F***! Acordei às 7h30 porque hoje tinha uma reunião da escola do meu filho online pelas 9h e só penso que esta gente não dorme, não f***, não aproveita a quarentena para aquilo que é genuinamente importante!!! Entretanto consegui a proeza de me vestir, arranjar e tomar o pequeno-almoço antes das 8h30, hora a que liguei o computador e comecei a batalha do dia.
Depois desta maravilha matinal, tentei trabalhar mas acabei a divagar em leituras sobre o anarquismo, Piotr Kropotkin, os Montes Jura, Mikhail Bukanin, Pierre-Joseph Proudhon, o antropocentrismo, o Barão D'Holbach, Michel de Montaigne e a sua ligação à cultura portuguesa e - como já vem sendo hábito na minha vida - acabou na moral e na ética. Estes parecem ser, aliás, os temas centrais da minha vida nos últimos tempos. Há claramente aqui um sinal que ainda não consegui ler da maneira que preciso.
A meio da manhã saí para a rua para ir buscar um tablet para as aulas virtuais do meu filho que começaram hoje. Para a semana ele está cá em casa e eu continuo a ter de trabalhar os mínimos pelo menos, por isso é necessário garantir que ele acede às poucas aulas que tem. Depois disso rumei ao supermercado para a compra dos frescos da semana e pela primeira vez na minha vida usei uma máscara (e não, não havia nada de kinky nisto...). E juro que achei que era um dia absolutamente normal tal a quantidade de pessoas que vi na rua a pé, de carro, nas compras. Ou o estado de emergência já era ou a malta está claramente a dar em maluca em casa. Seja como for, desconfio que isto ainda vai aumentar mais nos próximos tempos...
Almocei salmão no forno com batata doce e recebi a minha encomenda de café mesmo logo a seguir, ou seja, a tempo de ter um café novo para experimentar! Li duas páginas do meu livro e pelas 16h comecei uma reunião no Zoom que me alegrou a alma. Dei por mim a falar com pessoas de Milão, Nova Iorque, Vancouver, Bogotá, Quito, Riad, Austin sobre como cada uma de nós está a viver este processo, o que custa mais, o que custa menos, como nos estamos a adaptar, quais as principais diferenças. Vi muita gente chorar no Zoom hoje e isso fez-me sentir mais humana e deixou-me de lágrimas nos olhos também. Há muitas feridas que este lockdown vai deixar em muitos de nós. É mais um trauma colectivo que nos vai marcar se não o conseguirmos gerir de forma eficiente.
Saí desta reunião directa para outra com 200 pessoas sobre a importância da resiliência em tempos difíceis, onde um Sírio e duas Bósnias nos falaram de como se vive em tempos de conflito armado e o que nos pode ajudar a ultrapassar esta crise. Há uma certa ansiedade pelo futuro transversal a todos nós. Daqui retiro como principal lição o facto de nada durar para sempre, nem o bom, nem o mau; as situações extremas tornarem-nos mais humanos e fazerem-nos voltar ao básico: o Amor; a importância de projectar o futuro contando com o melhor, mas esperando o pior e esquecer a pressão para termos de ser produtivos. O Mundo está a mudar e é bom que percebamos isso e o consigamos absorver.
Acho que escrevo mais ultimamente por causa disto. A minha escrita e os blogs são o sólido numa realidade e Modernidade Líquida (nota-se muito que sou fã de Bauman?). Estou muito curiosa pelo nome que se derá à História depois disto, Antropoceno é um termo demasiado técnico para ser absorvido pela Filosofia ou pela Sociologia.
Voltei a sair para ir correr e hoje finalmente foi uma corrida decente: 40 min para os 7kms de sempre! Ainda assim fraco mas o já habitual em mim. Soube-me bem! E no meio dos meus pensamentos e das minhas fotos imperdíveis do céu ao entardecer dei por mim a pensar no quanto gosto do correio. Esta quarentena tem-me feito perceber que valorizo muito o facto de me chegarem coisas de forma simples a casa, que gosto do factor surpresa quer no dia quer na caixa do correio e que isto é uma ligação mais ou menos estável ao mundo que acontece lá fora. Consigo perceber que o correio tenha tido a importância que teve numa era pré-internet e tenho também a firme crença de voltarei a escrever mais cartas quando esta quarentena terminar.
Há uma certa solidez que não quero perder. E se já a vou mantendo na escrita e no blog, nos discos de vinil, no copo de vinho à noite (hoje é Guarda Rios Signature que comprei em promoção na semana passada!), nos livros em papel sem os quais não sei viver, quero que esta se estenda a muitas das rotinas que vou criando neste período de isolamento.