A minha essência é a escrita.

Escrever sobre o que nos magoa é provavelmente o exercício mais difícil de todos. Porque nos obriga a recordar sentimentos que doem, que nos fazem chorar, que nos deixam tristes novamente. E nós passamos uma vida inteira a fugir da tristeza, a correr para esta alegria feroz sob que forma for e com quantas ajudas tenhamos de usar. Escrever sobre o que nos magoa tem o condão de nos voltar a roubar novamente um bocadinho de alegria. 

Hoje escrevo sobre aquilo que mais me magoa e sobre o qual já fiz piadas mas que ainda assim dói. Hoje escrevo sobre o dia 29 de Janeiro de 2016, o dia em que fiquei sozinha em casa. Grávida de 8 meses, enquanto o pai do meu filho ia embora sobre a desculpa de ter de ir trabalhar para a Suíça. Hoje escrevo sobre a sensação de ter um coração partido em mil bocados, com um filho dentro da barriga que eu queria proteger e ao qual não queria passar desde logo e tão cedo esta angústia de me sentir abandonada, outra vez. Hoje escrevo sobre o sentimento de abandono, de não me sentir protegida num dos momentos em que mais precisei. Sobre esta ligação tão especial que fui quase obrigada a criar com o meu filho, porque ele era a minha única companhia durante dias a fio e a companhia mais especial que eu podia ter. Por ele fui obrigada a proteger-me e a proteger-nos e por ele fiz das tripas coração porque a única coisa que eu mais queria era que ele não crescesse dentro de mim com esta angústia de estarmos sozinhos. Nós éramos capazes de ser felizes os dois. O meu filho tornou-me mãe muito antes de eu o ser. O meu filho fez de mim, uma pessoa e uma mulher muito mais capaz de gerir as mudanças e ajustar as velas do barco que nos calhou. 

Foi provavelmente das alturas mais difíceis da minha vida. Passei grande parte dos meus anos de vida a sentir-me abandonada pelos homens que foram importantes para mim. E depois recebi de presente um homem de quem cuidar para que ele um dia nunca parta e deixe atrás de si a sensação de abandono a alguém. Ninguém tem de nascer para vir remediar os erros dos pais, mas crescemos com a confiança de que não os queremos repetir. 

Um dia seremos capazes de falar sobre eles e aprender-lhes a lição. E sem mágoa, porque o bom da vida é que escolhemos sempre lembrar as memórias que nos fizeram sentir felizes.

2 comentários:

CCF disse...

Só com muita força se dá a volta por cima e dá-se...mas não se esquece.
Beijinho
~CC~

Ana A. disse...

Verdade que não se esquece...
Para já foco-me no quanto descobri ser forte mesmo nos piores momentos.
Obrigada CC!

Espelho:

 Eu também já fui a pessoa que cortava amarras a direito e a frio.