Fragmentos de vidas - I




Era dia 24 de Dezembro de um ano qualquer...

Conduzia no silêncio de uma noite escura, em que já poucos se viam a cruzar as estradas. Tivera de ficar mais umas horas a trabalhar à tarde só para poder ficar com a filha mais um dia, para que o Natal fosse uma memória boa daqui a uns anos nas lembranças de todos.

Estava exausto do dia de trabalho e a viagem já lhe começava a custar. Estivera ainda bastante tempo para sair de Lisboa em direcção à terrinha que devia estar gelada. Só a vontade de ver a cara da filha ao entrar em casa vestido de Pai Natal e cheio de presentes o levava a fazer o esforço.

Conduzia cada vez mais lentamente, por causa do sono e do perigo da estrada. Esforçava-se por se manter alerta e pensava na felicidade que ia dar aqueles de quem gostava quando o vissem entrar em casa.

Estava a ficar tão sonolento que resolveu ligar o rádio para ouvir música e se distrair da sonolência que lentamente se apoderava dele, depois de ter estado tantas horas a trabalhar. Quando o fez, momentaneamente tirando os olhos da estrada e olhando para os botões do rádio, não se apercebeu de um camião que vinha em sentido contrário, lentamente a ocupar a sua faixa.

Enquanto ligava o rádio e procurava a sua estação favorita, só se apercebeu das luzes intensas que vinham na sua direcção e o ofuscaram por completo.

Antes do embate só teve tempo de imaginar a cara de tristeza da filha, daquela que mais quis agradar naquela noite. Na tristeza que ela sentiria por perder o pai na noite de Natal...

2 comentários:

1/2Kg de Broa disse...

Até há uns 5-6 anos atrás pensei que ninguém morria no dia de Natal. Afinal a natureza não celebra o Natal.

Anónimo disse...

:| Que história chocante! Dá que pensar. :(
Também nunca reflecti que no dia de Natal também se pode morrer nas estradas, infelizmente. É um dia como os outros.

Espelho:

 Eu também já fui a pessoa que cortava amarras a direito e a frio.