. Ficas mudo e especado! Dizes que não sabes, que p’ra ti é difícil, que precisas de tempo.

Então digo-te que quando decidires voltes a tocar à campainha e talvez eu volte a abrir a porta de minha casa p’ra te receber. Até lá estarei cá dentro de porta fechada.

Não me apetece viver na indecisão, prefiro viver na solidão da tua ausência…



Escrito dia 23 de Fevereiro de 2006

Um dia escrevi assim I - Aconteceu...



Aconteceu…

Ninguém pediu para que fosse assim, mas a verdade é que aconteceu. Ninguém pediu para que as coisas sequer acontecessem, mas assim foi.

Um dia numa página em branco, que encontraste num dos teus passeios solitários e longínquos, dos quais nunca pude participar, resolveste escrever uma história. A nossa…

Tão poucas linhas, tão curtas palavras. Tantas reticências que colocaste nela. Será que algum dia ainda terá um final feliz? Será que algum dia escreverás o seu final? Será?

Sopras as aparas do lápis com que escreves essa história. As mesmas aparas com que me desenhas nas tantas noites que passas acordado ao meu lado. Nas tantas noites em que eu durmo despida, embrulhada no cobertor em frente da lareira que adoro. A mesma que me acendeste no dia em que me abriste a porta da tua casa. Nas mesmas noites em que não dormes porque pensas demais. Nesses momentos em que contemplas a beleza, que só tu vês, quando eu durmo e sonho connosco, os dois.

Riscas e voltas a escrever. Riscas mais umas coisas e rescreves uns rabiscos estranhos que não consigo perceber. Parece que desenhas quando escreves…

Mexo-me com o calor da lareira que fazes questão de manter acesa só para mim. Só a chama da nossa paixão é que resolveste apagar. Também escreveste a água com que apagaste esse lume? Ou essa é apenas as gotas de suor que produzimos nas noites cálidas e quentes que nos unem aos dois sozinhos. Nas noites em que acendemos um fogo, não na lareira, mas dentro de nós os dois. Nas mesmas noites em que o oxigénio não chega sequer para nós os dois, quanto mais para manter um outro fogo aceso.

Entrelaças as palavras e os desenhos. Também de vez em quando dedilhas a guitarra, tal como dedilhas o meu corpo nessas noites. Cantas para eu adormecer, tal como me fizeram há muitos anos atrás, quando não imaginava sequer o que era o mundo, quanto mais que havia nele pessoas como tu…

Talvez estivesse escrito, muito antes de tu escreveres esta história de nós os dois, que eu e tu seríamos um só em algumas noites das nossas vidas. Talvez estivesse escrito que essa história apenas tinha uma página, porque tu teimaste em não escrever mais nada.

Mas o que deveria ter sido escrito muito antes disso tudo é que o mundo teima em virar essa página, quer tu ou eu queiramos ou não…



Escrito em 24 de Maio de 2006



A melhor táctica de engate no Tinder:

Escolher os que têm 1 foto e não têm bio porque são os inadaptados da vida que só estão à procura de conhecer pessoas porque não têm lata so...