O dia começou mais cedo com a criança a acordar pelas 7h. Incrivelmente estive na cama até às 9h e consegui, pela primeira vez em muitos meses, visualizar a vida que quero que se siga, depois desta fase que iniciei em 2017, e os novos caminhos que quero traçar para nós. Parece que estava à espera do momento certo para encontrar novas direcções no caminho.
O meu vizinho da casa ao lado anda a podar as videiras desde ontem. Vê-se que é uma casa modesta mas cheia de plantas verdes e um terraço que faz inveja. Tenho parado muitas vezes para observar a vida nas janelas à volta. Mesmo em frente tenho 2 janelas enormes com um candeeiro de tecto imenso e lindo que se acende todas as noites. Parece uma daquelas salas de jantar super fancy onde se fazem tertúlias filosóficas todas as noites. Sempre tive curiosidade em saber quem mora ali. No restos das janelas, à volta, há muitas pessoas mais velhas sozinhas. E alguns casais mais jovens nos prédios da direita.
Cumpro religiosamente a rotina de me vestir e arranjar todos os dias. Hoje fui mais além e fiz uma exfoliação geral ao corpo todo, arranjei as sobrancelhas, pintei as unhas. Antes disso, tinha dado um jeito à casa e arejado tudo. Pela primeira vez em muitos anos voltei a sentir um imenso e genuíno prazer em cozinhar para mim e para o meu filho quando fiz um almoço simples de frango com esparguete. Terei de ir com ele às compras esta semana e tenho medo de sair de casa. Estou a pensar num supermercado onde o possa deixar no carro enquanto compro o necessário para os próximos dias.
Vi um filme esta tarde: Chefes Intragáveis 2. Sempre defendi que a arte deve mexer connosco, mas em matéria de cinema há muitos anos que só procuro finais felizes ou coisas que me façam esquecer da dura realidade lá fora. Em tempos de quarentena então isso é mais que obrigatório! Tenho visto também uma série na Netflix para me distrair: Toy Boy.
Pelo meio tenho tentado reflectir sobre algumas das coisas importantes na vida, nomeadamente na perda de liberdades individuais que este vírus vai trazer. Assusta-me que haja uma petição a circular para o fecho das fronteiras, porque isso vai permitir que haja sempre circunstâncias excepcionais onde a livre circulação de pessoas pode deixar de ser um direito. A Europa tal como a maioria da minha geração a conhece, pode muito bem vir a ser apenas uma memória.
Estranhamente o caso do Reino Unido e a abordagem que estão a ter dá-me esperança de que eles possam estar mais certos do que nós. Não espero milagres, mas gostaria de que fosse possível uma abordagem onde a liberdade não é posta em causa em nome de uma pandemia.
Todas as noites, cerca das 21h, faço uma videochamada com a família toda no chat do Facebook. Ontem ri-me como já não me lembrava de rir há anos! Porque apesar de ser por vídeo parecia exactamente a mesma dinâmica familiar quando estamos todos juntos. Sendo que havia um de nós que estava a + 2.000kms de distância.
A quarentena tem-me feito reaprender alguns dos meus prazeres de sempre sendo escrever o maior deles todos.
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