
Hoje depois de uma atribulada viagem de autocarro, vinha para casa e de repente lembrei-me de um amigo distante, o Ghzim. Não, não é um boneco, nem alguém fruto da minha imaginação. O nome dele é mesmo este, porque ele é albanês. Sim, há um país chamado Albânia, que fica na Europa e que faz fronteira com a Grécia, a Macedónia e o Kosovo. É um país profundamente marcado pela infelizmente “famosa” guerra do Kosovo, a chamada limpeza étnica que os sérvios levaram a cabo contra os albaneses, ou se preferirem a guerra do pássaro negro, tradução para a palavra Kosovo.
E foi por causa dessa dita “limpeza”, que eu conheci o Ghzim. Afinal, nem tudo é completamente bom, nem completamente mau.
Tudo porque me lembrei do meu amigo Ghzim. Esse ser humano fantástico que tinha mil histórias de vida para contar e ainda mais receitas de culinária fantásticas para me ensinar. Nunca me vou esquecer que foi ele que me ensinou o truque do Spaghetti alla Carbonara ou alla Bolognese.
O Ghzim emigrou para Itália muito novo, tinha perdido o pai na guerra do Kosovo e vivia com a mãe e a irmã. Mas na Albânia ele não tinha condições financeiras para continuar a estudar e no período do pós-guerra em que se vivia, era difícil arranjar um trabalho. Assim, Itália pareceu-lhe um bom destino. Começou por ir até Florença, mas como era uma cidade muito cara para se viver, foi descendo ao longo do país, já que à medida que nos aproximamos de África o nível de vida vai diminuindo. Até que por fim chegou à Sícilia e por lá, acabou mesmo por ficar por Palermo, sítio onde nos conhecemos.
Estudava Direito na Facolttá di Jurisprudenzia della Universitá di Palermo. Trabalhava de noite e aos fins-de-semana num restaurante da cidade. Ironia ou não, era um albanês a cozinhar comida italiana e de boa qualidade!
Este era o meu amigo Ghzim, alguém profundamente marcado pela guerra, que vivia num país que não era o seu, mas que se considerava siciliano e não italiano. Alguém que demorou 10 minutos a fazer-me pronunciar o seu nome correctamente; alguém que teve que me mostrar o seu BI para que eu percebesse, mal e porcamente diga-se, o seu nome. Alguém que me ajudou a falar um pouco melhor italiano, que me ensinou os truques da dita cozinha desse país; alguém que me abriu o seu álbum de memórias e me explicou uma guerra que nunca ninguém percebeu. Alguém que teve paciência para me ensinar a conjugar verbos estranhos em tempos ainda mais esquisitos que não lembram a ninguém; alguém que usava um chapéu de crochet na cabeça para não ser atacado pela Máfia siciliana; alguém que adoptou outro país como Pátria-Mãe; alguém que compartilhou comigo desse sentimento tão português que é a Saudade.
Este era o meu amigo Ghzim, alguém profundamente marcado pela guerra, que vivia num país que não era o seu, mas que se considerava siciliano e não italiano. Alguém que demorou 10 minutos a fazer-me pronunciar o seu nome correctamente; alguém que teve que me mostrar o seu BI para que eu percebesse, mal e porcamente diga-se, o seu nome. Alguém que me ajudou a falar um pouco melhor italiano, que me ensinou os truques da dita cozinha desse país; alguém que me abriu o seu álbum de memórias e me explicou uma guerra que nunca ninguém percebeu. Alguém que teve paciência para me ensinar a conjugar verbos estranhos em tempos ainda mais esquisitos que não lembram a ninguém; alguém que usava um chapéu de crochet na cabeça para não ser atacado pela Máfia siciliana; alguém que adoptou outro país como Pátria-Mãe; alguém que compartilhou comigo desse sentimento tão português que é a Saudade.
Alguém que me ensinou que a vida é curta, mas maravilhosa e que viver noutro país não é tão mau como parece. Alguém que dormia 2 ou 3 horas por noite para poder sustentar-se e poder tirar um curso; alguém que tinha o sonho de voltar para o seu país e exercer uma profissão que impusesse alguma justiça por lá; alguém que me desejou Bom Natal no ano de 2003; alguém que tinha um tom de pele muito diferente do meu e nem por isso era menos digno que eu. Alguém que partilhou comigo garrafas de vido, saudades dos pais, lágrimas de cortar cebola, sorrisos de bebedeiras, jogos de cartas, conversas meio em italiano, meio em português, meio em inglês e meio em espanhol; alguém que me abraçou em alguns momentos de verdadeira tristeza. E principalmente alguém que me lembrou que eu era muito jovem para desistir fosse do que fosse e que a coragem é algo de maravilhoso e intrínseco à minha personalidade.
Por tudo isso, resolvi homenagear o meu amigo Ghzim. Mesmo sabendo que só por milagre ele o vai saber. Mesmo assim, e por alguns dos momentos mais fantásticos da minha vida, obrigada Ghzim.
Escrito dia 20 de Janeiro de 2006.
4 comentários:
agora que voltaste pa lx, tenta lembrar-te de quem nunca se esquece de ti... kiss
Hey senhorita!
Faz tempo que não entro aqui...
De quaquer modo... linda e trágica história de seu amigo.
entrarei com mais freqüência! ^^
=**
Esse AMIGO sê-lo-à enquanto o guardares, desta forma, no teu coração!!!!
Bonita Homenagem à AMIZADE!!!
Não há longe nem distância...escreveu alguém a propósito deste sentir!!!!
Continua a sentir, e o teu Amigo estará CONTIGO!
Bjks
Há lutas fantásticas e transparentes. Ainda bem que também há pessoas - amigos - que as lembram e lhes prestam homenagem. Sempre bom de partilhar, que a vida não é igual para todos e que há caminhos bem mais difíceis...
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