
Sento-me. Está uma noite de chuva horrível, mas as circunstâncias da vida obrigam-me a sair de casa, nestas noites em que só me apetece enrolar-me num cobertor fofo no meu sofá de sempre que se habitou aos moldes do meu corpo.
Mas saio contra a vontade. Entro no café de sempre e sento-me. Atende-me o empregado, também de sempre, que me conhece já há alguns anos. Olha para mim e sorri. Tem cara de ser feliz... Pelo menos leva a vida com um sorriso nos lábios. Olho para ele e penso que é pena ser casado, senão até pensaria em algumas aventuras…
Peço o de sempre, como de costume, um carioca de limão. À noite apetece-me sempre qualquer coisa parecida a chá. Acho que velhos hábitos não se perdem nunca. Além disso tenho de me desabituar da cafeína, faz mal para a celulite!
E enquanto espero dou de caras contigo. Tens os olhos pretos mais bonitos que já vi. Tens os olhos de tigre que procuro em todos os homens que encontro. Sonhei que o pai dos meus filhos terá uns olhos assim.
Sinto-me nervosa. Olho lá para fora, para a chuva que se esborracha no vidro da janela do café de sempre. De repente, vejo um trovão que ilumina a escuridão da noite e no reflexo do vidro vejo os teus olhos a olharem para mim. Muito timidamente sorris.
Chega o empregado, que me conhece tão bem que até sabe onde moro, e entrega-me o carioca. Nem tu imaginas com quem me habituei a beber isto quando ainda nem sonhava que tu poderias existir. Velhos hábitos…
Olho para chávena e não resisto a levantar os olhos para te ver mais uma vez. Continuas a olhar para mim. Sinto-me incomodada por ela estar ao teu lado e tu mesmo assim olhares para mim.
De repente penso que estás a olhar na minha direcção mas não necessariamente para mim. E lentamente viro-me para trás para ver o que pode estar a captar a tua atenção. Mas não há nada. Tal como previa afinal o olhar é mesmo para mim.
Quando me viro novamente estás tu a sorrir da minha estupidez. Como quem diz que não, não me enganei. Ela dá conta e faz cara de amuada. Tu falas-lhe e voltas a olhar-me. Desta vez como se me despisses mentalmente e imaginasses todas as curvas e contracurvas que o meu corpo esconde debaixo destes casacos todos de Inverno. Ela deve-se ter apercebido porque olha para ti e começa a refilar.
Não consigo perceber a vossa conversa. O som do rádio, de sempre e sempre sintonizado na minha frequência preferida, não me deixa perceber as palavras que vocês trocam. De repente ela agarra-te e beija-te. Como se quisesse dizer-me que quem está contigo é ela e não eu. Finjo que não reparo e concentro-me na difícil tarefa de despejar o pacote de açúcar sem o deixar cair todo na mesa.
Retribuis o beijo e voltas a olhar para mim, como que a pedir desculpa de uma coisa que devias ter prazer e não obrigação em fazer. Mexo o carioca para derreter o açúcar e penso que prefiro ser a outra na tua vida.
Desta vez olho para ti descaradamente e reparo na barba que te fica tão bem. Dá-te um charme que não terias se não tivesses barba. Fixo-te e noto que gosto do jogo de olhares. Fixas-me também. Quando já não aguentas, porque a imaginação é fértil e o corpo não é de ferro, olhas para ela e beija-la novamente.
Aproveito para tirar um cigarro. Não hesitas e reparas na forma como os meus dedos mexem e o isqueiro parece veludo nas minhas mãos. Olho-te novamente, não me apetece perder esse olhar que me faz sentir bem. Faz-me sentir mulher. Tu fazes-me sentir mulher.
Reparo que agora também ela está a olhar para mim. A avaliar-me, a julgar-me. A pensar porque raio olhas para mim e não para ela. Não me importo, gosto do teu olhar fixo em mim. Preso em mim. É como se eu fosse a dona de tudo o que te pertence.
Porque simplesmente eu sou a outra...
Escrito dia 26 de Setembro de 2006
7 comentários:
Por que é que as pessoas gostam tanto de ter um papel secundário na vida de alguém?!
Beijinhos*
Porque é que tu escreves assim? gosto.. muito..
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(you know who)
Arrepiante!
Não, eu nunca passei pelo seu blog. Pode acreditar que vou voltar a vir aqui, e também acredite que não posso sequer entender o desespero. A única coisa que posso te dar agora, é meu sincero desejo de boa sorte. "Porque quando queremos algo, todas as forças do universo conspiram a nosso favor." Paulo Coelho.
Está giro sim senhor. Gosto.
Quanto a seres a outra... são gostos. Acho que podemos ser sempre o/a outro/a de alguém que gostamos mas não muito. Talvez. Mesmo assim não é para todos.
há muito me agradara sentir esses olhares...
mas hoje percebo.. que de todos os olhares que em mim passaram..
deles só restam o que ele imaginavas enquanto me olhava...
Hoje nem mais amigos somos de verdade.. acho que nem meu nome ele é capaz de lembrar quando vê cenas que costumávamos a viver...
De tudo o que vivemos.. só me restou as lembranças (o que muitas vezes creio que não foi uma boa herança)
Já ele.. resta-lhe continuar a imaginar tudo aquilo que não conseguira viver comigo...
hoje em dia dói sentir esse olhar em minha pele..
dói mais ainda perceber que de toda a pureza que existiu nos sentimentos de minha parte..rs..
ele só se lembra do que eu quero esquecer...
Percebo que não vou ser nada além do que a "curiosidade", "o envolvimento", e a fonte mais segura de saciar-lhe os desejos.. pois afinal.. uma amiga não o faria mal independente de como ele tenha agida.. depois que "o nosso momento" acabasse.. ainda continuarímos amigos..
e coitada de mim.. juro que acreditei quando ele disse que nada mudaria..
mas percebo.. que uma vez rompida essa barreira.. nunca mais as coisas seriam iguais...
já não vejo mais em seus olhares a pureza do amor-querer-bem, do amor-superprotetor, do amor que cotumava cuidar de mim e preocupava-se com o que eu fazia ou vivia...
Hoje.. odeio esse olhar que eu mesma cultivei nele..
Juro, não sabia que um olhar iria substituir o outro..Se os dois olhares andassem juntos seria perfeito.. seríamos perfeito..
teríamos sido perfeitos...
Denise: Também não sei, mas algumas gostam...
Anónimo: Porque escrever assim faz parte de mim. Ainda bem que gostas!
Existências: Esse é sempre o objectivo!
Anónimo/Paulo: Se for mesmo o Paulo Coelho que eu penso que é, fico honrada com a sua visita. Lembro-me sempre dessas palavras, mas nem sempre elas resultam comigo.
Miguel: Eu não sou outra nenhuma. Nunca fui. Não tenhpo feitio para isso, mas sei ver o mundo com outros olhos.
Andressa: Estás à vontade.
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