Diário de Uma Quarentena #14042020


F***! Acordei às 7h30 porque hoje tinha uma reunião da escola do meu filho online pelas 9h e só penso que esta gente não dorme, não f***, não aproveita a quarentena para aquilo que é genuinamente importante!!! Entretanto consegui a proeza de me vestir, arranjar e tomar o pequeno-almoço antes das 8h30, hora a que liguei o computador e comecei a batalha do dia.

Depois desta maravilha matinal, tentei trabalhar mas acabei a divagar em leituras sobre o anarquismo, Piotr Kropotkin, os Montes Jura, Mikhail Bukanin, Pierre-Joseph Proudhon, o antropocentrismo, o Barão D'Holbach, Michel de Montaigne e a sua ligação à cultura portuguesa e - como já vem sendo hábito na minha vida - acabou na moral e na ética. Estes parecem ser, aliás, os temas centrais da minha vida nos últimos tempos. Há claramente aqui um sinal que ainda não consegui ler da maneira que preciso.

A meio da manhã saí para a rua para ir buscar um tablet para as aulas virtuais do meu filho que começaram hoje. Para a semana ele está cá em casa e eu continuo a ter de trabalhar os mínimos pelo menos, por isso é necessário garantir que ele acede às poucas aulas que tem. Depois disso rumei ao supermercado para a compra dos frescos da semana e pela primeira vez na minha vida usei uma máscara (e não, não havia nada de kinky nisto...). E juro que achei que era um dia absolutamente normal tal a quantidade de pessoas que vi na rua a pé, de carro, nas compras. Ou o estado de emergência já era ou a malta está claramente a dar em maluca em casa. Seja como for, desconfio que isto ainda vai aumentar mais nos próximos tempos...

Almocei salmão no forno com batata doce e recebi a minha encomenda de café mesmo logo a seguir, ou seja, a tempo de ter um café novo para experimentar! Li duas páginas do meu livro e pelas 16h comecei uma reunião no Zoom que me alegrou a alma. Dei por mim a falar com pessoas de Milão, Nova Iorque, Vancouver, Bogotá, Quito, Riad, Austin sobre como cada uma de nós está a viver este processo, o que custa mais, o que custa menos, como nos estamos a adaptar, quais as principais diferenças. Vi muita gente chorar no Zoom hoje e isso fez-me sentir mais humana e deixou-me de lágrimas nos olhos também. Há muitas feridas que este lockdown vai deixar em muitos de nós. É mais um trauma colectivo que nos vai marcar se não o conseguirmos gerir de forma eficiente.

Saí desta reunião directa para outra com 200 pessoas sobre a importância da resiliência em tempos difíceis, onde um Sírio e duas Bósnias nos falaram de como se vive em tempos de conflito armado e o que nos pode ajudar a ultrapassar esta crise. Há uma certa ansiedade pelo futuro transversal a todos nós. Daqui retiro como principal lição o facto de nada durar para sempre, nem o bom, nem o mau; as situações extremas tornarem-nos mais humanos e fazerem-nos voltar ao básico: o Amor; a importância de projectar o futuro contando com o melhor, mas esperando o pior e esquecer a pressão para termos de ser produtivos. O Mundo está a mudar e é bom que percebamos isso e o consigamos absorver.

Acho que escrevo mais ultimamente por causa disto. A minha escrita e os blogs são o sólido numa realidade e Modernidade Líquida (nota-se muito que sou fã de Bauman?). Estou muito curiosa pelo nome que se derá à História depois disto, Antropoceno é um termo demasiado técnico para ser absorvido pela Filosofia ou pela Sociologia.

Voltei a sair para ir correr e hoje finalmente foi uma corrida decente: 40 min para os 7kms de sempre! Ainda assim fraco mas o já habitual em mim. Soube-me bem! E no meio dos meus pensamentos e das minhas fotos imperdíveis do céu ao entardecer dei por mim a pensar no quanto gosto do correio. Esta quarentena tem-me feito perceber que valorizo muito o facto de me chegarem coisas de forma simples a casa, que gosto do factor surpresa quer no dia quer na caixa do correio e que isto é uma ligação mais ou menos estável ao mundo que acontece lá fora. Consigo perceber que o correio tenha tido a importância que teve numa era pré-internet e tenho também a firme crença de voltarei a escrever mais cartas quando esta quarentena terminar. 

Há uma certa solidez que não quero perder. E se já a vou mantendo na escrita e no blog, nos discos de vinil, no copo de vinho à noite (hoje é Guarda Rios Signature que comprei em promoção na semana passada!), nos livros em papel sem os quais não sei viver, quero que esta se estenda a muitas das rotinas que vou criando neste período de isolamento. 

Diário de Uma Quarentena #13042020


Acordei pelas 9h30 depois de uma noite genuinamente bem dormida. Tenho-me deitado por volta da 1h da manhã (culpo estes posts pela hora tardia!) mas a verdade é que durmo como um anjo! E tenho dado comigo a acordar bem no meio da cama! Esta é provavelmente a melhor parte de estar sozinha nesta quarentena: cama toda só para mim! 

Tomei o pequeno-almoço acompanhada da melhor série desta quarentena: Hashatg Quarentena. Podem ver no Youtube o compacto semanal ou os episódios (que deviam ser diários!) no Instagram. Mas a verdade é que é das melhores criações nacionais de que tenho memória, está super bem feita tendo em conta a realidade actual e o guião é sempre muito bom. Estou viciada!!!

Depois disso sentei-me a trabalhar ao pc e acabei por me perder muito cedo. Comecei pelos emails e dei por mim a comprar 2 livros de filosofia nos descontos da Bertrand. A Filosofia tem sido a disciplina que mais gozo me tem dado reaprender nos últimos anos. Acredito veementemente que é preciso um certo estádio de maturidade para se perceber a dita e que o grande risco é por-nos a pensar demais (coisa de que já sofro inerentemente).

Recolhi mais uns dados para a tese, estendi roupa, escrevi mais umas coisas para o meu projecto do coração: as CreativeMornings Porto, editei umas fotografias para alimentar as redes e divaguei a ler sobre o realismo, o hedonismo, o epicurismo, a história do Nikola Tesla, a vida do John Stuart Mill, o monomito e a lenda do Prometeu. De uma maneira muito própria isto tudo faz parte do mapa mental que representa a minha realidade actual. Não me peçam para explicar que seria impossível, mas para mim faz sentido. Gostava de perceber de design gráfico e neste momento estaria a criar um storyboard da coisa para ilustrar este post! É capaz de ser por esta característica que raramente me sinto sozinha mesmo nesta quarentena. Sou filha única, sempre tive de imaginar coisas para ocupar o meu tempo. Sempre gostei de viver sozinha (saí de casa aos 17 para ir estudar para Coimbra!) e já vivi mais anos só do que acompanhada no final das contas, por isso ocupar o tempo é algo que me é natural. É provável que seja por isso que tenho sempre mil projectos e ideias e o problema seja sempre a falta de tempo para os concretizar e posteriormente a falta de compromisso para os alimentar no longo prazo, o que já diz muito sobre o problema das minhas relações amorosas também...

Almocei parte das favas com chouriço que me sobraram, liguei ao meu melhor amigo enquanto bebia café e comecei a ler sobre outras coisas. Poupo-vos aos detalhes, mas envolvia o futuro do trabalho, as falhas de segurança da Zoom e a recuperação económica  pós coronavírus. Não ver notícias tem o reverso da medalha que é "obrigar-me" a ler muito para ter uma visão alargada do que se está a passar. 

Tal como habitualmente saí pelas 19h para a minha corrida/passeio fotográfico e para os meus 7kms que hoje me levaram mais tempo. Estou em baixo de forma na corrida, claramente.  No caminho para casa encontrei o meu Bombeiro na rua e alapei-me a ele num abraço gigante. Tinha saudades de estar no meio de uns braços. Este distanciamento social é coisa que me mata, não fui feita para isto!

Jantei novamente Baba Ganoush e acabei no sofá a escrever um email para um desconhecido enquanto bebia um copo de Soalheiro. Tenho a perfeita noção de que há muitos anos que não escrevia tanto... 

Há muitos anos que deixei de mostrar quem era neste mundo dos blogs. Depois de ter cunhado o meu nome neste tasco, de ter escrito os desejos de Ano Novo de 2015 numa das mais importantes publicações lisboetas de que tenho memória (para mim era um ícone de Lisboa, des-larguem-me!), de me ter despido perante tudo e todos os que me lêem, de ter dado a voz num programa de rádio e podcast que dá pelo nome de Tinderella: O Amor nos Tempos do Tinder e ter aparecido semanalmente no Porto Canal a falar de amor e depois a falar de criatividade (Meu Deus@, eu própria me surpreendo sobre quão eclética sou nisto!), a verdade é que mostrar ao mundo quem sou não fazia sentido, muito pelo contrário. Diria que 90% dos que hoje me lêem já me conheceram em algum ponto da vida. O blog continua a ser um lugar onde faço amigos e onde encontrei alguns amantes. Não é segredo que conheci o pai do meu filho através do blog...

Acho que pelo facto de ter uma vida pública bastante exposta nos últimso tempos, acabei por mostrar menos quem sou nas palavras. Escrevi tanto, para tantos sítios, dei a cara e a voz na rádio e na televisão e aos poucos fui calando quem era. Não porque a voz ou as palavras se tenham esgotado, mas porque já as consubstanciava em tantos sítios que senti que tinha pouco a dizer por aqui. A par disso, o facto do pai do meu filho continuar a ler o meu blog mesmo depois da separação feia que tivemos e da minha mudança para o Porto fez com que eu calasse muito do que tinha para dizer e o fosse escrevendo noutro sítios, sendo o meu caderno de memórias o principal depositário disso. 

O grande motivo que me levou a manter este blog foram os anos. Ter aqui 14 anos de vida escrita é um desperdício se não for sendo alimentado. Ultimamente fui-me mantendo a escrever na perspectiva de um dia dar a conhecer este espaço ao meu filho. Quando ele tiver a idade certa de compreender muito daquilo de que aqui falo. A quarentena obrigou-me a recolher a minha voz na esfera pública e não será, pois, de estranhar que a comece a libertar mais na esfera privada.

Aposto com um All In!

Em como a palavra de 2020 vai ser: coronavírus!

Dia 34:


Dantes costumava querer ser gata quando voltasse a um Universo igual a este, numa qualquer reencarnação, na qual nem acredito. O principal objetivo era estar em casa sem preocupações, sem fazer nada, podendo dormir e ter a segurança necessária. Tenho a sorte de ter tudo isto nesta quarentena em maior ou menor grau.

Contudo, percebi que me falta uma coisa essencial: a liberdade!

Por isso daqui em diante quero apenas ser árvore. Enfrentar as intempéries todas, permanecer muitos anos no mesmo sítio, mas poder desfrutar da paisagem, saber saborear as estações do ano, ver as minhas sementes serem levadas pelo vento e as minhas folhas lavadas pela chuva e acima de tudo usufruir da beleza do céu todos os dias: madrugar com o canto dos pássaros nos primeiros raios de sol e adormecer debaixo das estrelas, enquanto produzo oxigénio, elemento vital a todas as outras formas de vida.

Depois desta Quarentena quererei apenas a simplicidade de ser Árvore.

Não sei lidar...

Em tempos de quarentena perco horas na Wikipédia a seguir hiperlinks como se o meu cérebro estivesse a fazer um mapa mental de todo o conhecimento do mundo!

Diário de Uma Quarentena #12042020



Domingo de Páscoa. É provavelmente o dia mais estranho de que há memória nos meus 36 anos de vida. Não é de todo o mais doloroso, mas é aquele cujas palavras me faltam para o descrever. Nunca me passou pela cabeça a possibilidade de viver um acontecimento que ficasse para a História, aquela que o meu filho um dia irá estudar na escola. Nunca me imaginei a viver uma pandemia e nunca esperei gostar tanto deste período de isolamento social, logo eu que sou um animal de palco!

Acordei tarde hoje. Estou finalmente a voltar ao meu biorritmo normal que é mais tardio. Saí da cama perto das 11h e decidi que Domingo de Páscoa dava direito a brunch com sumo de laranja, ovos mexidos, iogurte com granola, café, abacate, salada de alface e tomate, pão com manteiga, queijo, doce, fiambre. Só não fiz panquecas porque desconfiei que seria demasiado! Brunchei para o dia quase todo e pus-me a fazer um curso online que já devia ter acabado no final de Março. Quando finalmente o acabei, vi mais um episódio da série Freud que está na Netflix e só penso se sempre haverá segunda temporada da Taboo, a melhor série de todos os tempos, com o melhor homem de todos os tempos: Tom Hardy!

Acabei por adormecer no sofá e acordei eram quase 18h. Li mais umas páginas do livro de ontem, falei com o meu filho no Skype e pelas 19h decidi que ia mesmo sair para o meu passeio de higiene mental. Hoje senti-me demasiado cansada para ir correr e estive quase para não ir, mas depois lembrei-me que o amanhã nunca está garantido e mais valia ir hoje aproveitar a oportunidade. Consegui tirar umas quantas fotografias magníficas ao céu (como esta do post!) e acabei por vir para casa já de noite. Confesso que hoje no caminho para casa tive mais medo de ser assaltada ou violada do que de ser infectada por coronavírus. A cidade está realmente deserta e estava quase assustadora à hora que regressei.

Estes meus passeios têm-me dado a sensação de estar a viajar sozinha, a explorar e conhecer um sítio novo. E nada me faz mais feliz do que a descoberta da viagem. Tenho descoberto autênticas pérolas na cidade e já sou capaz de vaguear num raio de 5kms sem me perder e sem precisar de mapa. A ausência de pessoas e a descoberta de caminhos pouco frequentados tem sido um bálsamo para a alma. Sinto que ainda que presa num lockdown mundial, continuo a ser livre cá dentro enquanto puder vaguear à vontade esteja onde estiver. E gosto muito deste ritmo de final de dia, o lusco-fusco será sempre a minha hora preferida do dia.

Depois do banho de final de dia, fiz uma salada César e abri uma garrafa de vinho tinto. Acabei por estar a beber um copo com 2 amigos numa videochamada e a falar de barbas e pilas! Foi um Páscoa memorável, sem dúvida!

Recuperei a verdadeira alegria de estar sozinha e feliz na minha vida, ainda que no meio de uma quarentena louca, mas a verdade é que já não me sentia tão em paz há anos e cada vez mais valorizo esta calma, ao ponto de saber que é cada vez mais difícil abdicar dela seja por quem for. Nenhuma relação pode ter este custo por mais vontade que haja de que dê certo. E na quarentena ou fora dela, a relação comigo mesma é aquela onde quero continuar a investir porque o retorno supera largamento o investimento. 

(E pronto, acabo de parecer que ando a escrever um livro de auto-ajuda! É capaz de ser sinal de que estou isolada há demasiado tempo...)

Lição n.º 92

A paciência está diretamente correlacionada com a compaixão.

Diário de Uma Quarentena #11042020



Acordei pelas 9h30 sem despertador depois de uma noite ainda algo agitada mas muito melhor dormida. Vesti-me de imediato e fui fazer papas de aveia com framboesas e coco para o pequeno-almoço acompanhadas do meu precioso café!

Passei a manhã a pesquisar detalhes para a minha casa open space de design industrial e percebi que não há apenas uma forma de a fazer. Todas as possibilidades estão em aberto e eu vou desenhando diferentes cenários consoante a arquitectura que me calhar. O quarto do meu filho é o mais simples de planear e acho que está fechado. O mesmo para a sala-cozinha enorme e o terraço que quero ter. Já os meus espaços estão a ser mais difíceis de perceber como podem ficar o meu reflexo. Tenho muitas possibilidades que gosto e acho que só conseguirei visualizá-as quando tive realmente a casa.

Hoje cozinhei finalmente favas com chouriço para o almoço e acho que tenho comida para o resto da semana. Nunca fui capaz de cozinhar só uma refeição única. E experimentei uma variante da sobremesa da quarentena para gastar leite que tinha, mas não ficou brilhante. Dá para o gasto! 

Comecei a ler um livro (o da foto!) que já vivia cá em casa há uns tempos e eu ainda nunca tinha pegado nele. Parece-me bastante apropriado ao tempo que estamos a viver e já me ri bastante com a ironia do primeiro capítulo. É incrível como a vida acontece e nos deita por terra tantas certezas, não é? 

Pelo final da tarde, recebi uma mensagem do Homem do Glamour com uma playlist cujo título é: So Good at Being in Trouble, acompanhada das palavras: Isto é tão nós! Está em loop nas colunas cá de casa tal é o reflexo ao ouvir aquilo tudo. 

Durante a tarde recebi também a notícia que uma amiga está grávida. Fiquei genuinamente feliz e admirei a coragem de uma mulher de 42 anos fazer fertilização in vitro para decidir ter um filho sozinha. Haja coragem que tudo se consegue na vida! Mas oq ue genuinamente me comoveu foi receber as palavras de que eu era uma inspiração para ela e para o período que vai ter pela frente. Lembra-me que esta semana outra amiga me disse que eu era uma inspiração também, noutra área completamente distinta da vida. É muito reconofrtante ouvir isso, mas deixa-me com um peso de responsabilidade de corresponder às expectativas grande...

Saí pelas 18h30 para ir fazer a minha corrida com o Bombeiro. Ainda que não seja suposto, por um lado sei que amanhã a solidão me vai doer mais e estou por isso a acumular doses extra de companhia, por outro sinto que este tempo lhe está a custar muito mais a ele do que a mim e é a minha forma de retribuir todo o suporte que ele foi nos últimos anos na minha vida. 

Este ritual de todos os dias escrever este Diário tem-se revelado uma bênção. Não sei bem como nem porquê mas sei que estou lentamente a transformar-me outra vez e vejo alguns reflexos disso nestas palavras que vou escrevendo por aqui. 

Para a semana ainda estarei sozinha, já que o meu filho devia vir hoje mas o Estado de Emergência não o permite. Já decidi que vou fazer um horário bastante mais rígido e com rotinas mais eficazes. Preciso de despachar coisas e preciso dessa estrutura para rentabilizar melhor o tempo. Continuo sem conseguir chegar a tudo o que queria mas já aceitei isso. Agora é encontrar critérios para que chegue onde quero sem grandes desvios nem recuos no caminho. 

Quando isto passar há uma vida nova à minha espera e eu planeio agarrá-la com unhas e dentes. 

Diário de Uma Quarentena #10042020


Ainda que a medo hoje o sol regressou ao Porto. Já disse isto inúmeras vezes mas o que mais me custa aqui em cima é o clima. Os dias cinzentos combinam com o granito da cidade e com a dificuldade que é entrar na vida dos portuenses e fazer amigos por cá.

Estou a sentir definitivamente o cansaço dos dias em casa. Sinto-me com uma falta de concentração imensa em todas as tarefas que tenho de fazer. E por isso hoje foi o primeiro dia em que pus o cronómetro para meditar. Cheguei aos 10 minutos com esforço mas valeu bem a pena porque passei o dia com energia renovada. 

Falei ao telefone com uma amiga de manhã e percebi algumas das coisas que me angustiam e o motivo. E de seguida estive na conversa com um amigo sobre o passado com o qual preciso de fazer as pazes. Sem dúvida, que há uma nova era à espreita na minha vida. E como forma de honrar este sentimento comecei hoje a desenhar a minha próxima casa e a perceber como quero que sejam alguns dos detalhes. Não tenho dúvidas que essa é mais uma das mudanças no ar. 

Almocei a minha alheira com grelos e passei a tarde a trabalhar. Consegui organizar minimamente o meu email e despachar burocracias. Ainda tenho de fazer o IRS entretanto! 

Tal como habitualmente pelas 19h saí para os meus 7kms de corrida, que hoje foram só 6kms. Ainda assim encontrei mais gente na rua do que imaginei. Mas andar no meu mundo, a ouvir a minha música e a fotografar a Natureza foi a regeneração que precisava. Cheguei a casa pelas 20h, tomei banho, fiz wraps para o jantar e comecei um ritual novo: o Copo do Sagrado Feminino, também conhecido pelas Bacantes. Não tenho dúvidas que vou aprender muitas coisas com estas mulheres! 

Hoje foi um dia bastante mais regular. Perceber que estou com o período (e já passou mais um mês, senhores!) pode ter influenciado o meu humor esta semana sem eu perceber que era mesmo TPM. E nesta linha, hoje ao falar com o Macho do Glamour (outra looooooooonga história!) percebi que ainda não tive sexo em 2020. E a coisa ia tão bem encaminhada com o Chef até que o coronavírus veio tramar a minha vida sexual. Amanhã também não devo ter jantar com o Husband Material (o meu anjo da guarda que cuida da criança quando eu preciso de ir fazer alguma coisa) porque ele vive num concelho diferente do meu. 

E custa-me um bocado passar a Páscoa sozinha. Mas entretanto já comecei a ter ideias para Domingo. Haja vontade e foco e não me falta o que fazer! 

Sonhos por cumprir:

#45 - Ter uma casa open space! 

Diário de Uma Quarentena #09042020



O principal motivo que me leva a manter este diário são na verdade as fotos. Poder parar um momento do meu dia quase sempre igual para encontrar uma imagem bonita, acaba por me relembrar a importância de algo que nos torna mais humanos: a beleza. Não será também à toa que em tempos de isolamento sejam as artes aquilo que mais é consumido pela grande maioria de nós. É aquilo que ainda nos vai lembrando de que somos humanos e há uma natureza interior que nos é intrínseca.

Hoje comecei o dia com 3 polícias fardados à porta na tentativa de salvamento do gato abandonado do meu prédio. Após lhe ter dito que se queriam entrar em minha casa teriam de se descalçar, ao que se recusaram (ahahahahah!) acabaram por chamar os bombeiros e o gato foi salvo pelas 11h50 desta manhã! Acho que fiz a minha boa ação da quarentena. Posso finalmente hibernar até isto passar?

Hoje foi dia de limpezas profundas e de uma renovação cá em casa. Após horas de limpar pó, aspirar, lavar vidros, lavar chão, etc senti a real necessidade de destralhar coisas cá em casa. Tenho planos de mudar de casa quando entrarmos em crise e o mercado imobiliário for finalmente para valores acessíveis ao comum dos mortais ou apenas a uma mãe singular. Always look at the bright side of life, right?

Li muito hoje. Notícias sobre a educação em tempos de COVID-19 que é a minha ára de estudo, artigos sobre isolamento e estratégias de lidar com isto, artigos sobre capitalismo, privacidade e solidão. Entretanto e como ontem percebi que preciso urgentemente de novos objetivos de médio prazo porque os que tinha estão suspensos ou permanentemente cancelados, ando a pensar escrever uma coluna sobre relações amorosas em tempos de quarentena. Retomei hoje um contacto sobre o assunto e escrevi o primeiro rascunho. 

Almocei peixe assado no forno com batatas cozidas e pimentos assados. Posso ser mais portuguesa nestes dias? Houve batido de açaí à tarde e fiz umas bruschettas para o jantar acompanhadas de 2 copos de Soalheiro, o melhor vinho verde que conheço! Pelo meio voltei ao pudim de coco, tapioca e manga (este que está na foto!) e no qual estou viciada. Aquilo é um manjar dos deuses exóticos! 

No final do dia a notícia de que dificilmente volta a haver escola este ano deixou-me de rastos. Não faço a mínima ideia de que como vou trabalhar e cuidar do meu filho até Setembro. Já para não falar de todos os impactos financeiros desta situação, temo que a minha saúde física e mental sofra bastante com esta situação. Tenho tentado ver coisas positivas ultimamente mas confesso que nestes últimos dias está muito difícil dissipar as nuvens negras que estão no horizonte. 

Diário de Uma Quarentena #08042020


Acordei muito cedo hoje e num dia positivo. Estou finalmente a aceitar a realidade que vivo há 29 dias. Não sei quantos mais dias de quarentena me restam, mas mais vale que sejam positivos do que negativos. O reverso desta aceitação é que estou bastante irritada com o optimismo infundado que vejo à minha volta. Soa-me tudo a uma estratégia de fuga da genuína oportunidade de mudança.

Tenho dormido bastante mais nestes dias. Geralmente 9h a 10h por noite e isso tem sido vital na minha sanidade mental. Acabo por me deitar mais tarde do que o faria se o meu filho estivesse em casa, mas sabe-me a vida adulta. 

Hoje trabalhei de manhã mas com fraca produtividade. Almocei no whatsapp com uma amiga que tenho vindo a conhecer melhor e com quem aprecio genuinamente conversar. Identifico-me bastante e só tenho pena que ela viva em Aveiro e não esteja mais perto. Acabei por passar a tarde ao telefone a fazer a ronda de amigos. Estava a precisar disso!

Pelo meio ando numa saga de salvar um gato vadio que teve o azar de cair no terraço do meu prédio e onde parece ser impossível aceder. Já falei com Bombeiros (uh! uh!), com o Canil Municipal (de quem apresentei uma queixa porque a opção que me deram foi deixar o gato morrer), com a PSP e inclusivamente com o PAN. Acho que estou a canalizar a minha frustração toda na tentativa de salvação de um animal indefeso. Ainda estou a aguardar que salvem o gato desde 6a feira! 

O ponto alto do meu dia foi claramente o molho de grelos que tinha encomendado e fui buscar à tarde! Estou a preparar-me para os comer com uma alheira! Se não fosse portuguesa de gema acho que me mudava! Adoro a nossa gastronomia.

Estou cansada do confinamento obrigatório, mas sem dúvida nenhuma que isto me tem permitido perceber de quem quero estar próxima na minha vida. E se há pessoas que se têm revelado anjos da guarda, há outras de quem agradeço a distância. Agradecer pelo afastamento do mau é tão ou mais importante do que agradecer o bom que temos na vida. 

Diário de Uma Quarentena #07042020


Hoje saí de casa para me abastecer de comida para mais de 1 mês quase! Estou a entrar ligeiramente na histeria de fazer compras a correr e trazer coisas para comer durante muito tempo. Infelizmente os frescos não duram tanto tempo e o meu congelador é pequeno, se não dificilmente sairia nas próximas semanas. 

Tomei o pequeno-almoço tarde para não variar, deviam ser 10h, arrumei a casa e saí para as compras que me levaram horas tanto dentro do supermercado como na fila de espera. Almocei o resto das ervilhas com ovos escalfados e trabalhei um pouco durante a tarde. Depois disso decidi cozinhar comida para aproveitar restos e para preparar coisas que me levem menos tempo no dia-a-dia. Preciso de aproveitar a solidão para despachar trabalho que se acumula. 

Reparei que desde que a quarentena começou cá por casa há primazia das receitas do Oriente. No outro dia houve caril de frango, ontem houve um Baba Ganoush delicioso que a minha prezada amiga Calíope partilhou e que me deixou água na boca até agora e um pudim de tapioca, coco e manga. Pelo meio ainda fiz um tahini caseiro!

Nas minhas compras hoje não resisti a trazer para casa este ramo de tulipas que me vão alegrar a vida nos próximos dias. Fez-me  sentir mais humana quando comprei este ramo de flores! É um gesto tão simples mas que me faz sentir especial. Já me tinha esquecido que quando vivia sozinha em Lisboa e era solteira comprava flores todos os sábados para mim mesma. É um gesto de auto-amor!

Para amanhã tenho planeada uma limpeza geral e profunda da minha casa, assim bem ao estilo de limpezas de Primavera que raramente faço! Hoje percebi que sinto falta de objectivos que me animem para quando esta tempestade toda passar e não poder ainda planear aquilo que me faz sentir mais eu: viajar, está a mexer-me com o sistema. Por isso o truque é ir criando objetivos pequenos e curtos para o dia seguinte. Todas as pequenas coisas são importantes e, hoje mais do que nunca, é preciso encontrar um motivo que nos faça sorrir no dia seguinte.  

Diário de Uma Quarentena #05042020


Recebi diversas mensagens de leitores (ainda os/as há por aí? Estou surpreendida!) a dizer que apreciavam os meus relatos diários.

Geralmente chego esgotada ao final do dia e entre ir correr 1h ou ficar em frente ao PC mais 1h, a escolha costuma ser óbvia. Esta semana que passou o meu filho foi para o pai e tenho saído quase todos os dias para ir correr os meus 7kms.

Hoje o dia foi difícil. Estou a chegar à fase em que sinto falta dos abraços e dos braços-casa e o contacto humano significativo está vedado. Acabei por me arrastar da cama para o sofá e nem tirei o pijama o dia todo.

Tomei o pequeno-almoço pelas 11h30, almocei uma bolonhesa que já estava feita pelas 14h30, fiz um batido delicioso de açaí ao lanche e pelas 21h decidi fazer jantar de ervilhas com ovos escalfados. 

O meu jantar foi sem dúvida o ponto alto do dia, não apenas porque nunca tinha cozinhado isto - e é das coisas mais fáceis de sempre! - mas porque andava com desejos de comer este prato há vários dias.

Pelo meio comprei 2 baralhos de Tarot online e mais um de cartas oráculo. É sempre assim, quanto mais investigo no meu doutoramento a ciência pura, mais preciso de me conectar com a minha intuição. Não consigo explicar... 

Enviei uma mensagem ao Alfa Pendular (logo, logo explicarei este tópico!) sem resposta mas muito honesta. Temos uma conversa difícil pendente e eu desconfio que me vai desequilibrar outra vez.

Ando em remodelações amorosas também. Se houve coisa que esta quarentena já me ensinou foi a não viver mais longe do que hoje e a abdicar do total controlo. Se a primeira já vou fazendo, ainda estou a anos-luz da última. 

Diário de Uma Quarentena #250302020


Acho que finalmente já acertei uma rotina que funciona comigo e com a criança em casa. Acordamos pelas 8h30 habitualmente, eu saio da cama pelas 9h e preparo o nosso pequeno-almoço. Depois disso arrumo a casa e visto-nos como se fossemos sair. E todos os dias ele diz que não quer ir para a rua. É a minha bênção deste tempo!

A manhã dele é passada a brincar na sala onde há toda uma tenda de brinquedos montada. Já eu, pratico yoga no quarto algures entre as 10h e as 11h e costumo trabalhar nas tarefas de maior foco até às 12h30. Por essa hora levanto-me do PC e preparo o nosso almoço. Hoje fiz caril de gambas para mim e rissóis no forno para ele que vão ser também o meu jantar.

Depois do almoço entra a rotina da sesta e geralmente passo 1h na varanda a ler um capítulo de um livro e apanhar banhos de sol enquanto oiço música e penso na vida. Em dia de sorte tenho o vizinho jeitoso do andar de baixo só de boxers a fazer o mesmo na varanda dele! Hoje foi dia de azar...

Pelas 15h geralmente tenho uma reunião online, seja trabalho, aprendizagem ou momento social. Costumo ler alguns artigos online apenas de fontes fidedignas e faço algumas tarefas mais práticas em casa que não sejam só ao computador. Hoje estive num webinar sobre isolamento com um senhor que passou 20 anos na prisão a falar da importância de alguns gestos na nossa rotina e da filosofia como arma de combate ao que estamos a viver. 

Geralmente fecho pelas 17h30 e entro num momento de brincadeira com o meu filho até ser hora do banho ou do jantar. Ele à noite come pouco e fica com a sopa e a fruta acompanhada de um mimo que pode se gelatina, chocolate, bolachas ou afins. Eu também janto sopa, verduras e um bocado de proteína sem hidratos de carbono porque mexo-me muito pouco nestes dias e estou apostada em emagrecer!

Depois de o deitar faço um ou dois telefonemas de conexão social, vejo TV, escrevo, faço uma aula de um curso online que ando a tentar acabar ou termino tarefas de planeamento para o dia a seguir.

Acho que estou perfeitamente habituada já à quarentena. Já dou por mim a nem querer sair de casa. Hoje tive entrega de compras ao domicílio por um dos homens da minha vida que me trouxe Radlers e amendoins para os meus finais de tarde. Ontem à noite consegui dar 2.500 passos enquanto fui despejar o lixo à rua e deixei o puto a dormir sozinho em casa. Fico sempre de coração na mão quando tenho de fazer isto, mas é a minha única alternativa.

A única coisa insubstituível de que sinto mesmo falta é de abraços. Mas acho que vou furar a quarentena novamente na Sexta à noite e ter cá outro dos homens da minha vida a jantar. 

Preciso de sentir que ainda sou humana. Que ainda sei olhar nos olhos e conversar. Que ainda consigo ler expressões faciais. Não sei o que este tempo nos vai fazer mas tenho lido muito sobre psicologia e conexão humana. Receio pelo futuro da Humanidade e pela evolução de milhares de anos que ainda assim não nos tornaram perfeitos. Só espero que pelo menos este isolamento nos traga sabedoria.

Oração:


Preciosos são os tempos desta Quarentena! 

Diário de Uma Quarentena #21032020


Sábado que nem sabe a fim-de-semana. Consegui sair da cama às 10h, depois de acordar as 7h45 com o puto, mas ele já sabe ligar a TV sozinho e foi ver os desenhos animados enquanto eu punha as notícias em dia. Já disse que vou deixar de ver o telemóvel na cama, mas ainda não consegui a disciplina. Acabei por estar quase 2h a falar com um dos homens da minha vida com quem seria feliz se a vida não nos tivesse levado para cidades diferentes.

Tive uma reunião de trabalho pelas 11h, que deveria ter sido um brunch entre amigos num sítio lindo aqui do Porto. Definimos uma imagem visual mais coerente para um projecto. Tomei logo algumas acções imediatas e rápidas e decidi limpar a casa porque já não aguentava o estado do pó e dos tapetes. Já não me lembrava do que era limpar tudo, mas cheguei à conclusão de que tenho poucas coisas nesta casa porque acabei por me despachar bem rápido! 

Depois de perceber que hoje ia tudo descambar em horários, dei o almoço ao puto pelas 14h, tomei banho e fui deitá-lo para a sesta. Almocei uma salada e pela primeira vez esta semana consegui estar no sofá sentada a ver um programa de TV onde validei algumas das coisas que penso, aprendi coisas importantes com alguém com quase 60 anos e decidi pensar menos nas coisas. Valeu bem a hora que demorou!

Quando o miúdo acordou sentia-me finalmente descansada, mas ainda vim acabar algumas tarefas que não páram de se acumular nas minhas listas de trabalho. Eram 19h30 quando me lembrei que ia furar a quarentena e ter cá um amigo a jantar em casa. Aquele que tem sido o meu anjo da guarda dos últimos tempos, aquele que faz de babysitter da criança para eu ir às compras ou me traz as compras a casa, aquele que todos os dias me pergunta como estou e se não gosta da resposta pega no telefone e liga imediatamente. Eram 20h e pouco quando ele chegou e me viu vestida para um jantar de Sábado normal, que teria acontecido connosco nalgum sítio fora de casa se não estivessemos nesta quarentena tramada! Jantámos um risotto de cogumelos maravilhoso e abrimos 2 garrafas de vinho branco das 5 que ele me providenciou!

Ficámos a conversar até à 1h30 da manhã, sobre tudo e sobre nada em particular. Andei muitos anos para trás no tempo e concluí como fui louca ao ir de Erasmus para a minha amada Itália, com 19 anos sem falar uma palavra de italiano. Foi um tempo de solidão que me ensinou muita coisa útil para este momento que estamos a viver. Vão ser tempos duros, mas que nos vão permitir relembrar sabedorias antigas por vezes esquecidas.

Que se mantenha a saúde e a paz! 

Highlight do Dia:

Vi um homem semi despido a apanhar sol na varanda esta tarde! 

Diário de Uma Quarentena #19032029


Desde o início deste quarentena voluntária, acho que hoje foi o dia mais próximo do normal que tive. Acordei pelas 8h, tomei o pequeno-almoço e dei de comer à criança, li as notícias já que deixei de ver o telejornal há 3 dias, e vesti-me. Pelo caminho liguei a uma amiga para saber como ela estava e sem querer delineei uma formação à distância.

Eram 10h quando comecei a trabalhar afincadamente para levar ao ar um evento virtual de 100 pessoas na próxima semana. Vamos ver como corre! Arrumei pastas virtuais e criei uma organização diferente na gestão do projecto. Estava claramente a precisar de gastar energia nas coisas que me dão prazer!

Preparei o almoço mais cedo, pelas 12h30 e fui adiantando também o jantar. Parecendo que não isto fez a diferença na estruturação do dia e no cumprimento de horários com o meu filho. Almoçámos os dois, brincamos aos dinossauros e ele foi dormir a seguir. Ao contrário de ontem que pelas 17h desisti de insistir na sesta que nunca aconteceu, hoje adormeceu rápido e só acordou pelas 17h. Tinha decidido que ia beber o café a seguir ao almoço na varanda, mas sem saber bem como sentei-me ao computador e só levantei o rabo da cadeira eram quase 19h. Fiz reuniões online, revi coisas em falta, aprendi umas coisas novas de ferramentas virtuais e distribui trabalho.

Pelas 19h fui dedicar-me a uma descoberta de prazer recente: cozinhar! Estava a precisar deste tempo para poder disfrutar disto com o meu filho nos próximos anos. Tenho a sensação de que passarei muito tempo na cozinha a fabricar magia com as mãos e as panelas nos próximos anos. Para amanhã tenho o plano de fazermos o nosso primeiro bolo em conjunto!

Aqui pelo meio planeei um jantar de Sábado com mais uma pessoa do coração assim meio à socapa, porque preciso de algumas compras e estava a sentir a falta dele. Vamos beber vinho, comer risotto de cogumelos e brindar ao facto de estarmos vivos e bem de saúde! 

Hoje já disse que só me apetece lamber corrimões dos supermercados a ver se apanho o vírus, curo a coisa e posso voltar a uma vida normal! Faz hoje 7 dias que estou nesta quarentena voluntária e apesar de já me sentir habituada a esta nova "normalidade", a verdade é que já nem me lembro do que é andar a pé na rua!  

Curiosamente as noites são o que menos me custa, porque já estava bem habituada a esta impossibilidade de sair. E se passar o dia focada como hoje, mal dou por ele a passar. Noutro ponto, ando inconscientemente a racionar comida, para mim e para o meu filho também. Acho que por um lado tenho medo que acabe mas por outro acabo por comer menos porque não me mexo muito e continuo sem grande fome. 

Estou preocupada com muitas pessoas que conheço que têm negócios pequenos e não sei bem como é que vão sobreviver a isto. Já disse que em 2020 vamos morrer de 3 coisas apenas: coronavírus, crise económica e/ou loucura. Escolham a vossa!

Diário de Uma Quarentena #18032029


Fui à praia muito provavelmente pela última vez nos próximos meses. Aqueles breves minutos fizeram milagres por mim. 

Ainda assim estou absolutamente exausta hoje. Sem capacidade de registar o dia. Tal como não consegui registar o de ontem. 

Voltei a ter montes de compromissos na agenda e pouca capacidade de produzir coisas. Tenho genuinamente de abrandar ou vou dar em louca e esgotar-me.

Todos os dias são uma aprendizagem sobre o que não fazer para ter mais qualidade de vida e capacidade de resistência. Por agora é apenas ir dormir mais cedo do que o habitual para aguentar o dia. 

Prometo voltar aos relatos mais detalhados logo que possível. Estou a precisar de uma pausa desta pausa. 

Verbo da Semana:

Quarentinar!

Diário de Uma Quarentena #16032020


Hoje foi dia de novo reajuste. Ser segunda-feira sem sair de casa, ter o puto em casa o dia todo, a pressão do trabalho para fazer, a falta de vontade e a necessidade imensa do exercício físico logo pela manhã!

Acabei por molengar na manhã. Acordámos pelas 8h30 e só tomámos o pequeno-almoço já passava das 9h30! A manhã foi passada a ver as notícias, a tratar de assuntos delicados de trabalho, a matar o isolamento social com 2 ou 3 telefonemas para colegas e amigos. Eram 13h30 quando fui tratar do almoço que já estava feito desde ontem. Almocei com o meu filho, tratei de o pôr a dormir, fiz mais uns telefonemas e andei às voltas com a sesta dele até às 17h, hora em que ele finalmente adormeceu. Estamos todos trocados nas rotinas e ele não é excepção. Por mais que eu tente normalizar a vida, é difícil conseguir e é difícil fazer-lhe entender o que se passa lá fora. 

Graças a uma amiga que é luz, consegui estar focada à tarde a trabalhar. Despachei coisas do doutoramento, aprendi mais umas coisas novas e planeei um evento virtual que deve acontecer dia 27 deste mês. Pelas 19h fiz a minha aula de Yoga seguida de um bom relaxamento. Consegui meditar um pouco enquanto observava o pôr-do-sol e pensava na loucura do que estamos a viver. 

Jantei rissóis no forno que tive a clareza de comprar antes da quarentena e que me apeteciam mesmo! Passei 2h no skype com 2 amigos que adoro e fizemos a tour virtual das respectivas casas porque uma delas ainda não tinha estado nas nossas casas. Estranho modo de vista este, onde entramos nas casas uns dos outros sem sabermos a morada!

Uma das maiores novidades desta fase é a minha ausência de fome, depois do pequeno-almoço. Acho que o meu corpo se está também a habituar ao menor gasto calórico e é raríssimo sentir fome. Tenho reduzido imenso as doses habituais de comida, o que não é mau dado não sabermos bem o que aí vem. 

Ontem já tarde, falava com um grupo de colegas que estamos espalhados pelo mundo fora, maioritariamente na Europa e todos estamos a viver o mesmo e a tentar ser criativos. À excepção do Reino Unido que continua a fazer uma vida absolutamente normal.

Amanhã terei de sair para ir às compras porque preciso de tampões! Estou de coração apertado só de pensar como vou gerir este stress com o meu filho! Logo ele que tem a sorte de nunca querer sair de casa! Aquece-me o coração já ter tido pelo menos 4 pessoas a oferecerem-se para me trazer as compras a casa.

Amanhã à tarde tenho também 2 reuniões no Zoom, essa tábua de salvação do trabalho remoto. Uma com alguém aqui perto, a outra com muitas pessoas espalhadas pelo Mundo. Vai ser bom sentir alguma Humanidade, ainda que virtual com outros. Hoje de manhã escrevi também sobre o que me afligia. Sinto muita falta de andar a pé sozinha, a ouvir música e pensar na vida. Este ritual tornou-se no meu escape e no meu bem essencial para o equilíbrio. 

Sonho com o dia em que possa retomar esses passeios. Sonho com uma praia quente e pouco movimentada ao pôr-do-Sol. Sonho com um intermédio entre o bulício antigo e a paz que esta quarentena nos obriga a encontrar.

Nova Temática de Estudo:

Cobots.

Diário de Uma Quarentena #15032020

O dia começou mais cedo com a criança a acordar pelas 7h. Incrivelmente estive na cama até às 9h e consegui, pela primeira vez em muitos meses, visualizar a vida que quero que se siga, depois desta fase que iniciei em 2017, e os novos caminhos que quero traçar para nós. Parece que estava à espera do momento certo para encontrar novas direcções no caminho.

O meu vizinho da casa ao lado anda a podar as videiras desde ontem. Vê-se que é uma casa modesta mas cheia de plantas verdes e um terraço que faz inveja. Tenho parado muitas vezes para observar a vida nas janelas à volta. Mesmo em frente tenho 2 janelas enormes com um candeeiro de tecto imenso e lindo que se acende todas as noites. Parece uma daquelas salas de jantar super fancy onde se fazem tertúlias filosóficas todas as noites. Sempre tive curiosidade em saber quem mora ali. No restos das janelas, à volta, há muitas pessoas mais velhas sozinhas. E alguns casais mais jovens nos prédios da direita.

Cumpro religiosamente a rotina de me vestir e arranjar todos os dias. Hoje fui mais além e fiz uma exfoliação geral ao corpo todo, arranjei as sobrancelhas, pintei as unhas. Antes disso, tinha dado um jeito à casa e arejado tudo. Pela primeira vez em muitos anos voltei a sentir um imenso e genuíno prazer em cozinhar para mim e para o meu filho quando fiz um almoço simples de frango com esparguete. Terei de ir com ele às compras esta semana e tenho medo de sair de casa. Estou a pensar num supermercado onde o possa deixar no carro enquanto compro o necessário para os próximos dias.

Vi um filme esta tarde: Chefes Intragáveis 2. Sempre defendi que a arte deve mexer connosco, mas em matéria de cinema há muitos anos que só procuro finais felizes ou coisas que me façam esquecer da dura realidade lá fora. Em tempos de quarentena então isso é mais que obrigatório! Tenho visto também uma série na Netflix para me distrair: Toy Boy. 

Pelo meio tenho tentado reflectir sobre algumas das coisas importantes na vida, nomeadamente na perda de liberdades individuais que este vírus vai trazer. Assusta-me que haja uma petição a circular para o fecho das fronteiras, porque isso vai permitir que haja sempre circunstâncias excepcionais onde a livre circulação de pessoas pode deixar de ser um direito. A Europa tal como a maioria da minha geração a conhece, pode muito bem vir a ser apenas uma memória. 

Estranhamente o caso do Reino Unido e a abordagem que estão a ter dá-me esperança de que eles possam estar mais certos do que nós. Não espero milagres, mas gostaria de que fosse possível uma abordagem onde a liberdade não é posta em causa em nome de uma pandemia.

Todas as noites, cerca das 21h, faço uma videochamada com a família toda no chat do Facebook. Ontem ri-me como já não me lembrava de rir há anos! Porque apesar de ser por vídeo parecia exactamente a mesma dinâmica familiar quando estamos todos juntos. Sendo que havia um de nós que estava a + 2.000kms de distância. 

A quarentena tem-me feito reaprender alguns dos meus prazeres de sempre sendo escrever o maior deles todos.

Diário de Uma Quarentena #14032020


O dia começou à hora do costume. Houve tempo na cama para aproveitar o despertar, com direito a beijos, cócegas e mimos aos magotes. Sei que vou sentir muita falta deste tempo ao despertar quando a vida voltar ao normal. 

Pequeno-almoço habitual, vestir a roupa como se fossemos sair perante um protesto veemente do puto que adora andar de pijama. De seguida cai no erro crasso de ver notícias e devo ter passado 2h a consumir tudo o que havia escrito sobre o sacana do vírus. Dei o almoço ao puto e cozinhei comida para parte da semana. Sei que o tempo não vai ser um constrangimento mas preferi ocupar o dia de hoje nisso. 

A sesta hoje foi impossível de acontecer. Não sei o que se passa com o meu filho, mas são quase 23h e ele acaba de vir ter comigo à sala a dizer que tem medo e não consegue dormir. Parece que ele sente a energia do mundo na fase em que estamos a viver. Às 17h desisti e decidi ir dar uma volta de carro com ele sem parar em nenhum lado. Cerca de 10 minutos depois ele dormiu. Acabei por andar as voltas a ver o rio, a cidade quase parada e uns quantos corajosos que corriam ou andavam de bicicleta à beira-rio. Uma tarde de sábado normalizada mas longe de ser normal. Está quase tudo fechado, a cidade estava bastante deserta e havia filas para se poder entrar nos supermercados já. 

Acabei por estar quase 1h ao telefone com um homem, com quem podia facilmente casar e viver feliz para sempre (também conhecido por Husband Material), a falar de banalidades e a tentar viver uma vida normal. Quando tudo passar, quero estar horas na praia a apanhar sol e deitar conversa fora! 

Não consegui jantar hoje. Parece que tenho o almoço todo no estômago. Acabei por beber um batido de aveia e açaí como nos meses de gravidez em que estava sozinha também numa espécie de reclusão e aqueles batidos me alimentavam o corpo e a alma. Tenho evitado consumir doses massivas de TV e ando com um livro e uma garrafa de água pela casa. Hoje o dia foi difícil para mim que sou uma pessoa de pessoas. 

Manter o ânimo em alta está a ser uma tarefa difícil porque na semana passada já estive em isolamento social praticamente a semana toda. Adoptei uma frase: Infectados já estamos todos, a ideia é transmitir isto ao menor número de pessoas possível. 

Tenho muito medo de como será a vida depois disto. Desconfio que poucas coisas serão como dantes...

Diário de Uma Quarentena #13032020


Foi como um dia de Sábado normal. Acordei à hora do costume, estive meia hora nos mimos na cama com a cria, tomámos o pequeno-almoço, vimos televisão. Eu vesti-me, deixei o puto entregue em casa e fui buscar os últimos bens de primeira necessidade ao supermercado aqui ao pé. Nunca vi prateleiras tão vazias nem uma fila tão grande.

Brinquei com o assunto, atestei o carro de combustível, comprei um maço de Slims para os momentos em que precisarei de descomprimir e vim fazer o almoço. Ele dormiu a sesta e eu trabalhei. Atirei ideias para entreter uma equipa de 15 pessoas, distribui algumas tarefas, fiz uma newsletter e acudi mil vezes a um puto que não queria dormir. 

Eram 17h quando fiz a minha saudação ao sol e estivemos os dois na varanda a tomar a nossa dose de vitamina D. O final de dia foi o mais normal possível: fazer sopa, cozinhar, tratar das coisas para amanhã. Pelo meio criei alguns rituais: ligar por videochamada à minha mãe, fotografar a vista da janela da cozinha, fazer um check aos que me são próximos. 

Vivemos um momento ímpar no curso da História. Preciso de o escrever para um dia perceber o que aconteceu aqui. 

Segunda Casa!

Aquele momento em que já tens o número do restaurante de eleição do Porto gravado no telemóvel. 

Ossos do Ofício!

Aquele momento em que arranjas as sobrancelhas e fazes as unhas porque vais apresentar um evento no dia a seguir! 

Espelho:

 Eu também já fui a pessoa que cortava amarras a direito e a frio.