Diário do Semi Confinamento #14/15.11.20



Gostava muito de conseguir ir mantendo este diário de semi confinamento, seja porque tenho redescoberto que a escrita é mesmo um pilar fundamental no meu bem-estar psicológico e espiritual, seja porque acredito que a ciência vai precisar de relatos destes para conseguir compreender melhor o que aconteceu neste período bem escuro da história da Humanidade e a palavra escrita é sempre a melhor arma para não deixarmos que apenas exista uma versão única dos factos. Mas a verdade é que de 2.ª a 6-ª a minha vida decorre dentro daquilo que é a minha normalidade destes últimos 3 anos e ao final do dia raramente consigo ter energia suficiente para estar acordada a relatar o dia.

Este fim-de-semana foi vivido entre extremos. Ontem acordei cedo com o meu filho ainda antes das 8h mas consegui dormir mais 1h enquanto ele via desenhos animados na tv. Quando penso na vontade que tenho de ter mais um filho passa-me logo mal penso no cansaço acumulado da falta de sono! A sério que não sei gerir menos do que 8h de sono por noite. Acabei por passar o dia todo em casa porque percebi que depois nas 13h nem os supermercados estavam abertos e também choveu o dia todo por cá. Arrumei a casa de manhã, fiz o almoço e pelas 14h o pai da criança veio buscá-lo para a semana dele na capital. Passei a tarde no sofá, com a gata deitada em cima de mim, entre telefonemas vários e mensagens trocadas com amigos e algum passeio pelas redes sociais. 

Jantei sushi que encomendei com um copo de vinho espumante, vi o 2.º episódio do Masters of Sex e comi gelado enquanto fazia horas para ver o Bicho do Bruno Nogueira. Acabei por sucumbir à meia-noite com o sono e a inércia. Mas dentro das possibilidades foi um dia bastante bom!

Hoje acordei depois de 9h de sono profundo seguidas, arranjei-me e tomei o pequeno-almoço e fui ao supermercado porque precisava de novo abastecimento de gelado de chocolate. Segui direta ao mar e fui passear na Marginal de Matosinhos enquanto ouvia música e percebia aos poucos que estou a chegar a mais uma encruzilhada séria da vida em que vou ter de decidir genuinamente o que quero fazer dela. Ando aqui às voltas porque pressinto uma mudança e prefiro esperar por ela em vez de decidir às cegas e depois arrepender-me. 

Entretanto senti-me uma fora da lei rebelde porque só cheguei a casa eram 13h20. Regressei a casa pela beira-rio e vim a disfrutar da música, vidros abertos e a cidade deserta. Somos muito ordeiros e isso tem tanto de bom como de mau. Sinto que mais do que nunca vivemos uma fase de extremos, de polarização, de se não estás comigo então estás contra mim! Deixámos de abrir espaço ao debate, à discussão, à diferença de opiniões e pontos de vista em nome de um bem maior que só a história e tempo dirão se nos vai salvar ou matar. Deixou de haver espaços seguros de discussão, deixou de haver tolerância a ideias divergentes, deixou de se debater os factos e as ideologias. Sinto-me a sufocar por essa ausência de bom debate, de debate inteligente, de discussão enriquecedora. Sinto que como humanidade vamos todos ficar genuinamente mais pobres com isto e temo a própria evolução da ciência com pontos de vista únicos. 

Sou daquelas que não discute se a terra é redonda ou plana, nem se as vacinas nos deixam autistas, porque tenho isso bem claro à luz da ciência e da evidência dos factos. Mas discuto sim o uso obrigatório da máscara em vias públicas, como aliás hoje discuti com um polícia a interpretação dessa mesma lei. Não quero viver com medo mas também não quero viver numa ditadura dissimulada e estou a lidar muito mal com a perda dos meus direitos adquiridos. Acho que a minha decisão na encruzilhada também dependerá muito do evoluir desta pandemia e dos resultados dela.

Quero poder educar o meu filho na luz, na liberdade, na discussão saudável e no debate crítico. Quero que ele se sinta seguro, perceba as implicações de uma vida em sociedade mas nunca deixe de pensar pela cabeça dele. Se há objetivo que tenho é estimular o pensamento crítico naquela cabeça. Até porque essa é a única arma que lhe posso dar para que ele chegue à sua própria felicidade.

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Espelho:

 Eu também já fui a pessoa que cortava amarras a direito e a frio.