Diário de uma Quarentena #18.01.2021




E eis que voltámos a um novo confinamento. Cada vez me sinto mais dorida, cada vez mais sinto que estou encolhida e que o meu peito está a mirrar. Cada vez mais sinto que estão a fazer de nós máquinas, casa-trabalho/escola-casa. Eu entendo perfeitamente a necessidade disto, entendo que o SNS está a dar as últimas, numa altura em que já estava presos por fios, entendo que há pessoas a morrer e profissionais em exaustão emocional. Entendo que para uns terem liberdade, há uma imensa classe que está a ser prejudicada. E não fala só dos médicos ou enfermeiros, falo de professores, polícias, bombeiros, trablhadores de supermercados. Entendo isso tudo, menos esta forma medieval de controlar uma pandemia. Estamos a fazer exactamente o mesmo que há 100 atrás, num tempo em que a vida é significativamente diferente e temos tecnologia de ponta para uma data de coisas. Há 100 anos não hvaia homens no espaço, for God sakes!

Mas ainda assim agradeço. Agradeço a relativa normalidade da minha vida. Isto que estou a viver neste momento é muito próximo do que foi a minha vida nos últimos 5 anos. De alguma forma sinto que a minha vida me preparou para enfrentar estes tempos com muito mais resistência física e psicológica. Sinto-me muito rápida a adaptar-me a estes tempos, a afinar rotinas, porque sei efectivamente o que me é importante, quase vital, para uma vida estável e com qualidade. E o que faltava saber descobri em 2020. Ainda assim, obviamente que ressaco os abraços, os beijos, os amigos, as surpresas e as possibilidades ilusoriamente ilimitadas de qualquer coisa. Parte de mim, sente que 2021 é mais um ano perdido na minha vida amorosa, profissional, emocional e social. E sei, pela experiência de 2020 que não é. Que é apenas uma imensa possibilidade de ir mais fundo, de criar raízes mais grossas e fundações mais estáveis. Mas custa, caramba!

Hoje acordei sem despertador, porque ontem estava tão emocionalmente exausta de desenterrar coisas cá dentro que me esqueci de preparar a semana. E para ajudar à festa pelas 5h da manhã fui arrancada de um dos mais estranhos, profundos e ricos sonhos que tive nos últimos tempos. Mais ou menos à mesma hora, o meu filho decidiu vir dormir para a minha cama e isso acabou por acalmar o meu espírito. Eram quase 8h30 quando eu acordei e comecei a preparar o dia. Entrámos na rotina "normal" já que a escola dele se mantém aberta, ainda que já fossem quase 9h45 quando lá chegámos.

Depois de o deixar na escola, decidi caminhar um bocado. Tomei um caminho maior para voltar a casa e aproveitar para fazer parte do passeio higiénico. Percebi hoje também porque é que a máscara me incomdoda tanto. É mais uma questão psicológica de perda de individualidade, de ser apenas mais um ser indefrenciado e isso acaba por nos desumanizar. Esse para mim é o grande risco de andarmos de cara tapada, deixamos de ser uma pessoa para sermos apenas mais um indivíduo indiferenciado. Acabei no parque que tenho em frente a casa, sentada ao sol a ler o meu livro durante uns 20 minutos sem máscara e sozinha no meio da Natureza. Chega a ser estranho, mas este abrandar do mundo tal como está neste momento, é a forma quase perfeita de viver. Bastava poder estar com pessoas sem medos e riscos e não mudaria muito na minha vida. O que de algum modo me está a ajudar a perceber o que gostava que fosse a minha vida a seguir a isto.

Passei a manhã a criar um curso de formação novo, que é claramente a minha cara, e que junta os conceitos de indústria 4.0 e sociedade 5.0. Depois estudei um pouco, maioritariamente sobre filosofia estóica e objetivos de desenvolvimento sustentável, tratei de coisas em casa e acabei por ir almoçar pelas 14h, que é de facto o meu horário de bio ritmo normal. Depois disso passei a tarde a terminar tarefas mundanas, maioritariamente de cuidado e organização da minha vida familiar. Fui buscar o meu filho à escola antes das 18h, morri mais um bocadinho com as restrições cada vez mais apertadas e tratei do jantar.

Estou a sentir-me claustrofóbica e a definhar. Ainda que esta imensa oportunidade de ir mais fundo e mais dentro seja óptima, a verdade é que estou a precisar de uma pausa disso também. Vou acabar a noite a ver O Bicho do Bruno Nogueira para desanuviar, rir um bocado e ter fé que isto vai passar. 

1 comentário:

paula disse...

sinto verdadeiramente o mesmo. sinto que os políticos e "quem gere isto" são como os pais que querem encaminhar os filhos e então proíbem, proíbem e a cada dia inventam mais restrições e normas. e eu sem saber tanto de educação e politica como eles só me pergunto senão seria melhor entrar numa onde de responsabilização e sensibilidade. posso ser louca mas se na educação resulta na sociedade não resultaria.

não sei. sei que tal como tu isto das mascaras e dos confinamentos incomoda-me ainda que compreenda a necessidade.

beijinhos.

Espelho:

 Eu também já fui a pessoa que cortava amarras a direito e a frio.