Estou de pé junto à entrada da baía do mar, com uma gabardine amarela vestida e um vestido de lã às riscas. Tenho calçadas umas botas peludas e felpudas e na cabeça um gorro branco. Estou apoiada numa árvore ali ao pé porque a barriga da gravidez já está demasiado pesada para estar de pé tanto tempo. Estou à espera de ver o avião aterrar e perceber se as encomendas que fiz para a bebé que vai nascer já chegaram.
Quando olho novamente vejo-te a chegar do final do dia de trabalho a pé. Trazes umas calças azuis escuras, uma camisa xadrez e uma camisola de lã branca. Por cima vestes um sobretudo castanho e umas botas também castanhas nos pés. Vens com aquele sorriso que eu adoro vestido e que me derrete nos lábios e sei que o dia te correu bem. Mas quando te olho nos olhos detecto alguma apreensão embora a tentes disfarçar.
Enquanto vens ter comigo, o avião aterra. Em breve saberemos se as nossas encomendas chegaram. Entretanto comecei a andar em direcção a casa e parei encostada à carrinha azul clara que está estacionada do outro lado da rua. O céu está tipicamente cinzento como é apanágio destes dias nesta altura do ano, mas sinto que esta é a melhor luz que podia ter nesta fase da minha vida.
Damos as mãos e entramos em casa. A salamandra do meio da sala já deixou tudo bem quente. Descalçamo-nos e tiramos os casacos. Vais para a cozinha fazer o jantar enquanto eu subo ao quarto para ver o meu filho mais velho e saber como lhe correu o dia. Cheiro-o quando lhe dou um beijo e por momentos lembro-me dele ainda bebé. Que saudades de o ter no colo... Pergunto-me como vai ele reagir à chegada desta irmã. Falamos uns minutos sobre a escola e os amigos e deixo-o perdido nas músicas e jogos dele. Dirijo-me ao quarto para tomar um banho quente e penso em como vai ser tão diferente esta experiência de ter uma filha noutro país completamente distinto. Aqui o parto vai ser em casa. Tenho algum medo mas resta-me confiar. A hipótese de ir para outra cidade e estar lá sozinha não me faz sentido.
Saio do banho e tu já estás a entrar no quarto. A casa já cheira a comida de conforto. Nem nos meus melhores sonhos acreditei ser possível ter uma nova vida assim. Uma vida noutro país, um homem com o melhor coração que conheço, uma outra filha na minha barriga e uma casa que adoro numa cidade tão recôndita que a maioria nos meus amigos nem sabe onde é. Nunca sonhei que o meu paraíso podia ser esta paz.
Vejo a tua barba loira e pergunto-me como será a mistura desta nossa filha que cresce na minha barriga. Estou com muita vontade de a conhecer, mesmo sabendo que os próximos meses vão ser extremamente difíceis na minha vida. Um recém-nascido nascido é dos maiores desafios que conheço. E eu tenho muitas coisas para curar com a chegada desta filha.
Visto o pijama e desço à cozinha, ponho a mesa porque hoje quero muito jantar em família. Quando o jantar termina ponho a loiça na máquina e deito-me no sofá. Quero aninhar-me nos teus braços, meu marido, e deixar que a Alice dê pontapés na barriga até se cansar e me deixar adormecer.
Adormeço no teu colo, com o calor da salamandra espalhado pela casa. Acordas-me suavemente e amparas-me até chegar à cama e adormecer com a chuva a cair lá fora e o nevoeiro que entretanto se espalhou na vila. Enrosco-me em ti enquanto me aqueces os pés e me fazes festinhas na barriga como sempre gostei. A Alice já adormeceu há muito e eu estou quase a adormecer também, embalada por ti e por ela. Nunca pensei que pudesse voltar a ser feliz desta forma.
- Takk for at du er en del av livet mitt - sussurro-te ao ouvido enquanto me deixo levar pelo sono que regressou.
- Jeg elsker deg - respondes tu de volta.
Aqui encontrámos a nossa paz.
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