Diário de Uma Quarentena #14032020


O dia começou à hora do costume. Houve tempo na cama para aproveitar o despertar, com direito a beijos, cócegas e mimos aos magotes. Sei que vou sentir muita falta deste tempo ao despertar quando a vida voltar ao normal. 

Pequeno-almoço habitual, vestir a roupa como se fossemos sair perante um protesto veemente do puto que adora andar de pijama. De seguida cai no erro crasso de ver notícias e devo ter passado 2h a consumir tudo o que havia escrito sobre o sacana do vírus. Dei o almoço ao puto e cozinhei comida para parte da semana. Sei que o tempo não vai ser um constrangimento mas preferi ocupar o dia de hoje nisso. 

A sesta hoje foi impossível de acontecer. Não sei o que se passa com o meu filho, mas são quase 23h e ele acaba de vir ter comigo à sala a dizer que tem medo e não consegue dormir. Parece que ele sente a energia do mundo na fase em que estamos a viver. Às 17h desisti e decidi ir dar uma volta de carro com ele sem parar em nenhum lado. Cerca de 10 minutos depois ele dormiu. Acabei por andar as voltas a ver o rio, a cidade quase parada e uns quantos corajosos que corriam ou andavam de bicicleta à beira-rio. Uma tarde de sábado normalizada mas longe de ser normal. Está quase tudo fechado, a cidade estava bastante deserta e havia filas para se poder entrar nos supermercados já. 

Acabei por estar quase 1h ao telefone com um homem, com quem podia facilmente casar e viver feliz para sempre (também conhecido por Husband Material), a falar de banalidades e a tentar viver uma vida normal. Quando tudo passar, quero estar horas na praia a apanhar sol e deitar conversa fora! 

Não consegui jantar hoje. Parece que tenho o almoço todo no estômago. Acabei por beber um batido de aveia e açaí como nos meses de gravidez em que estava sozinha também numa espécie de reclusão e aqueles batidos me alimentavam o corpo e a alma. Tenho evitado consumir doses massivas de TV e ando com um livro e uma garrafa de água pela casa. Hoje o dia foi difícil para mim que sou uma pessoa de pessoas. 

Manter o ânimo em alta está a ser uma tarefa difícil porque na semana passada já estive em isolamento social praticamente a semana toda. Adoptei uma frase: Infectados já estamos todos, a ideia é transmitir isto ao menor número de pessoas possível. 

Tenho muito medo de como será a vida depois disto. Desconfio que poucas coisas serão como dantes...

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Espelho:

 Eu também já fui a pessoa que cortava amarras a direito e a frio.