A história dos pais do meu amigo F. ... ou O Elogio ao Amor...



Como devem ter percebido por um dos meus posts, o meu amigo F. perdeu o pai ontem. Fiquei muito triste por ele, porque me revolta uma perda tão cedo. Porque acho que com a minha idade devia ser proibido alguém perder alguém que ama tanto. Até porque o pai sempre foi uma espécie de ídolo para ele, mesmo que nem sempre ele o reconhecesse como tal.

Tenho quase a certeza que o meu amigo F. não sabe da existência deste blog, nem que ele me pertence a mim. À miúda que usava óculos e aparelho nos dentes quando andávamos no 10º ano e que provavelmente foi das poucas que nunca se apaixonou por ele, mas ria-se imenso com as brincadeiras que ele fazia nas aulas.

Provavelmente se soubesse não acharia grande piada a ver a vida dele assim aqui escrita, mas há coisas que nos marcam e que nos fazem chorar quando nos contam. E os últimos dias do pai do meu amigo F. merecem um lugar de destaque. Ainda que não seja grande o destaque, não posso passar indiferente a isto.

O pai do meu amigo F. descobriu que tinha um cancro, penso que no fígado, há cerca de 5 meses atrás. Sempre foi uma pessoa de bem com a vida. Era professor, não sei ao certo de quê, nem isso agora interessa muito. O que interessa é que abandonou a profissão para se dedicar a um sonho, abriu um bar. Tinha um bar num dos sítios mais bonitos da cidade. Não sei se o manteve por muito tempo, nem a que se dedicava nestes últimos meses de vida que lhe restaram, mas o facto de ter largado tudo com os seus 35/40 anos para se dedicar a fazer o que gostava, sempre me inspirou.

O pai do F. casou cedo com aquela que viria a ser a mãe do F. Tiveram uma filha há mais de 30 anos e há 23 anos atrás nascia o F. Não sei se foram muito felizes durante os anos que estiveram casados. Presumo que sim, porque cerca de 20 anos de casamento só se aguentam com muito amor. Mas o que sei de certeza, é que os pais dele se divorciaram poucos anos depois dos meus. Lembro-me de nessa altura olhar para o F. e saber exactamente o que ele estava a sentir e por vezes saber que ele sabia que eu o compreendia. Falámos algumas vezes, poucas, sobre isso.

Sei que foi um momento duro para ele, assim como sei o que me custou a mim. Mas a vida continua e o F. entrou na Universidade e seguiu a vida dele. Os pais fizeram o mesmo.

O pai dele continuou a flirtar com meninas, moças, raparigas ou mulheres a quem achava alguma piada. A mãe permaneceu sempre sozinha.

Passados 2/3 anos soube que os pais dele tinham voltado a namorar, como se tivessem 15/16 anos outra vez. Cada um vivia em sua casa, saíam para jantar, tomar café, dormir em casa um do outro ocasionalmente, mas sempre como namorados apenas. Não sei como o F. e a irmã reagiram a isso. Nessa altura da vida, já eu lhe tinha perdido o rasto. Embora os nossos pais permanecessem na mesma cidade, eu e ele estávamos a estudar em cidades diferentes e só nos encontrávamos nas férias de Verão. Mas lembro-me que quando o via a tristeza dos olhos dele já tinha desaparecido por essa altura.

Soube que passado algum tempo, o dito namoro acabou. Não sei se de facto acabou mesmo ou foi um arrufo tão próprio dos namoros. Cada um permanecia em sua casa, embora se comentasse que o pai dele continuava a vida de bon vivant que sempre lhe foi característica.

Até que neste Verão a notícia chegou tipo bomba, o pai dele tinha um cancro irreversível e restavam-lhe poucos meses de vida. Não tive oportunidade de ver o F. este Verão, não sei como reagiu a isso, mas uma amiga em comum disse-me que ele foi abaixo e que estava mesmo mal.

O pai dele continuava a viver como se nada fosse. Não sei se ele teria a noção da gravidade do problema no início das coisas. Mas de certeza que aos poucos foi obrigado a adquiri-la.

Até que há cerca de 2 meses as coisas pioraram consideravelmente e a mãe dele foi buscar o pai do F., ex-marido dela para ir morar lá para casa, enquanto ela tratava dele na fase terminal da doença. Até hoje admiro o coração da mulher, que foi traída muitas vezes, dentro e fora do casamento e que soube dar a outra face quer por amor, quer por necessidade.

A história podia acabar aqui, no dia em que o ex-marido faleceu e era ela que o estava a tratar. Já seria um belo Elogio ao Amor...

Mas a história continuou um pouco mais. O pai do meu amigo F., na semana passada sentiu-se mal e foi internado de urgência no hospital. Era a fase terminal do cancro. Restavam-lhe apenas umas horas, uns dias de vida, ninguém sabia ao certo. A mãe do F. esteve sempre no hospital com o ex-marido e acredito que fez tudo o que pode para lhe aliviar o sofrimento. Acompanhar alguém no seu processo de morte não deve ser nada fácil e mais uma vez me comove o coração generoso desta mulher.

Até que na Segunda-feira passada, o caso aconteceu...
O pai do meu amigo F. voltou a pedir a mãe dele em casamento. Disse-lhe que apesar de todas as asneiras que tinha feito na vida ela era a única mulher que ele tinha verdadeiramente amado, que a tinha escolhido a ela para mãe dos filhos, que o amor que sempre lhe teve nunca lhe permitiu esquecê-la. Casaram nessa mesma Segunda-feira no hospital, com ele já perto do final da vida. Morreu na Sexta-feira.

E hoje, dia do seu funeral, quero vir aqui prestar a minha homenagem. Ao amor que uniu aqueles dois seres. Aos pais do meu amigo F....

6 comentários:

Anónimo disse...

Realmente um verdadeiro elogio ao amor.

Eyes wide open disse...

Arrepiantemente bonito... speechless.

Sem sono como sempre disse...

Quem disse que as histórias de amor tinham que ser felizes?

A vida mesmo a 300 Km/hora é muito curta.

Anónimo disse...

O ser humano tem destas coisas...
e ainda bem que o pai do teu amigo teve tempo para demonstrar que realmente sempre teve amor pela sua mulher.
Foi um final feliz ele com certeza partiu em paz

Anónimo disse...

somos capazes das coisas mais lindas...
tocou-me!

Anónimo disse...

somos capazes das coisas mais lindas...
tocou-me!

Espelho:

 Eu também já fui a pessoa que cortava amarras a direito e a frio.