Diário de uma Quarentena #Dia 52


Tive de mudar o título destes posts senão teria de acabar o diário aqui! Já estou tão ambientada à coisa que deixou de me fazer sentido relatar o dia-a-dia. Prefiro ir escrevendo as coisas dignas de nota, já que me sinto perfeitamente ajustada à nova rotina. E também já não tenho energia suficiente para ficar acordada até tarde a escrever sobre os dias que passam. Nem acho que haja coisas dignas de registo, já!

Constato agora que estou há quase 2 meses em casa de quarentena e isto já se entranhou, ao ponto de estar a entrar na fase em que já não quero sair e dou por mim todos os dias a evitar os motivos para um pé na rua, a não ser para ir fazer o exercício físico diário. E pior, estou a ficar intolerante à proximidade física das pessoas que não conheço. Ontem fui ao supermercado e a senhora atrás de mim começou a pôr coisas no tapete da caixa ainda eu não tinha acabado de pôr as minhas compras todas, o que fez com que estivesse literalmente ao meu lado a arrastar as compras dela para trás no tapete! Acabei por lhe responder mal e de forma brusca e senti-me péssima com isso, porque era uma senhora mais velha, muito provavelmente a viver sozinha pelas poucas coisas que levava. Sinto-me a desumanizar-me aqui no meio. Continuo com muito medo do que este isolamento nos vai fazer, especialmente no médio prazo..

Quando há umas semanas falava com uma italiana que estava há mais de 2 meses em casa, achei mesmo que não iria aguentar chegar aos 2 meses assim, mas a verdade é que encontrei as minhas estratégias para lidar com a situação da melhor forma possível e neste momento sinto-me absolutamente plena. Falo imenso por escrito e por telefone com uma míriade de pessoas, mas raramente vejo seres humanos, excepto ao Sábado em que inaugurei oficialmente os Jantares da Quarentena. Costumo jantar com uma amiga e um amigo solteiros que também vivem sozinhos, cada um na sua casa é que são os meus anjos da guarda quando preciso de deixar o meu filho com alguém. Não há um jantar em que não acabemos sempre a falar de sexo, relações amorosas, emoções. Não me lembro de rir tanto há meses! E acredito que estas ligações vão mesmo ficar para a vida.

Aqui pelo meio acertei biorritmos. O meu filho e eu já estamos no mesmo horário de despertar: 9h da manhã, e temos uma rotina super coordenada que nos faz viver muito felizes! Temos tido muito mais tempo para brincadeira desde aí e desde que dicidi não permitir a tortura da pré-escola à distância. Temos levado tudo com conta, peso e medida e estou genuinamente a apreciar o privilégio de o ter comigo em casa. Sinto que esta foi uma oportunidade de reescrever a nossa história. Tenho aproveitado para usufruir da ligação que temos. Se quando fiquei sozinha grávida de 8 meses e posteriomente absolutamente sozinha com ele até aos 6 meses em Lisboa até me mudar para o Porto, sempre percepcionei esta mudança como uma prisão, a verdade é que esta pandemia me veio mostrar que está nas nossas mãos ressignificar o que nos acontece e é sempre possível mudar quem somos numa segunda oportunidade. Desde que queiramos fazer o trabalho difícil e estejamos disponíveis para conviver intimamente com os nossos piores demónios, é possível curar as piores mágoas.

Os passeios diários ao fim da tarde mantêm-se e estão numa média de 6kms/dia. Isso significa que ele dorme cerca de 11h-12h por noite. O que tem sido impossível de acontecer é a sesta que todos os dias é pautada por milhares de desculpas para não dormir e que me vai torrando a paciência e consumindo as horas de paz para trabalhar em coisas mais complexas.

Entretanto esta semana decidi voltar ao objetivo de não comer carne durante os tempos para ver se consigo fazer disto um novo estilo de vida mais saudável. Desde que vi o The Game Changers na Netflix que decidi que é mesmo hora de ser vegetariana por diversas razões. E tenho aproveitado o tempo da quarentena para ir experimentado receitas novas mais à base de grão e feijão. Hoje fiz feijão preto estufado com arroz branco. E não resisti a mais um baba ganoush para jantar! 

Aqui pelo meio, deixei o Big Brother de lado e estou viciada na série Love is Blind da Netflix! Aquilo é melhor que qualquer reality show e mostra tão bem como algumas relações são tóxicas desde o início e de como a maior parte dos problemas está sempre na comunicação entre duas pessoas. Também na linha das relações amorosas, ando a ler o (In)Fidelidade: Repensar o Amor e as Relações, da Esther Perel. Já a tinha ouvido numa Ted Talk sobre relações amorosas e depois ela foi Oradora das CreativeMornings em Nova Iorque. E no meu aniversário do ano passado, o Husband Material ofereceu-me o livro. Tenho de o ler aos poucos. Há ali muita coisa para digerir, muita coisa que me faz pensar e reflectir na minha própria vida. Há muitas perspectivas sobre coisas que eu tomava por adquiridas e que estão a ganhar uma nova luz. Não sei bem como é que se encaixa esta nova visão em mim. Mas está a valer todo o trabalho que está a dar... 

Esta pandemia tem sido uma bênção na minha vida. Tem-me permitido rever muitas coisas em mim, tem-me dado tempo para olhar para as minhas sombras, tem-me dado espaço para solificar relações significativas e acima de tudo tem-me ensinado muitas coisas sobre mim mesma. Sinto-me uma privilegiada no meio disto tudo. 

Bens de Primeira Necessidade na Quarentena:

Vinho e gelado de chocolate.

Objectivo da Quarentena:

Encontrar máscaras de criança com dinossauros! 

Reuniões da Quarentena:

Ligar o Zoom sem imagem e sem som, ligar os auscultadores bluetooth e ir lavando a loiça do almoço enquanto a reunião começa e vão sendo tratados assuntos que não precisam da minha intervenção! 

Diário de uma Quarentena #27042020



Tenho estado ausente deste registo porque desde sexta que estou em modo retiro offline. Depois do meu evento online decidi que precisava de um fim-se-semana longe da internet e desliguei as redes até hoje. Vi apenas o Instagram para comentar o novo Big Brother que estreou ontem.

Estar offline durante cerca de 3 dias pode signifcar estar isolada, mas não foi o caso. Houve visitas no Sábado, houve uma caminhada de 2 horas em plena Natureza, e essa ligação é a mais forte de todas, e houve telefonemas que duraram horas. Senti-me mais ligada do que na maior parte dos dias em que estou online.

Hoje voltámos ao ritmo. O meu filho acordou pelas 9h porque ontem andámos imenso a pé os dois e ele caiu na cama e dormiu cerca de 12h. Tive de nos despachar a correr porque havia aulas online para ele às 10h30 e eu tinha imenso trabalho para fazer esta manhã, fruto do dia que estive off na sexta! Assisti a mais um tortura de quase 1h em frente ao tablet. Definitivamente isto não funciona e eu questiono-me porque continuo a insistir numa atividade que nos faz mal aos dois em nome de uma pedagogia que nem sequer acredito. Esta suposta nova normalidade está a revelar-se uma atrocidade na vida do dia-a-dia de nós os dois e estou numa fase muito favorável à pedagogia Montessori!

A seguir ele foi fazer construções com legos, eu respondi a emails urgentes e fomos os dois fazer o almoço. O meu sonho de o inscrever no Masterchef Júnior está um passo mais perto de se tornar realidade! Almoçámos, ele foi dormir a sesta e eu estive num webinar sobre o futuro das relações amorosas. Algumas das coisas ali faladas já as vejo a acontecer nas pessoas à minha volta. E curiosamente acho-me muito mais resiliente do que alguma vez imaginei. Achei que sofreria muito mais com este distanciamento do que se tem revelado verdade, mas tenho sentido uma paz e uma tranquilidade que nem eu esperaria!

Durante a tarde, acabei de escrever um artigo para o Público que deve sair esta semana e comecei a preparar o evento do próximo mês do meu projecto do coração. Recolhi mais uns dados para a tese, reformulei algumas coisas que serão fruto deste tempo que estamos a viver, tratei uns questionários, enviei mais uns emails e acabei a tarde numa reunião com a Equipa onde saí com mais coisas para pensar.

O jantar já estava despachado desde a hora de almoço e também tenho comida feita para mais 2 dias. Isso liberta-me bastante para trabalhar a sério nos dias que se seguem. Hoje não saí para o passeio habitual porque já acabei o dia de trabalho tarde, mas o meu filho estava a precisar de ter ido espairecer. Amanhã tenho de sair para ir comprar fruta e vegetais e vou ver como corre levar a criança de máscara à rua! 

Pelo meio ando a ler coisas interessantes sobre a psicologia junguiana e estou claramente a ver os pontos do meu mapa mental a unirem-se. Tenho sonhado imenso e acho que é fruto destas escavações à psique que ando a fazer.

Hoje na minha reunião de final de tarde falávamos sobre esta nova normalidade. E eu já estou tão habituada a ela que vai parecer-me imensamente estranho quando voltar a deixar de ter o meu filho em casa, quando tiver de sair para o meu local de trabalho, quando voltar a encontrar amigos num sítio público. Acho que não me apetece muito já sair desta rotina. Não sei bem como é que vai ser este regresso à normalidade...

Por aqui os dias passam tranquilos e rápidos! Sinto falta de alguns momentos de passeio, mais do que de momentos sociais. Esta pandemia veio mudar por completo muitos dos meus planos para este ano de 2020 e isso vai-me "obrigar" a repensar decisões que eu já tinha tomado. Estou a avaliar alguns dados que dava por adquiridos a repensar fazer mais coisas do que tinha inicialmente previsto. E tenho também a sensação de que no final disto vou levar uma reviravolta das grandes. Há pessoas que não se cansam das mesmas batalhas.

Vejo muito este confinamento como treino. O que não nos mata, torna-nos mais fortes e este tem sido um período de fortalecimento.

Assumpção:

Morro de saudades de dizer que estou apaixonada!

Diário de uma Quarentena #23042020


Hoje o dia foi um desafio à paciência, ao multitasking, ao tempo, a tudo! Pelas 8h30 o meu filho acordou mas eu não. Tinha acordado às 7h, mas fiquei na cama e acabei por adormecer. Quando ele despertou eu estava mais para lá do que para cá. Limitei-me a rosnar um sim à pergunta: "Posso ir ver os desenhos animados na televisão?" e voltei aos braços de Morfeu (já que são os únicos onde devo estar este ano!) até próximo das 9h30.

Por essa hora, lá me arrastei para fora da cama, tratei do pequeno-almoço, vesti-nos, já que hoje tinha de ir às compras, e comecei o dia. Mais uma aula da criança, desesperante para ele e consequentemente para mim. Ele quer é brincar, está zero interessado em aprender seja o que for. E nesta fase da vida e do Mundo a última coisa que me apetece é comprar guerras com ele para o obrigar a uma coisa que é manifestamente desadequada à idade dele.

Depois da aula dele acabar, fomos dar um passeio a pé, já que na hora habitual do passeio (18h) eu tinha reuniões marcadas! Chegámos a casa pela hora de almoço e um Frango à Brás e uma taça de morangos depois, ele foi fazer a sesta e o meu Bombeiro veio cá tomar conta dele enquanto eu fui ao supermercado abastecer-me de frescos para a semana.

Cheguei a casa um pouco antes das 16h e o meu filho ainda não tinha pregado olho. Adormeceu pouco depois e só acordou da sesta às 18h. Obviamente que aterrou já próximo das 23h, mesmo depois de já estar na cama há mais de 1h! Eu trabalhei umas horas quando cheguei, lanchei na minha varanda ao sol e retomei as reuniões pelas 18h até à hora de jantar, porque amanhã pelas 8h30 há 125 pessoas para receber como se de um família se tratasse, já que muitas delas pertencem efetivamente à família que fui criando a Norte.

O Bombeiro acabou por estar aqui a brincar com ele, enquanto eu reunia com a minha incrível equipa de 16 seres humanos fantásticos que fazem esta loucura comigo. Quando terminei desenrasquei umas bruschettas para jantar que me souberam pela vida e me levaram de volta aos meus jantares sozinha na minha casa de Campo de Ourique enquanto comia sentada no chão da sala e apreciava a paisagem e fumava um cigarro na minha varanda, um espaço que foi um bálsamo curativo para a minha alma naqueles anos.

Acabei agora de preparar uma brincadeira para o evento de amanhã e estou prestes a fechar a loja, porque amanhã acordo mesmo com despertador que há coisas a afinar sempre em cima da hora e tenho um bom motivo para estrear um vestido novo e pôr a minha maquilhagem básica! Este mês tive zero vontade de fazer este evento, mas sinto-me responsável pela Comunidade que criei neste quase ano e meio aqui no Porto, tenho um imenso respeito por estas pessoas e por isso mantenho-me a fazer isto ainda que com algum esforço. Estou contente de no meio deste caos todo ainda ter esta Comunidade sólida que me vai acompanhando e acredita muito em mim.

Na minha ida às compras hoje escolhi propositadamente o caminho mais longo para chegar ao supermercado. Já não conduzia há semanas e hoje estava um verdadeiro dia de Primavera que me fez andar de vidros abertos e relembrar com tenho saudades da minha liberdade de ir, fazer, concretizar. Estou há quase 7 semanas em casa e já está a ser muito duro aguentar, ainda que com todos os ajustes que fui fazendo. Recebi esta semana um email para preparar o regresso ao trabalho a partir de 4 de Maio, mas não faço a mínima ideia de como é suposto gerir uma criança de 4 anos sem escola e todo um mundo de trabalho pela frente. 

Decidi que nesta fase só se vive um dia de cada vez, pelo que nem vale a pena pensar muito nisso. Esta semana, a malta anda na rua como se nada tivesse acontecido e já não houvesse nenhum perigo, pelo que é uma incógnita saber como é que o país vai reagir a isto e imaginar quando é que acabará o Estado de Emergência. E até lá, a minha opção é não pensar sequer no assunto. Quando chegar logo se resolve. Até porque já provei a mim mesma, várias vezes que há poucas coisas que eu não seja capaz de resolver nesta vida!

De Mim:

Preciso tanto da solidão quanto a temo.

Diário de uma Quarentena #22042020


Como de costume o dia começou pouco depois das 8h. Mas hoje a manhã deu para jogar às escondidas na cama, para uma batalha de cócegas e para pôr dinossauros a escalar as almofadas, antes da alvorada definitiva! As manhãs são sempre a minha parte favorita do dia com o meu filho.

Pequeno-almoço tomado e hoje foi dia de limpezas cá em casa. Enquanto ele falou ininterruptamente durante quase 1h na plataforma da escola com as educadores e os colegas, eu aproveitei para despachar uns telefonemas importantes. Esta semana tenho um evento online para 120 pessoas e é preciso alinhar a Oradora com o tema do mês e trabalhar a história dela para que a coisa seja genuinamente interessante e esta seja uma oportunidade de fazer crescer a comunidade.

Limpezas e telefonemas feitos e salto directo para o almoço que estava meio feito e foi só cozer um arroz porque tenho um filho que parece chinês (o que em tempos de coronavírus é muito irónico!) e por ele comia arroz a todas as refeições! Almoço comido, criança a dormir e mãe a lavar loiça, estender roupa e a assistir a um webinar sobre interpretação de sonhos! Esta quarentena tem sido definitivamente um tempo de exploração de coisas novas. 

A tarde foi passada a trabalhar, criança nas atividades da escola e a apanhar um imensa seca com aquilo, claramente! Eu juro que tenho pena dele que tem 4 anos e é obrigado a estar em frente a um computador à seca a ver vídeos nos quais tem zero interesse e a fazer atividades onde se sente francamente frustrado! Acabámos o dia de trabalho, adiantamos o jantar e saímos para o passeio higiénico de final de dia. Descobrimos um percurso fixe pertíssimo de casa que nos permite andar pela Natureza. Banhos, jantar e deitar a criança. Tenho imenso trabalho para fazer mas estou cansada e num ritmo louco. Descanso menos na quarentena do que antes!

Ontem consegui ver o "7 anos no Tibete", um clássico que nunca tinha visto. Adorei a história, mas apaixonei-me mesmo foi pelas paisagens (o Brad Pitt conta como paisagem, certo?). E relembrei que o Tibete, a par de Cuba (onde estive em 2015) é o meu destino de sonho. Ainda que agora não seja boa altura para pensar muito nisso, a verdade é que tenho de voltar a pôr o sonho em cima da mesa para o começar a planear. 

Aqui pelo meio sugeri um tema para o Hashtag Quarentena, relacionado com a tele escola e os putos em casa. Isto dava uma série sozinha na verdade. Se de comédia ou de terror, ainda não decidi! E acabámos a noite a ouvir músicas brasileiras das boas! Não sei porquê mas toda a minha vida se está a alinhar com o Hemisfério Sul. Outras reflexões para outro dia. 

Hoje desbafava com 2 amigos que já estava mentalizada de que em 2020 não ia haver contacto íntimo com ninguém. E mais do que qualquer coisa, temo genuinamente o que isto nos possa fazer enquanto espécie humana. A ausência de oxitocina no cérebro pode ser genuinamente devastadora. E, quase como magia, o meu filho parece ter percebido isso e decidiu dar-me beijos na barriga. Foi um gesto tão doce e inesperado que me deu uma sensação única. Já não me lembrava de gestos desta doçura. Entretanto institui cá em casa que antes de ele ir dormir vamos ter os minutos do Ataque de Beijos, em que eu me agarro a ele e o beijo até me encher enquanto ele ri desalmadamente e me repete incessantemente "Pára, mãe, pára!".

Não é a vida que gostaria de ter, tenho muitas limitações que me estão a custar, sinto falta das minhas pessoas, sinto falta de ser abraçada e beijada. Mas, a verdade é que é uma vida boa, tranquila, com todas as necessidades satisfeitas e alguns luxos também. E a minha felicidade reside em descobrir essas coisas boas, mesmo em tempos de confinamento. 

Diário de uma Quarentena #21042020



Com o meu filho em casa, os dias começam sempre mais cedo e isso acaba por ser bastante positivo porque parece que os dias rendem mais. Hoje acordei eram 8h, saímos da cama pelas 8h30, vestimo-nos os dois como se fôssemos sair, eu maquilhei-me e tudo porque tinha uma reunião no Skype logo pelas 9h20 e tomámos o pequeno-almoço os dois. 

Sentei-me ao computador pelas 9h15 e comecei a reunir, enquanto ele brincava descontraidamente no chão da sala, perto de mim. Há esta coisa nele, de ser super autónomo nas brincadeiras mas nunca estar muito afastado do local da casa onde eu estou. Pelas 10h30 houve uma aula dele no Teams de bradar aos céus! Terem a ideia brilhante de por crianças de 4 anos a fazer o Suryanamaskar pode ser muito benéfico mas não funciona à distância, porque os miúdos ou vêem o ecrã ou fazem as poses. Mas vou-me abster de criticar a coisa porque vamos no segundo dia e eu já tenho vontade de fechar as aulas virtuais, que claramente nesta idade não funcionam! Tenho uma vida muito mais pacífica e tranquila quando sou apenas eu a decidir o que vamos fazer hoje.   

Passei o pouco tempo útil da manhã a despachar emails, consegui finalmente tratar da secretária dele no quarto, fiz o almoço para ele porque eu continuo com zero fome e deitei-o a dormir a sesta. Comi uns ovos mexidos pelas 14h, vi o Governo Sombra a seguir e andei nas tarefas domésticas. Pelas 17h comecei a adiantar o jantar e eram 18h e pouco quando decidi que preciávamos os dois do passeio higiénico dos 7kms!

Foi bom constatar que começo a ter um parceiro de corrida que aguenta a minha passada mas não durante tanto tempo. Conseguimos correr bastante e acabámos o resto do passeio a andar. É giro ver que ele também gosta de explorar sítios como eu, que se espanta com coisas pequenas, que gosta de observar os locais habituais também! Esta quarentena está a permitir-me conhecer outras facetas do meu filho e deixá-lo explorar outras coisas também!

Depois foi a correria de final do dia: banhos, jantar (que já estava adiantado!), deitá-lo e ainda ir fazer um webinar de podcasts! Ando com ideias de retomar o meu daqui a uns tempos. E ando a ver se escrevo sobre a coisa também, porque ideias não me faltam... Precisava era de mais tempo!

Chorei bastante hoje aqui nos intervalos porque ontem tive uma conversa de 3h com o Husband Material que me fez olhar para coisas muito dolorosas mas que estavam a  precisar de ser desempoeiradas e precisavam de uma nova luz. Fez-me bem ouvi-lo dizer o que eu já sabia mas que ainda não tinha admitido e libertar-me de mágoas e coisas que nunca contei a absolutamente ninguém na minha vida. 

Ontem acabei por não escrever o Diário da Quarentena porque finalmente consegui ver o Live do Bruno Nogueira no Instagram e embora perceba a piada, não percebo o hype! Mas enfim, deitei-me depois da 1h da manhã. 

Cheira a queimado.

Pouca passa das 10h da manhã eu já estou no pesadelo das aulas virtuais!

Diário de Uma Quarentena #19042020


Habemus criança em casa. O que é o mesmo que dizer que a alvorada se faz cedo! Hoje eram 8h e picos. Levantei-me, alimentei-o, deixei a televisão no Disney Júnior e fui dormir até às 10h. Tomei o pequeno-almoço e ataquei a loiça do jantar de ontem, já que tive 2 amigos do coração cá em casa à conversa até à 1h da madrugada. O tema foi quase constante: sexo, o que só prova como estamos carentes, necessitados, despossuídos. E como, numa altura em que há cada vez mais pessoas a viverem sozinhas, isto nos vai fazer repensar estas opções no longo prazo.

Depois disso, passei o dia a estudar precisamente o tema das relações amorosas na era coronavírus. O Porto Canal convidou-me para falar sobre o amor em tempos de COVID-19 na próxima semana e por isso passei grande parte da manhã e da tarde a consumir quase toda a literatura estrangeira de referência sobre o tema já que em Portugal não se fala do assunto, para já. 

Aqui pelo meio houve tempo para ler uma teoria absolutamente contrária à questão da quarentena que me deu que pensar. Não concordo com tudo o que ali está, vejo logo duas ou três falhas à partida, mas não deixa de ser bom ver que não precisamos todos de andar atrás da manada. E acima de tudo fez-me rejubilar por viver numa Democracia onde ainda podemos ter uma voz, mesmo que esta seja crítica do estado atual das coisas. Até porque acredito que é desta troca de pontos de vista que as melhores ideias nascem e que isto nos prepara melhor para a imprevisibilidade da vida. Gostava que houvesse forma de fundir as duas visões numa ainda melhor.

E no meio das minhas leituras descobri também porque NUNCA poderei ser psicóloga. Ponho sempre os princípios à frente das pessoas e das situações. Não conseguiria (con)viver comigo se não o fizesse e a psicologia compadece-se mais com as pessoas do que com os princípios, como bem deve ser. Mas não é claramente para mim.

O dia passou num ápice. Acabei a tarde numa experiência avassaladora sobre a nova narrativa da Humanidade, a conhecer uma distopia nova que vou ter de ler rapidamente;  a ouvir falar da influência do mito de Lilith, a primeira mulher de Adão; a fazer um exercício de escrita conjunta com mais 160 desconhecidos sobre a nova constelação da Humanidade; a discorrer com uma lisboeta conhecida (mas que eu nunca vi na vida real!) sobre as teorias do Thoreau e a pensar no novo paradigma de justiça restaurativa e de como o Alfa Pendular devia aprender sobre o assunto. 

Acabei o dia a inventar uma palavra para o FUTURO, cuja tradução para português ainda não sei qual será: Commumanity = Community + Humanity (sinto-me-me infinitamente mais inteligente por já conseguir inventar palavras noutra língua!), cuja ideia é criar uma nova visão de Humanidade mais voltada para a importância da Comunidade. Qualquer coisa como Comumanidade?!

Por estes dias, a banda sonora cá de casa tem sido os Discos de Ouro da Voyager (a história destes discos inspira-me imenso e ainda torna o Carl Sagan mais fofinho!), assim numa éspecie de homenagem ao que de melhor a Humanidade foi capaz de produzir e ao legado que quisemos entregar a outros, já que a vida como a conhecemos nunca mais será como antes! Não é fatalismo, é assumir que não queremos voltar atrás e não há forma de o fazer por mais que queiramos. Há coisas que vão inevitavelmente mudar.

E talvez de forma tola e pateta eu estou bastante optimista com isso. E sei, com toda a certeza, que estou precisamente onde precisava de estar nesta altura da minha vida. Sinto-me uma esponja a absorver o máximo de conhecimento possível. E a imagem da foto é um protótipo da casa onde quero viver daqui a uns tempos. Há que alinhar o azimute e não perder o Norte.

Resumo da Quarentena:

Dava jeito um adulto cá em casa! 

Diário de Uma Quarentena #17042020


Acordei mais cedo hoje porque ontem apaguei de cansaço. Esta vida online suga-me a energia, já não aguento tanto evento live e tantos Zooms num dia só!

Tive entrega de pão em casa e darei graças aos céus se não engordar mais do 5kgs na Quarentena. Descobri uma padaria biológica que me vem trazer pão fresco e quente a casa e depois é uma perdição por manteiga naquilo e comer pão o dia todo!

Recebi também a minha encomenda da Bertrand onde me chegou esta beleza a casa. Já comecei a ler mas até tenho medo das revelações que aí vêm a caminho na minha vida. E na senda das revelações hoje senti-me nua porque alguém me leu o meu mapa astral e viu mais de mim do que eu própria. 

Passei a manhã a esfalfar-me em trabalho, parei para almoçar e estive na varanda 10 minutos ao sol até voltar a imergir em trabalho que não parou hoje. Eram 18h30 quando achei que tinha de fechar a loja e fui correr. Bati o meu recorde de tempo neste percurso dos 7kms. Provavelmente porque vai ser a última vez que corro nas próximas semanas. 

Jantei frango assado que comprei a caminho de casa e estou aqui morta para o mundo já. Hoje deparei-me com o facto de eu me apaixonar sempre pelo potencial sem ver verdadeiramente o real da outra pessoa. E todos sabemos como é que isso normalmente acaba, não é? 

Estou carente de amigos, de amantes e de abraços. Sinto falta daquilo que nos torna mais humanos: a conexão com outra pessoa. E todos sabemos como esta mistura é explosiva e tem tudo para dar errado... 

Surpresas desta Quarentena!

Nunca imaginei que uma data de aniversário me pudesse deixar despida em frente a um desconhecido...

Espelho:

 Eu também já fui a pessoa que cortava amarras a direito e a frio.