Dia do Drama.

Primeiro foi o acidente de mota que aconteceu pouco antes de eu regressar a casa vinda das compras do supermercado onde raramente vou, porque o meu supermercado habitual está em obras.

Depois foram os meus vizinhos que me apanharam numa quase emboscada para resolvermos peobelmas do condomínio do prédio já eu estava atrasada para ir buscar.o puto à escola. Consegui resolver a coisa concordando que na impossibilidade de resolvermos isso em reunião avançaremos para tribunal.

Quando finalmente apanhei o puto já para lá da hora, enfrentei uma choradeira na padaria porque não havia pão quentinho como ele gosta de comer. Resolveu-se com um queque porque ele tinha fome e era o que queria desde início. 

De seguida a meio da brincadeira o queque cai no chão e o drama regressa exponenciado ao quadrado. Quando finalmente consigo acalmá-lo, bato de frente com uma mãe aos gritos na rua porque o filho lhe tinha fugido e ela não sabia dele. Respirro fundo, acalmo-a e ligo para a PSP. Enquanto lhe digo os próximos passos, o filho lá aparece e nisto ligo novamente à PSP a avisar da atualização. 

Quando respiro fundo e chego a casa sinto que fui atingida por um furacão de stress e dou-me palmadinhas nas costas porque consegui gerir tudo sem perder a cabeça.

Desejos: uma semana de férias sozinha sem pessoas à volta! Ou então um novo confinamento também não calhava mal...

Dezenas de euros em terapia!

- Mãe, tens de aprender a partilhar o teu brinquedo comigo!

O brinquedo a que ele se refere é o meu vibrador. 

Dia da Mulher:

"Por isso, se hoje um homem lhe oferecer flores explique-lhe que elas foram pagas com os 17 cêntimos por euro que os homens recebem indevidamente a mais do que as mulheres. Que elas foram pagas por si."


Daniel Oliveira


Agenda do Papo Calcinha:

  1. O que as mulheres procuram nos homens
  2. O que os homens procuram nas mulheres
  3. Erotismo Masculino 
  4. Racismo
  5. Liderança feminina discutida por homens
  6. Quotas para mulheres
  7. Auto-estima e auto-confiança 
  8. Síndrome de Impostor
  9. Privação alimentar como visão de sucesso

ATT Homens & Mulheres:

 Nunca confundir feminismo com feminilidade.


Diário de uma Quarentena #29.01.2021



Volto aqui hoje, porque ontem alguém me ajudou a perceber que eu sou uma pessoa de materializações. Para mim materializar a minha intenção é já calçar os ténis para iniciar a corrida. E por isso me é tão importante escrever, seja aqui ou no papel. E por isso gosto tanto de criar. É a minha natureza instintivamente feminina a vir ao de cima. E 2021 é claramente um ano para redescobrir e resssignificar o meu feminino. 

Hoje saltei cedo da cama, para o habitual, e pelas 8h30 já estava plantada frente ao computador para abrir uma janela que me ia abrir muitas portas para este ano que se avizinha. A Lua Cheia em Leão hoje vai ser uma imensa purificação que todos vamos ter de receber, não há escolha nem forma de fugir a ela. Mais vale abraçar a transformação com gentileza. Tomei o pequeno-almoço enquanto me sentia inspirada por o único padre com quem me identifico e no meio disto tudo fiz a Promessa de ir assitir a uma missa dele a Braga mal o confinamento termine, as missas estejam de volta e possamos circular entre concelhos. Quando na minha vida imaginei que o highlight de 2021 fosse combinar assistir a uma missa? 2021 tem mesmo muitas cartas escondidas na manga!

Consegui trabalhar de manhã e submeter 2 resumos para apresentação numa conferência em Setembro e acabei por não produzir muito mais nada em concreto. Arrumei o email e revi as tarefas que quero terminar na próxima semana, embora me sinta bastante cansada para a empreitada que me espera! Entretanto fiz o almoço e almocei com o meu filho sempre a pedir-me um peluche de dinossauro novo e a dizer que não gostava de ervilhas na comida e a seguir a isso decidi limpar a casa. Já que não estava em mood de produção intelectual aproveitei para a produção física mesmo! E aqui pelo meio ainda me deu para arrastar móveis e andar a aspirar os cantos todos. Acho que ando a desempoeirar muita coisa na minha vida e a preparar-me para a chegada das novas sementes de Primavera.

A parte da tarde foi passada em consultas, comigo mesma e com os outros. Acabei a dizer que a pessoa que sou neste momento não se identifica com aquela que durante 2 anos esteve encarregue de um projecto que me encheu o coração e a vida. E se isso não é maturidade não sei o que é! Sinto que este confinamento 2.0 me está a ser extremamente útil para fazer um "zoom out" à minha vida e que me vai permitir ajustar-me imenso a uma realidade que combati durante demasiado tempo. 

Estou sem grandes planos que não seja sobreviver a isto da melhor forma possível e aproveitar este tempo para me ouvir, centrar e permitir que o mundo lá fora ressoe em mim. E continuo com uma imensa fé que 2021 vai ser um ano absolutamente incrível para mim. 


Diário de uma Quarentena #27.01.2021




Tenho andado afastada destas lides de escrita diária, porque acabei por me dedicar mais a uma escrita manual no meu caderno das explorações. Ainda assim, não largo a escrita e é sempre a ela que volto, seja sob que forma for para me ajudar a ganhar distanciamento.

No fim-de-semana, entre eleições e confinamento, recebi um convite para ir beber um copo de vinho a Paris com o meu Homem Fetiche e acabei a passear na neve limpa de Estocolmo em plena hora de almoço! É bom saber que ainda há formas de sairmos da nossa bolha e tentar manter a normalidade dentro daquilo que nos é possível. Ainda na temática das viagens, hoje recebi a notícia que no primeiro semestre do ano vou às Maldivas! O Husband Material ganhou uns largos milhares na Bolsa hoje e prometeu que o Gang ia às Maldivas em 2021. Dado que a época das monções começa em Maio, andámos já a ver viagens de avião! Eu sei que é a maior loucura de todos os tempos, mas depois deste ano de corona, já estou mais focada em viver do que em me preocupar! Acredito quando tiver os pés na areia e na água do Índico!
 
Desde que este segundo confinamento começou que não tenho saído de casa mesmo. Está uma chuva impossível no Porto e não arrisco a apanhar resfriados ou constipações com o miúdo. Não tem sido nada fácil trabalhar e ir mantendo-o cuidado fisica, emocional e espiritualmente mas tenho conseguido ir mantendo as bolas no ar. Nem sei bem como! Ontem tive de escrever 2 resumos de papers para apresentar em Setembro e estou até agora muito orgulhosa de ter conseguido com tudo o que havia para fazer aqui no meio! Em compensação a produtividade hoje está bastante baixa! Consegui dar um jeito à casa, cozinhar e fazer uns exercícios de escrita.

Ontem foi também dia de sair à rua e tratar das compras para as próximas 2 semanas. Estou a antever 2 meses de confinamento pelo menos. Acho que esta vaga vai ser bem pior que anterior e já gastámos grande parte dos cartuchos e das munições no primeiro confinamento. Ainda assim, não sei por causa disso ou porque já não é novidade, a verdade é que tenho levado este tempo muito melhor. Está ainda longe de ser uma situação incrível ou perfeita, mas a minha veia estóica está a aguentar-se bem no meio do caos. Ainda assim, estou a adoptar novas estratégias numa base quase diária. Esta semana vou retomar os meus Jantares da Quarentena, já que a ausência de adultos me está a começar a pesar em demasia, o meu Clube de Leitura tem-se mantido mensalmente, comecei a frequentar Círculos do Sagrado Feminino também sempre que me é possível e neste fim-de-semana vou estrear-me num grupo quinzenal só para mulheres chamado "Divas & Divãs". A ideia é ser um grupo de suporte de mulheres em tempos de confinamento. Veremos o que vai sair dali!

O Bicho do Bruno Nogueira é sempre uma óptima companhia para o final da noite e ajuda a desanuviar da realidade que estamos a viver. Manter as minhas rotinas habituais também tem sido uma ajuda preciosa à sanidade mental. A única coisa que ainda não consegui fazer foi encontrar uma forma de exercício físico que me mantenha ativa e me satisfaça. Sei que devia voltar ao yoga, mas estou muito resistente à coisa. E esta semana em casa também não consegui ainda meditar como gostaria.

Continuo no caminho de não comer carne desde o primeiro confinamento e tenho descoberto receitas maravilhosas que tenho aproveitado para experimentar. Tenho regressado menos às comidas do Médio Oriente, embora sejam essas sempre as que mais me confortam, tenho encomendado menos comida também de fora, mas mantenho o hábito de comer pão caseiro que é entregue todas as semanas cá em casa e nos últimos dias tenho bombado no chá. Eu que raramente bebia chá, a seguir ao almoço preparo um jarro que coloco na garrafa térmica e vou bebendo pela tarde fora. Hoje ainda perguntei ao meu filho se queria fazer um bolo, mas ele disse que fazíamos amanhã e a minha dieta agradeceu!

Em suma, não há nada de muito relevante para vir aqui escrever numa base diária, mas acho que de vez em quando é útil parar e perceber todas as mudanças pequenas e subtis que vou introduzindo na minha vida para manter o meu bem-estar psicológico. Decidi também que para 2021 ia criar alguns hábitos mensais para alimentar as coisas que me são importantes e preciso ainda de encontrar algumas atividades online que me alimentem coisas essenciais ao meu espírito. Mas definitivamente o principal é mesmo deixar de passar tempo nas redes sociais. Estou inclusivamente a pensar deixar de ter as app instaladas no telemóvel.

Veremos como termina esta semana e quais as mudanças que quero introduzir na próxima. Para já, para já, 2021 parece estar francamente distante daquilo que eu idealizei mas a ver pela imagem que criei no fim-de-semana com as minhas colagens, parece ser ainda uma viagem mais profunda dentro de mim mesma. Acredito que depois disto o Mundo nunca mais vai ser como dantes mas quero também acreditar que a mudança social será para melhor. É hora de acordarmos, lavarmos a cara e percebermos que a batalha está lá fora à nossa espera. Que enquanto estejamos a dormir pelo menos possamos repousar em paz.

Comida de Confinamento.

No primeiro confinamento a minha encomenda para os amigos era açaí. Fazia um batido com aquilo, banana e aveia e era muitas vezes uma refeição completa.

Nesta segunda leva confinada a encomenda é pão de forma brioche. O meu filho adora aquilo e é uma coisa que me safa sempre nos dias em que não há pão fresco em casa.


Do Confinamento:

Falta-me poesia na vida. 

Diário de uma Quarentena #22.01.2021




Ontem tive um dia demasiado esmagador para conseguir fazer um apanhado de tudo o que aconteceu. A pressão e a incerteza sobre o fecho das escolas fizeram com que tivesse passado o dia inquieta e a tentar ponderar que opções tenho para os próximos tempos. Acabei o dia exausta, sem a mínima réstia de força anímica e ainda tive uma conversa bem profunda com o Homem Espelho. Para juntar à festa a minha primeira madrugada de confinamento teve 4 Bombeiros Sapadores cá em casa às 3h da manhã! Uma autêntica rave! Felizmente não foi por nada de grave, mas a tempestade de ontem ameaçou partir uma protecção de vidro que tinha na varanda e, como tal, achei por bem chamar os homens que percebem do assunto para resolverem a situação. Acabei por dormir 6h mas divididas em blocos. Uma noite animada, mas não pelos motivos que eu gostaria!

A criança hoje acordou pelas 8h mas eu ainda fiquei na cama até às 9h. Lá consegui levantar-me sem uma grua mas com muito cansaço e comecei o dia normalmente. Consegui trabalhar a manhã toda em paz e sossego enquanto ele se entretinha com o tablet e pelas 13h fui fazer o almoço. Almoçamos os dois em paz e a conversar sobre a vida lá fora. A seguir fui limpar os destroços da vinda dos bombeiros na madrugada, tratei da casa e pelas 16h saí para o passeio higiénico. Acabámos por andar menos do que eu gostaria porque o puto queixa-se muito do cansaço e porque entretanto começou a chover. Chegámos a casa, lanchámos e estivemos pelo sofá cada um a curtir as suas atividades. 

Jantámos tranquilos no sofá e agora escrevo enquanto ele dorme. Hoje foi um dia pacato e tranquilo, continuamos de saúde e com todos os essenciais para uma vida boa. E inspirada pela minha querida amiga Calíope, esta semana há flores cá em casa! Foi engraçado ontem ver um dos bombeiros que esteve cá, que por acaso já me tentou engatar via Facebook, olhar para o ramo das flores na mesa e fazer um ar de quem tinha toda uma história romântica para contar sobre mim. E nem vou comentar a minha indumentária de pijama de inverno!

Por hoje apenas desejo que não me faltem motivos para fazer piadas nunca e que todas as "desgraças" sejam como esta e deem tanto pano para mangas para fazer piadas como esta deu. Hoje há Bicho que quero ver, até porque ontem ver as imagens em directo da Nova Zelândia me deram um alento enorme, mas amanhã preparo-me para desligar das redes o fim-de-semana todo. Estou a precisar de tempo só para mim e de equilibrar aqui umas coisas dentro. Sinto-me estupenda e acho mesmo que este confinamento me vai ser incrível mas quero muito aproveitar o recolhimento para fazer o meu trabalho pessoal interno. Estou com tanta fé em 2021 que acredito que visto de fora pareça loucura!

Naveguemos. À costa ou em alto mar. Mas levemos a bússola, nunca percamos o Norte e saibamos sempre onde estão os nossos Faróis. E se nos desorientarmos, nem que seja temporariamente, que as noites escuras nos deixem ver as estrelas. Se tivermos isso em mente nunca estaremos perdidos.

Diário de uma Quarentena #20.01.2021



Hoje está a ser um dos dias mais duros deste segundo confinamento. Não sei se pelo céu cinzento, se por voltar a ver as coisas todas a fechar, a verdade é que este isolamento me voltou a bater. O "Bicho" ontem também foi muito pesado. Foi brutal ver mais de 116.000 pessoas a ouvir o Gustavo a falar da exaustão dos profissionais de saúde, do esforço incrível e brutal que estão a fazer e da importância de pensarmos neles.

Acordei à hora do costume (7h33) mas sentia-me tão exausta que desliguei o despertador e voltei para a cama para descansar o corpo e o espírito. O meu filho só acordou pelas 9h e como tal foi um início de manhã bem apressado. Por momentos pensei se devia levá-lo à escola ou não. Sinto-me dividida, tenho medo que ele apanhe o vírus, tenho medo que aconteça alguma coisa, tenho medo de estar a ser má mãe. Mas a opção dele estar 8h em frente ao tablet ou à TV enquanto eu trabalho também não me parece muito mais benéfica. Pode ser ligeiramente mais seguro, mas será menos saudável social, emocional e psicologicamente.

Voltei para casa encharcada até aos ossos porque, graças à tempestade, a chuva veio dançando com o vento e depois de vestir roupa confortável sentei-me para trabalhar mas estava apenas vazia. Fiquei horas a deambular pela internet, incapaz de me concentrar nas tarefas que tinha nas mãos. Acabei por parar perto das 12h para me concentrar, estudar um pouco de filosofia estóica e refletir sobre as 4 virtudes e estive a escrever algumas reflexões no meu caderno. Há aqui algumas coisas desarrumadas e pessoas que fazem questão de saltar das caixas e isso obrigou-me a pensar um pouco sobre o que queria fazer. Acabei por continuar a manter as minhas decisões anteriores, continuo a achar que foram a melhor opção.

Almocei comida de conforto, batatas cozidas com couve e feijão frade, e para a sobremesa tive uma fatia de Torta Twix que o meu vizinho de baixo me veio oferecer ontem. Consegui trabalhar à tarde com afinco. Despachei mais algumas coisas, recolhi mais alguns questionários para a minha tese e dados que precisava, escrevi umas notas metodológicas e fui fazendo as tarefas que não me obrigavam a pensar.

Terminei o dia pelas 17h30 para ir buscar o puto à escola e a cidade parecia estar deserta a viver o apocalipse. Pelo menos as pessoas estão em casa. Acredito que mais pelo mau tempo do que pela obrigação ou dever (não sei bem!) de confinamento. Parei na padaria a caminho de casa para comprar um pão quentinho ao meu filho, naquilo que já se tornou um ritual nosso e das senhoras que já sabem o que queremos mal aparecemos à porta e ainda consegui brincar com ele na rua a caminho de casa. Acho genuinamente que neste momento é a existência do meu filho que me mantém o ânimo. Se não fosse ele, o mais certo era estar prostrada no sofá até agora. Isto se tivesse conseguido sair da cama!

Mandei vir jantar de um dos meus restaurantes favoritos hoje, o meu rámen de eleição! Sinto-me demasiada exausta para cozinhar ou pensar no que comer e estou a dar o meu contributo semanal à restauração. Duvido muito que depois disto haja muitos sítios que se aguentem abertos e vou ter mesmo pena se o meu rámen deixar de existir no Porto. Escrevo isto enquanto espero pela entrega do jantar. A ideia é comer e preparar-me para assistir ao Bicho, que hoje espero que seja bem mais leve e descontraído. A minha telenovela da noite é o Bruno Nogueira.

Estou com receio da questão das escolas e de perceber exactamente o que é que o Governo vai fazer quanto a isso. Eu não me importo muito de ficar em casa com a criança, mas trabalhar nestes meses será impossível. Lembro-me muito bem da pressão psicológica que foram os meses anteriores de confinamento e recuso-me a voltar a pôr a minha saúde mental nesses limites. Continuo a tentar manter o espírito positivo e a achar que se sobrevivermos a esta vaga sem mazelas estamos safos, mas tenho medo. E assisto diariamente a coisas que me assustam, nomeadamente a divisão social. 

No entanto, comprometi-me a tentar procurar beleza todos os dias naquilo que me rodeia, tal como inconscientemente fiz no primeiro confinamento e hoje o ponto alto do dia foi ter avistado esta janela bonita que é de uma doçura ímpar. O meu filho e a rotina dele também têm sido boas tábuas de salvação, mas se realmente confinarmos por completo em que as escolas fecham novamente, vou ponderar muito seriamente ir viver com a minha mãe. 

E hoje senti muito a falta de uma presença masculina cá em casa. Dei por mim a fazer um exercício na minha cabeça e pensar com quem confinaria em caso de isto não ter data para acabar. Não há muitos homens. Mas o primeiro que me surgiu como opção foi o D., o homem fetiche da minha vida e o autor de um dos blogs mais bonitos que conheço. Conhecemo-nos por causa dos blogs no ido ano de 2007, mas a vida desencontrou-nos sempre. Falamos quase todas as semanas, trocamos músicas quase diariamente e sempre que volto a Lisboa acabamos a jantar. Apesar de sermos apenas um casal platónico, confinava com ele na hora!

Deixo-vos o exercício: Quem seriam as pessoas com quem confinariam sem data marcada para terminar? Pode bem valer a pena reavaliar essas prioridades e pensar na possibilidade. Tempos de pandemia podem ser muito pródigos em matéria das coisas que realmente importam!

Equanimidade:

" When the Gods wish to punish us, they give us exactly what we’ve always wanted. "


Diário de uma Quarentena #19.01.2021



Hoje acordei com o despertador pelas 7h30 e com esta música que está aqui em cima. Achei que era um óptimo mote para o dia nem sei bem porquê. Dormi pouco, porque "Bicho" ontem e acabei por sonhar a noite toda com as preocupações da pandemia. Neste momento não tenho medo da COVID, tenho mesmo é medo de precisar de um médico e do SNS e não ter vaga num hospital, seja porque motivo for. Porque a COVID não eliminou as outras doenças, nem impediu os acidentes. Isso somos nós que temos de tentar evitar todos os dias. Também por isso decidi suspender os meus Jantares da Quarentena, que habitualmente aconteciam ao Sábado à noite com os meus 2 amigos que também vivem sozinhos. Se isso deixar de acontecer por muito tempo, desconfio que vou perder uma bóia que me aguentou à tona no primeiro confinamento. Mas parte de mim sente-se egoísta em manter isto, apenas para o meu próprio e único proveito. Portanto a decisão está tomada para as próximas semanas. É aguardar e aguentar!

Acordei bem antes do meu filho e decidi meditar. Desde o início de 2021 esta tem sido uma das minhas resoluções que tenho tentado cumprir diariamente. A par com o acordar com despertador, 3 anos depois de deixar de o fazer achei que estava na hora de voltar a imprimir mais alguma produtividade e rentabilidade aos dias. E, na senda das resoluções de Ano Novo, decidi também criar um mini-escritório em casa, ou seja, um espaço de trabalho apenas meu. É assim uma espécie de girl cave. Um dia mostro como ficou a coisa. Ainda não está pronta, porque estou à espera que me entreguem a cadeira que demorava 3 semanas a chegar e com isto do confinamento nem sei.

Entretanto despachei-me a horas normais e decidi ir fazer a minha caminhada logo de manhã. Acabei por encontrar esta luva perdida no chão com uma mensagem que nem eu sei bem interpretar. Mas foi engraçado porque me lembrou de uma coisa incrível que conheci na semana passada, a Street Wisdom, uma iniciativa mundial em que a sabedoria está sempre disponível e é encontrada nos pequenos sinais que nos rodeiam. E isto é tão a minha crença e o meu modo de vida que até me arrepiou. Fiz um workshop online sobre isto e inscrevi-me logo como Embaixadora. Esta é uma das primeiras coisas que vou organizar quando a pandemia abrandar e podermos voltar a andar na rua.

Passei a manhã ao telefone com uma amiga que estava num dia mais em baixo, enquanto caminhava e fazia as compras da semana no supermercado e pelas 13h fui almoçar porque à tarde tinha gravações no Porto Canal e precisava de me despachar e estar apresentável. Acabei por deixar a casa virada do avesso, mas pelas 16h saí para o programa e aquela 1h30 num estúdio de TV deram-me uma sensação de paz e normalidade que me ajudou a acalmar. Saí de lá linda com aquela maquilhagem. Ouvi elogios rasgados na escola do meu filho quando o fui buscar. Eis um bom motivo para a escola não fechar!

Voltei para casa às 18h30, andei a arrumar tudo, passei a ferro e despachei o jantar porque pelas 22h há Bicho novamente, com o Gustavo Carona que já tive oportunidade de entrevistar em Novembro nas CreativeMornings Porto. Hoje senti o dia como mais normal. Mas a verdade é que vi demasiadas pessoas na rua para um estado de confinamento que devia ser mais restritivo ainda do que em Março. Acho que estamos todos cansados, desesperados, desanimados e isso torna-nos muito menos empáticos para com as reais necessidades do país. Estou cansada de ver as minhas redes sociais pejadas de críticas ao Governo, às eleições, aos Ministros. Vivemos um tempo ímpar e por isso é tempo de nos unirmos na frente da batalha ao vírus e não entrarmos em lutas e desgates de outra natureza. É tempo de amarmos radicalmente o próximo. De nos permitirmos sentir, chorar, desesperar, mas nunca esquecer que não estamos sozinhos. Podemos estar mais isolados, mas estamos juntos no mesmo planeta.

Que sejamos radicalmente humanos.

Diário de uma Quarentena #18.01.2021




E eis que voltámos a um novo confinamento. Cada vez me sinto mais dorida, cada vez mais sinto que estou encolhida e que o meu peito está a mirrar. Cada vez mais sinto que estão a fazer de nós máquinas, casa-trabalho/escola-casa. Eu entendo perfeitamente a necessidade disto, entendo que o SNS está a dar as últimas, numa altura em que já estava presos por fios, entendo que há pessoas a morrer e profissionais em exaustão emocional. Entendo que para uns terem liberdade, há uma imensa classe que está a ser prejudicada. E não fala só dos médicos ou enfermeiros, falo de professores, polícias, bombeiros, trablhadores de supermercados. Entendo isso tudo, menos esta forma medieval de controlar uma pandemia. Estamos a fazer exactamente o mesmo que há 100 atrás, num tempo em que a vida é significativamente diferente e temos tecnologia de ponta para uma data de coisas. Há 100 anos não hvaia homens no espaço, for God sakes!

Mas ainda assim agradeço. Agradeço a relativa normalidade da minha vida. Isto que estou a viver neste momento é muito próximo do que foi a minha vida nos últimos 5 anos. De alguma forma sinto que a minha vida me preparou para enfrentar estes tempos com muito mais resistência física e psicológica. Sinto-me muito rápida a adaptar-me a estes tempos, a afinar rotinas, porque sei efectivamente o que me é importante, quase vital, para uma vida estável e com qualidade. E o que faltava saber descobri em 2020. Ainda assim, obviamente que ressaco os abraços, os beijos, os amigos, as surpresas e as possibilidades ilusoriamente ilimitadas de qualquer coisa. Parte de mim, sente que 2021 é mais um ano perdido na minha vida amorosa, profissional, emocional e social. E sei, pela experiência de 2020 que não é. Que é apenas uma imensa possibilidade de ir mais fundo, de criar raízes mais grossas e fundações mais estáveis. Mas custa, caramba!

Hoje acordei sem despertador, porque ontem estava tão emocionalmente exausta de desenterrar coisas cá dentro que me esqueci de preparar a semana. E para ajudar à festa pelas 5h da manhã fui arrancada de um dos mais estranhos, profundos e ricos sonhos que tive nos últimos tempos. Mais ou menos à mesma hora, o meu filho decidiu vir dormir para a minha cama e isso acabou por acalmar o meu espírito. Eram quase 8h30 quando eu acordei e comecei a preparar o dia. Entrámos na rotina "normal" já que a escola dele se mantém aberta, ainda que já fossem quase 9h45 quando lá chegámos.

Depois de o deixar na escola, decidi caminhar um bocado. Tomei um caminho maior para voltar a casa e aproveitar para fazer parte do passeio higiénico. Percebi hoje também porque é que a máscara me incomdoda tanto. É mais uma questão psicológica de perda de individualidade, de ser apenas mais um ser indefrenciado e isso acaba por nos desumanizar. Esse para mim é o grande risco de andarmos de cara tapada, deixamos de ser uma pessoa para sermos apenas mais um indivíduo indiferenciado. Acabei no parque que tenho em frente a casa, sentada ao sol a ler o meu livro durante uns 20 minutos sem máscara e sozinha no meio da Natureza. Chega a ser estranho, mas este abrandar do mundo tal como está neste momento, é a forma quase perfeita de viver. Bastava poder estar com pessoas sem medos e riscos e não mudaria muito na minha vida. O que de algum modo me está a ajudar a perceber o que gostava que fosse a minha vida a seguir a isto.

Passei a manhã a criar um curso de formação novo, que é claramente a minha cara, e que junta os conceitos de indústria 4.0 e sociedade 5.0. Depois estudei um pouco, maioritariamente sobre filosofia estóica e objetivos de desenvolvimento sustentável, tratei de coisas em casa e acabei por ir almoçar pelas 14h, que é de facto o meu horário de bio ritmo normal. Depois disso passei a tarde a terminar tarefas mundanas, maioritariamente de cuidado e organização da minha vida familiar. Fui buscar o meu filho à escola antes das 18h, morri mais um bocadinho com as restrições cada vez mais apertadas e tratei do jantar.

Estou a sentir-me claustrofóbica e a definhar. Ainda que esta imensa oportunidade de ir mais fundo e mais dentro seja óptima, a verdade é que estou a precisar de uma pausa disso também. Vou acabar a noite a ver O Bicho do Bruno Nogueira para desanuviar, rir um bocado e ter fé que isto vai passar. 

Espelho:

 Eu também já fui a pessoa que cortava amarras a direito e a frio.